Secretário da CNBB sugere saída de Temer e diz que Lula não resolve a crise
João Fellet
Bispo afirma que presidente Temer não tem condições
éticas
de continuar
Secretário-geral
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Ulrich Steiner avalia não ver condições éticas para a
permanência do presidente Michel Temer no cargo após a revelação de detalhes de
seu encontro com o empresário Joesley Batista, do grupo JBS, em março.
Mas ele
também acredita que o país não superaria o atual "momento de tensão"
com uma eventual candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
devido à "resistência de uma parcela da sociedade à pessoa dele, dadas as
contínuas notícias de que estaria implicado na Lava Jato".
Para Steiner, Temer deveria ter denunciado Batista quando, no encontro que os
dois tiveram no Palácio do Jaburu, o empresário lhe disse que havia corrompido
autoridades para ser favorecido em investigações sobre sua empresa.
No dia 18 de maio, o Supremo Tribunal Federal
(STF) divulgou a conversa, gravada por Joesley como parte de seu acordo de
delação premiada com a Procuradoria Geral da República. O presidente diz que o
áudio foi editado e não tem validade jurídica.
"Se
alguém vem e diz que está subornando juiz e o Ministério Público, não é
possível que quem está à frente do Estado não se mexa", afirma Steiner,
enfatizando se tratar de opinião pessoal sua, e não uma posição oficial da
CNBB.
Mas Steiner diz que a nota emitida pela presidência da CNBB no dia 19 de maio, um dia
após a divulgação da conversa de Joesley com Temer, com o título "Pela Ética na Política" (dizendo
estar acompanhando "com espanto e indignação as graves denúncias de
corrupção política acolhidas pelo STF"), foi uma resposta da entidade
"para dizer que, para alguém que
exerce um cargo público, a idoneidade é tudo".
Principal organização ligada à Igreja
Católica no Brasil, a CNBB foi fundada em 1952 e desenvolveu uma forte atuação
política. O grupo se tornou uma das principais vozes contrárias à ditadura
militar (1964-1985), embora tivesse apoiado o golpe no início. Paralelamente,
aproximou-se de movimentos de esquerda e teve influência na fundação do PT.
A CNBB tem
mantido postura crítica ao governo Temer e se pronunciado contra algumas das
principais propostas do presidente, como o projeto de reforma da Previdência.
Em entrevista à BBC Brasil na sede do órgão, na terça-feira (dia 23 de maio), Steiner diz preferir a realização de
eleições diretas numa eventual saída de Temer. Porém, se houver eleição
indireta, afirma que a escolha deve ser debatida com a sociedade e não pode ser
imposta pelo Congresso ou por grupos "ligados ao mercado", sob o risco de haver uma convulsão social.
Bispo auxiliar de Brasília, Steiner é secretário-geral da CNBB desde
2011, posto que assumiu após atuar na prelazia de São Félix, em Mato
Grosso. Catarinense de Forquilha e franciscano da Ordem dos Frades Menores, foi
ordenado padre pelo ex-arcebispo de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns
(1921-2016), seu primo.
Confira os principais trechos da entrevista:
BBC Brasil: Como o senhor recebeu a notícia sobre a delação da JBS
envolvendo o presidente Michel Temer?
Dom Leonardo
Ulrich Steiner: Quase atônito. Nós pensávamos que o pior já tivesse passado. Claro
que, de alguém que está há tanto tempo na política e num partido que também
vinha sendo acusado na Lava Jato, se podia esperar alguma coisa, mas não nesse
montante. Por isso a presidência [da
CNBB] tomou a iniciativa de emitir uma nota para dizer que, para alguém que
exerce um cargo público, a idoneidade é tudo.
Não estávamos nos referindo apenas ao
presidente da República, mas também ao deputado [Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR)] e ao senador [Aécio Neves (PSDB-MG)] envolvidos, e também a outros que agora
começam a aparecer com mais nitidez. Talvez seja a continuidade de uma crise
que estamos vendo já há um bom tempo no Brasil, que não é uma crise econômico-política, mas uma crise ética.
A coisa
pública é tratada como vantagem pessoal, ou como
vantagem do partido, de determinados
grupos. O que espanta é que falem de bilhões como se fossem mil reais.
BBC Brasil: Qual o melhor desfecho para o impasse em relação à
permanência do presidente no cargo?
Dom Steiner: A CNBB está discutindo essa
questão internamente. Não temos ainda uma posição. Estamos nos encontrando com
muitas pessoas e vendo qual seria a melhor saída. Várias pessoas têm sugerido
eleições diretas para presidente e vice. A questão é: é necessário mexer na
Constituição? Como a questão não foi regulamentada ainda, vê-se alguma possibilidade de haver eleições diretas para presidente e
vice sem mexer na Constituição.
A outra
saída em que se fala mais é do próprio
Congresso eleger um novo presidente e um novo vice, no caso de renúncia ou de
cassação do atual presidente. Mas penso que é sempre importante passar pelo
voto, é sempre importante ouvir a sociedade.
BBC Brasil: O senhor não vislumbra a permanência de Temer no
cargo?
Dom Steiner: Por aquilo que ele mesmo
tem falado nas entrevistas, não vejo
condições éticas de ele continuar. Não se trata apenas do áudio, trata-se
de uma questão ética. Se alguém vem e
diz que está subornando juiz e o Ministério Público, não é possível que quem
está à frente do Estado não se mexa, não denuncie. Isso é gravíssimo.
BBC Brasil: Temer diz que não acreditava que o empresário Joesley
Batista estivesse falando a verdade, que as afirmações eram uma
"fanfarronice" dele.
Dom Steiner: Pode ser que sejam, mas mesmo assim ele tem de ser investigado.
Não se pode ficar quieto. A ética
está acima de qualquer outra coisa para o exercício do próprio mandato. Estou
falando isso como uma opinião pessoal - a CNBB não discutiu internamente essas
questões. Mas o próprio presidente, ao se defender, está dizendo que a situação ficou extremamente frágil para
continuar a exercer o seu mandato.
BBC Brasil: É desejável que Temer renuncie?
Dom Steiner: Não tenho como dizer,
porque isso é algo que depende da pessoa.
BBC Brasil: Há clima para o avanço das reformas que o governo
vinha defendendo?
Dom Steiner: Penso que não. Como podem
pessoas que estão tão envolvidas na Lava Jato decidir os destinos da população
brasileira? Depois, há a necessidade de maior diálogo com a sociedade em
relação, por exemplo, à [reforma da] legislação trabalhista. Sobre a
terceirização, não houve diálogo. Sobre
a reforma da Previdência, até agora não se mostraram os dados reais.
Fala-se em déficit, mas como funciona a Previdência brasileira? É preciso debater muito mais.
Em todas essas questões, sempre se fala num
ponto: que é preciso sinalizar ao mercado, que é preciso colocar a economia em
ordem. Não se fala em pessoas, não se
fala em Brasil. Isso é grave. É uma
mentalidade de mercado.
É preciso que
o Congresso, diante de uma crise dessas, comece a rever as próprias ações e
atitudes para o bem do povo brasileiro, e não para o bem de um determinado grupo. Veja o
que está sendo feito em relação à [diminuição
das áreas protegidas na] Amazônia. Não é uma questão apenas sobre a
preservação da natureza, mas uma questão ética em relação à casa comum, para
usar uma expressão do Santo Padre.
BBC Brasil: Uma das principais saídas discutidas seria uma eleição
indireta em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro Henrique
Meirelles ou ex-ministro Nelson Jobim assumiriam a Presidência até próxima
eleição. Como enxerga essas hipóteses?
Dom Steiner: Não citaria nomes, mas, se houver uma eleição indireta, é preciso
um debate para chegar num consenso de um nome que não esteja ligado a
falcatruas, que não esteja ligado a essa questão toda da Lava Jato, que
tenha dignidade do cargo e também consiga dialogar e levar o país adiante.
Um partido não vai poder impor um nome, o Congresso Nacional não vai poder impor um
nome à sociedade, um pequeno grupo que esteja interessado no mercado não
pode impor ao Brasil um presidente. Senão corremos
o risco de ter uma convulsão social.
BBC Brasil: Na oposição ao governo, há uma aglutinação em torno do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a expectativa de que ele volte à
Presidência numa eventual eleição direta. Como o senhor vê essa movimentação?
Dom Steiner: Quanto ao Lula ser
candidato, ele tem esse direito, assim como tem o Fernando Henrique (Cardoso),
o (Geraldo) Alckmin, o (Jair) Bolsonaro e outros que estão se propondo a ser
candidatos. A dificuldade pessoal que eu
vejo é a resistência de uma parcela da sociedade à pessoa dele, dadas as
contínuas notícias de que estaria implicado na Lava Jato. E nós não
superaríamos esse momento de tanta tensão no Brasil.
Existe uma tensão muito grande, e essa tensão talvez poderia até crescer [se
Lula for eleito]. Precisaria haver gestos muito significativos dele para
ajudar numa reconciliação da sociedade brasileira.
BBC Brasil: Do ponto de vista ético, Lula teria condições de
assumir esse papel?
Dom Steiner: Ele precisaria primeiro mostrar para a Justiça a inocência.
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Operação Lava Jato - Polícia Federal em ação "Lava Jato tem sido importante para o Brasil, mas tem algumas incoerências", disse dom Leonardo Steiner |
BBC Brasil: Como o senhor avalia a Operação Lava Jato?
Dom Steiner: Ela tem sido muito
importante para o Brasil. Ela tem
mostrado onde estamos, esse envolvimento das empresas na política, esse
beneficiamento mútuo, um Congresso eleito pelo poder das empresas. Creio
que a sociedade brasileira está tomando consciência de que isso não pode
continuar assim.
Mas também a Lava Jato veio demonstrar
algumas incoerências. Por que esse alarde no momento de prender pessoas? Quando
vão prender, os jornalistas já estão lá. O Ministério Público não precisa disso
pra exercer seu trabalho. E a Lava Jato não tomou cuidado em relação às nossas
empresas. As nossas empresas envolvidas
estão numa situação muito difícil, ao passo que as pessoas envolvidas estão
livres e soltas. Então existem algumas dificuldades que precisariam ser
discutidas para que a Lava Jato realmente ajudasse, como alguns querem, numa
expressão que não é muito feliz, a passar o Brasil a limpo.
BBC Brasil: Como o senhor vê o crescimento de figuras que tentam
se projetar como alheias à política tradicional, como o deputado federal Jair
Bolsonaro (PSC-RJ)?
Dom Steiner: Com uma dificuldade muito
grande. Você certamente acompanhou as eleições nos Estados Unidos e deve estar
acompanhando o momento crítico que vive o país. Normalmente os salvadores da pátria não dão certo. Diante do
descrédito da política e dos políticos, existe
essa tentação de buscar alguém de fora da política para salvar a pátria. Não é
o melhor caminho.
Há cada vez mais a necessidade de esclarecer às pessoas a importância da política, mas
também a importância de termos no meio
político pessoas que tenham condições de governar o país. Normalmente os
salvadores da pátria têm um espiritozinho um pouco ditatorial.
BBC Brasil: Tem se falado no prefeito de São Paulo, João Doria
(PSDB), e até no apresentador Luciano Huck como figuras que poderiam tentar
voos mais altos na política, promover alguma renovação. Que acha dos dois?
Dom Steiner: Não os conheço. Não sei se
seriam a solução. Deseja-se que a velha política desapareça, isso é verdade, a
gente sente. Mas creio que encontraremos
políticos, que possam exercer seu mandato com dignidade e integridade.
BBC Brasil: Recentemente o Conselho Indigenista Missionário
(Cimi), órgão ligado à CNBB, foi alvo da CPI da Funai, que investigou processos
de demarcações de terras indígenas. Deputados ruralistas acusaram o Cimi de
estimular "demarcações fraudulentas". Como o senhor encarou o
processo?
Dom Steiner: A instalação dessa CPI tinha apenas o interesse de encostar na parede
diversas entidades que assumiram a causa indígena. Não havia nenhum
interesse nessa CPI de realmente defender os povos indígenas. Por que, ao apresentar o relatório, eles
não incriminaram nenhum grande fazendeiro?
O Cimi
tem feito um trabalho extraordinário. Vivi numa região do Mato Grosso onde
tínhamos vários povos indígenas e um trabalho muito importante na área
educacional, de saúde, no resgate das tradições, dos rituais. Quando um povo se
sente inteiro na sua identidade, ele começa a exigir mais. Ele também cria
autoconsciência de que precisa de espaço para viver. A terra para eles não é uma propriedade, a terra é uma casa. E isso
incomoda muita gente.
Acho que no
futuro [os deputados da CPI] vão se envergonhar do que fizeram, porque não se
faz com irmãos o que eles estão fazendo com os índios. E eles não estão por
dentro da questão indígena, estão somente interessados na questão das terras. É
preciso dizer isso.
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