PAPA FRANCISCO E O ISLÃ
Francisco no Egito reforça o eixo Vaticano-Cairo-Teerã
para isolar o terrorismo do Califado
Marco Politi
Jornal
«Il Fatto Quotidiano»
01-04-2017
O que resta da viagem de Francisco ao Cairo?
E a resposta é: a afirmação de uma forte convergência
entre o Vaticano e
o centro mais importante do Islã sunita – a
Universidade de Al-Azhar – na
oposição ao desvio do terrorismo jihadista
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PAPA FRANCISCO ENCONTRA O IMÃ E LÍDER RELIGIOSO ISLÂMICO EGÍPCIO AHMED AL-TAYEB Cairo (Egito), 28 de abril de 2017 |
Francisco não foi ao Egito para fazer uma
pregação (às vezes, na mídia, parece que só ele fala como portador de verdade),
mas para cimentar um entendimento com o
Islã pensante sobre dois pontos-chave:
* a recusa clara da violência
homicida envolta em motivos religiosos e
* a afirmação dos direitos de
cidadania dos crentes de todas as religiões.
Al-Tayeb, sobre essas questões, não
apenas hoje, é explícito, e, não por acaso, o Estado Islâmico [EI] o retrata
como um traidor. “Atacar cristãos e os
crentes de outras religiões como falsa religiosidade é uma traição dos
autênticos ensinamentos do Islã”, defendia ele há dois anos. “Existe um direito original de que Alá
dotou o homem: um direito que diz respeito à liberdade e à libertação das
constrições e, especialmente, o direito à liberdade religiosa, de credo e de
confissão”, declarou ele em fevereiro deste ano. Acrescentando que as “religiões celestes” (os monoteísmos
abraâmicos – judaísmo, cristianismo e islamismo) necessariamente devem praticar uma relação de recíproco conhecimento,
“cooperação e integração”, pois isso “representa uma exigência religiosa de
primordial importância”.
Nessa linha, a viagem de Francisco reforça uma estratégia de isolamento da
propaganda jihadista: um fato importante no plano geopolítico. É verdade, o
mundo islâmico não está estruturado como o católico. Não existe uma estrutura
unitária capaz de ditar regras para todos. Não existe um papa. Cada comunidade
tendencialmente segue por conta própria. Com
mais razão, é importante amarrar relações e convergências com esses centros,
que podem exercer alguma influência.
O Cairo
tem um destaque particular para o mundo
islâmico sunita. Teerã tem um
papel particular no campo islâmico xiita.
O Vaticano tem ótimas relações com ambos. Também se pode dizer, à luz dessa
viagem, que a Santa Sé, com o Papa
Francisco, criou um eixo Vaticano-Cairo-Teerã, que serve de barragem ao
maremoto do terrorismo de marca islamita. E, ao mesmo tempo, de baluarte à
histeria anti-islâmica, que contamina crescentes grupos sociais e políticos no
Ocidente.
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PAPA FRANCISCO E PAPA TAWADROS II (LÍDER CRISTÃO COPTA - EGITO) |
“Desmascarar, como responsáveis religiosos, a
violência que se disfarça de suposta sacralidade... (Proferir) um ‘não’ forte e
claro a todas as formas de violência, vingança e ódio cometidos em nome da
religião ou em nome de Deus”, é a mensagem central levada por Francisco na sua
viagem. O fato de os seus interlocutores estarem na mesma sintonia é um bom sinal
no plano político mundial, embora a luta
contra o Estado Islâmico e o jihadismo (fenômenos muito modernos e, de fato,
nada medievais) requer de todos um fôlego longo e esforços em muitas direções.
O Pe. Samir Khalil Samir, jesuíta, renomado
teólogo e islamólogo de origem cairota e professor há mais de uma década no
Pontifício Instituto Oriental de Roma, comentava às vésperas da viagem que
Bergoglio “vem da Argentina, não conhece o Islã. Ele conheceu em Buenos Aires
um imã muito gentil (…) mas a sua ignorância do Islã não favorece o diálogo.
Bergoglio disse muitas vezes que o Islã é uma religião de paz, e isso é
simplesmente um erro”.
A frase é sintomática do estilo de desprezo
com que o papa é tratado por aqueles que não concordam com ele. Na realidade, no Cairo e em outras
ocasiões, Francisco está levando em frente uma linha geopolítica iniciada
vigorosamente por João Paulo II, que conhecia bem os trechos agressivos e
violentos contidos no Alcorão (como, aliás, igualmente na Torá = a Lei judaica),
mas considerava um erro fundamental
fazer do Islã o “diabo do século XX” e trabalhou sistematicamente pelo diálogo
entre cristãos e muçulmanos.
O próprio Bento XVI, depois do dramático deslize do discurso de Regensburg
(com erros reconhecidos mais tarde pelo próprio pontífice), defendia a
necessidade de “consolidar os laços de amizade e de solidariedade entre a Santa
Sé e as comunidades muçulmanas do mundo”. Sem deixar de reiterar, em ocasiões
oficiais, “toda a estima e o profundo respeito pelos crentes muçulmanos”.
Bento foi o
primeiro papa a rezar em um templo muçulmano, a Mesquita Azul, de Istambul [Turquia]. Assim como João Paulo II, beijou o Alcorão, um
gesto que, na época, horrorizou o Pe. Samir, segundo o qual isso tinha
provocado um “choque para muitos cristãos no Oriente Próximo”, quase como se
isso significasse que “o Alcorão é divino”, o que, segundo o jesuíta, não
estava nas intenções de Wojtyla.
Em outras palavras, Francisco está continuando uma estratégia internacional de longo prazo
da Santa Sé, estratégia particularmente valiosa em uma fase em que se trata
de tirar água cultural dos “peixes” do terrorismo islamita.
Ao mesmo tempo, Francisco reiterou que, na
Terceira Guerra Mundial em pedaços, que está em curso, “toda ação unilateral que não inicie processos construtivos e compartilhados
é, na realidade, um presente para os defensores dos radicalismos e da
violência”. Uma advertência a Washington e a Moscou.
Traduzido do
italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse
a versão original, clicando aqui.
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