Bispo pede mudança no ensino da Igreja sobre a sexualidade
Jerry Filteau
National Catholic Reporter
16.03.2012
No 7º Simpósio Nacional sobre Catolicismo e Homossexualidade, nos Estados Unidos, o bispo australiano emérito Geoffrey Robinson (foto) pediu, na última sexta-feira, "um novo estudo de tudo o que tem a ver com a sexualidade" – uma espécie de estudo que ele previu que "terá uma profunda influência sobre o ensino da Igreja referente a todos os relacionamentos sexuais, tanto hetero quanto homossexuais".
"Se o ensino da Igreja sobre os atos homossexuais deve mudar, o ensino básico que rege todos os atos sexuais também devem", disse.
Robinson, padre desde 1960 e bispo auxiliar de Sydney de 1984 até sua aposentadoria por motivos de saúde em 2004, disse no simpósio de Baltimore, promovido pela New Ways Ministry, que, "pelo fato de o sexo ser uma forma tão vital de expressar o amor, o sexo é algo sempre sério".
Essa visão, defendida pela Igreja, está em contraste com a percepção geral da sociedade moderna, que "parece estar dizendo cada vez mais que o sexo em si não é algo sério", afirmou.
Para que a Igreja possa lidar com o sexo seriamente, no entanto, isso não significa por si só que a Igreja deve continuar aceitando acriticamente suas compreensões tradicionais da moral sexual, defendeu.
Robinson foi um dos conferencistas de destaque do simpósio ocorrido entre os dias 15 e 17 de março, que reuniu cerca de 400 gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, católicos questionadores e membros da Igreja que exercem seu ministério junto a eles. O primeiro dia do encontro foi dedicado a um retiro espiritual orientado pelo bispo.
No almoço do simpósio na sexta-feira, o governador de Maryland, Martin O'Malley [foto ao lado], se dirigiu ao grupo sobre uma lei estadual pendente, que ele havia assinado poucos dias antes, legalizando no Estado o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Os opositores da nova lei lançaram uma campanha para um referendo popular em novembro, para revogá-la, mas várias pesquisas recentes indicam que uma ligeira mas crescente maioria da população eleitoral do Estado apoia a legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
Em sua palestra à tarde – disponível, juntamente com outros escritos, no seu site – Robinson não abordou a crescente questão em debate nos EUA sobre se as uniões entre fiéis do mesmo sexo devem ser abençoadas com o título e com todos os direitos legais do "matrimônio". Mas ele argumentou que a avaliação moral da Igreja a respeito de tais uniões mudaria drasticamente se se reavaliasse a sua abordagem tradicional a toda a atividade sexual humana.
Ele disse que, enquanto a ênfase da Igreja sobre o significado profundo do sexo é correta, a sua abordagem do direito natural à moral sexual e a sua interpretação das antigas passagens bíblicas sobre a homossexualidade e outras atividades sexuais precisa de correção.
Robinson – cujas atividades antes de se tornar bispo incluíam o ensino de direito canônico e a presidência da Sociedade de Direito Canônico da Austrália e da Nova Zelândia – disse que a sua própria percepção de como o sexo era sério aconteceu quando os bispos australianos o chamaram para chefiar uma investigação sobre as causas do abuso sexual clerical contra menores em seu país e sobre como resolver esses problemas.
"Paradoxalmente, foram os efeitos do abuso sexual de menores, mais do que qualquer outra coisa, que me convenceram de que o sexo é algo sério", disse.
Ele começou sua conferência com três premissas básicas:
•"Não há nenhuma possibilidade de uma mudança no ensino da Igreja Católica sobre o tema dos atos homossexuais, a menos que e até que ocorra, primeiro, uma mudança em seu ensino sobre os atos heterossexuais.
•"Há uma séria necessidade de uma mudança no ensino da Igreja sobre os atos heterossexuais.
•"Se e quando essa mudança ocorrer, ela inevitavelmente terá um efeito sobre o ensino sobre os atos homossexuais".
"Se o ponto de partida [no ensino da Igreja atual] é que todo ato sexual deve ser tanto unitivo quanto procriativo, não há nenhuma possibilidade de aprovação dos atos homossexuais", disse Robinson.
No entanto, ele questionou o argumento da lei natural, especialmente conforme estabelecido pelos papas recentes, e sugeriu que uma leitura mais nuançada dos mandamentos divinos na Escritura e dos ensinamentos de Jesus levaria a um conjunto diferente de normas morais – começando por uma mudança no ensino da Igreja de que todo ato ou pensamento sexual que caia fora de um ato conjugal de amor aberto à procriação é um pecado mortal por ser uma ofensa direta contra o próprio Deus em seu plano divino para a sexualidade humana.
"Durante séculos, a Igreja ensinou que todo pecado sexual é um pecado mortal. Esse ensinamento pode não ser proclamado hoje em voz tão alta quanto antes, mas foi proclamado por muitos papas, nunca foi retratado e afetou inúmeras pessoas", afirmou Robinson.
Robinson tem sido uma fonte de polêmica na Igreja desde ao menos 2002, quando ele pediu que o Papa João Paulo II encomendasse um estudo em nível eclesial sobre o abuso sexual clerical de menores na Igreja.
Seu livro de 2007 Confronting Power and Sex in the Catholic Church: Reclaiming the Spirit of Jesus [Confrontando poder e sexo na Igreja Católica: Reivindicando o Espírito de Jesus], atraiu a ira de seus colegas bispos da Austrália, que se opuseram à sua turnê de palestras em 2008 nos Estados Unidos para falar sobre algumas das questões abordadas no livro.
O texto completo de sua conferência no simpósio do New Ways Ministry, assim como outros escritos e referências a polêmicas em que Robinson se envolveu em seus esforços para mudar a forma como a Igreja aborda as questões da moral sexual – muito detalhados para serem resumidos em um único artigo – podem ser encontrado em seu site.
Tradução de Moisés Sbardelotto.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Quarta-feira, 21 de março de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/507692-bispo-pede-mudanca-no-ensino-da-igreja-sobre-todos-os-atos-sexuais
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