6º Domingo da Páscoa – Ano A – Homilia
Evangelho: João 14,15-21
Naquele tempo,
disse Jesus a seus discípulos:
15
Se me amais, guardareis os meus mandamentos,
16
e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça
sempre convosco:
17
o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o
conhece.
Vós o
conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós.
18
Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós.
19
Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu
vivo e vós vivereis.
20
Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós.
21
Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama,
será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
OUTRO DEFENSOR
A verdade é que os humanos são bastante
complexos. Cada indivíduo é um mundo de
desejos e frustrações, ambições e medos, dúvidas e interrogações. Frequentemente
não sabemos quem somos nem o que queremos. Desconhecemos até para onde está se
movendo a nossa vida. Quem nos pode ensinar a viver de maneira correta?
Aqui não servem as colocações abstratas nem
as teorias. Não basta esclarecer as coisas de modo racional. É insuficiente ter
diante de nossos olhos normas e diretrizes corretas. O decisivo, mesmo, é a arte de atuar dia a dia de maneira positiva,
sadia e criadora.
Para um cristão, Jesus é sempre seu grande
mestre de vida, porém não o temos mais ao nosso lado. Por isso, adquirem tanta
importância estas palavras do Evangelho: «eu
rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre
convosco: o Espírito da Verdade».
Necessitamos
de alguém que nos recorde a verdade de Jesus. Se a esquecermos, não saberemos quem somos
nem o que somos chamados a ser. Desviaremos do Evangelho novamente.
Defenderemos em seu nome causas e interesses que têm pouco a ver com Jesus.
Acreditamos na possessão da verdade ao mesmo tempo em que a desfiguramos.
Necessitamos
que o Espírito Santo ative em nós a memória de Jesus, sua presença viva, sua
imaginação criadora. Não se trata de despertar uma recordação do passado: sublime,
comovente, íntima, porém recordação. O que o Espírito do ressuscitado faz
conosco é abrir nosso coração ao encontro pessoal com Jesus como alguém vivo. Somente esta relação afetiva e cordial com
Jesus Cristo é capaz de transformar-nos e produzir em nós uma maneira nova de
ser e de viver.
O Espírito é
chamado no Quarto Evangelho de «Defensor» ou «paráclito» porque nos defende do
que nos pode destruir. Há muitas coisas na vida das quais não sabemos nos defender por
própria conta. Necessitamos luz, fortaleza, contínuo alento. Por isso, invocamos o Espírito. É a melhor
maneira de nos colocarmos em contato com Jesus e vivermos protegidos daquilo
que nos pode desviar dele.
VIVER NA VERDADE
Jamais os cristãos se sentiram órfãos. O vazio deixado pela morte de Jesus foi
preenchido pela presença viva do Espírito do Ressuscitado. Este Espírito do
Senhor preenche a vida daquele que crê. O Espírito
da verdade que vive conosco, está em nós e nos ensina a arte de viver na
verdade.
Aquilo que caracteriza a vida de uma pessoa
que crê de verdade não é a ânsia de prazer nem a luta pelo êxito nem sequer a
obediência estrita a uma lei, mas a busca
alegre da verdade de Deus sob o
impulso do Espírito.
A pessoa que verdadeiramente crê não cai no legalismo nem na anarquia, mas busca com o coração limpo a verdade. Sua vida não
está programada por proibições, mas é animada e impulsionada positivamente pelo
Espírito.
Quando vive esta experiência do Espírito,
aquele que crê descobre que ser cristão não é um peso que oprime e atormenta a
consciência, mas é deixar-se guiar pelo
amor criador do Espírito que vive em nós e nos faz viver com uma
espontaneidade que nasce não de nosso egoísmo, mas do amor. Uma espontaneidade na qual alguém renuncia a seus
interesses egoístas e confia à alegria do Espírito. Uma espontaneidade que
é regeneração, renascimento e reorientação contínua para a verdade de Deus.
Esta vida nova no Espírito não significa
unicamente vida interior de piedade e oração. A verdade de Deus que produz
em nós um estilo de vida novo confrontado ao estilo de vida que surge da
mentira e do egoísmo. Vivemos em uma
sociedade onde:
* à mentira chama-se diplomacia,
* à exploração chama-se negócio,
* à irresponsabilidade chama-se tolerância,
* à injustiça chama-se ordem
estabelecida,
* à sensualidade chama-se amor,
* à arbitrariedade chama-se liberdade,
* à falta de respeito chama-se sinceridade.
Dificilmente esta sociedade pode entender ou
aceitar uma vida modelada pelo Espírito. Porém, é este Espírito que defende aquele que crê e lhe faz caminhar para a
verdade, libertando-se da mentira social, da farsa e da intolerância de
nossos egoísmos.
Diz-se que o cristão é um soldado submetido à
lei cristã. É mais exato dizer que o cristão é um «artista». Uma pessoa que, sob
o impulso criador e alegre do Espírito, aprende a arte de viver com Deus e para
Deus.
Traduzido do
espanhol por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
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