PAPA FRANCISCO ADVERTE OS LEIGOS
“Não sejam mais papistas do que o papa,
mais restritivos do que a Igreja”,
pede Francisco aos leigos
Iacopo
Scaramuzzi
Vatican
Insider
27-04-2017
«Não clericalizai os leigos. Sede mais populares (não
populistas)»
«Anti-Cristo é uma fé não concreta»
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PAPA FRANCISCO Discursa durante Audiência à Federação Internacional da Ação Católica Sala Velha do Sínodo (Vaticano), 27 de abril de 2017 |
“Por favor, vocês não podem ser mais
restritivos do que a própria Igreja, nem mais papistas do que o papa: abram as
portas, não façam exames de perfeição cristã, porque, ao fazerem isso, vocês
promoverão um farisaísmo hipócrita.”
Entre os aplausos, Papa Francisco se dirigiu dessa forma à Federação Internacional da Ação
Católica (FIAC), a qual ele recebeu na véspera da viagem ao Egito,
recomendando aos seus dirigentes a “não
clericalizar os leigos”, a ser “mais
popular” (o “populismo”, esclareceu, é outra coisa) e mais “encarnada” (uma fé não encarnada e não concreta, disse, exortando
a Ação Católica a ser ativa na paróquia e na diocese, é o “anti-Cristo”),
conscientes, advertiu, de que isso “causará problemas para vocês, porque
quererão fazer parte da instituição pessoas que, aparentemente, não estão em
condições de fazê-lo: famílias em que os pais não são casados na Igreja, homens
e mulheres com um passado ou um presente difícil, mas que lutam, jovens
desorientados e feridos”. No início,
Francisco beijou um Evangelho encontrado no fundo de um bote de imigrantes que
chegou em Lampedusa [ilha italiana].
O projeto da Ação Católica, disse o papa no
discurso aos 300 expoentes da associação, que ele recebeu na Aula Velha do
Sínodo, em um longo discurso de mais de uma hora, proferido em espanhol e, às
vezes, de improviso, “não é um projeto
de proselitismo. Seria contra o Evangelho, eu me aproprio das palavras de
Bento XVI: a Igreja cresce não por
proselitismo, mas por atração. Realmente me incomoda quando vejo agentes de
pastoral, leigos, consagrados, sacerdotes, bispos que fazem proselitismo. Não, por
atração: essa frase genial de Bento XVI deve marcar o nosso caminho”.
Nesse sentido, a Ação Católica deve ser “em
saída”, e se ela, tradicionalmente, “tinha quatro pilares ou pernas: a oração,
a formação, o sacrifício e o apostolado”, hoje, a primeira, disse o papa
citando tanto o documento dos bispos latino-americanos de Aparecida, quanto a
sua exortação apostólica Evangelii gaudium – uma “tradução” atualizada, disse,
da Evangelii nuntiandi de Paulo VI –, é o apostolado,
“depois vêm as outras”.
Portanto,
“formem, rezem, sacrifiquem-se”, disse o papa, mas sempre “olhando a missão”:
“Convidaram-me para visitar uma creche, um lar de idosos, em vez de um jogo de
futebol que eu não gostaria de perder? Sejamos concretos na proposta do
sacrifício, não deve ser artificial nem narcisista. Deve ser como Jesus fez:
formar-se, rezar, sacrificar-se, para renovar o compromisso evangelizador. Esse
é um ponto claro para mim”.
“É vital”, disse o papa, “renovar e atualizar
o compromisso da Ação Católica com a evangelização, chegando a todos, em todos
os lugares, em todas as ocasiões, em todas as periferias existenciais,
verdadeiramente, não como uma simples formulação de princípios”. Francisco citou “os pobres, os agnósticos,
os doentes” como exemplos de periferias para ser “missionários”.
O importante, continuou, criticando a
tentação de “permanecer fixos”, é “repensar
os planos de formação, as formas de apostolado e até mesmo a própria oração,
para que sejam essencialmente, e não ocasionalmente, missionários. Abandonar
o velho critério: porque sempre se fez assim. Há coisas que foram realmente
muito boas e meritórias, que hoje estariam fora de contexto, se as quiséssemos
repetir”.
Para esse objetivo, a Ação Católica não deve ser um “satélite”, mas deve “encarnar-se em
uma paróquia e viver o espírito de ‘diocesanidade’”, ou seja, a conexão
constante com o bispo local: “A Ação Católica adquire vida autêntica
respondendo e assumindo como própria a pastoral de cada Igreja diocesana na sua
inserção concreta a partir das paróquias”.
É preciso
“encarnar-se concretamente”, insistiu o papa. “Isto é o católico. A primeira heresia da
Igreja, que foi combatida pelo apóstolo João, é não acreditar que Deus se
encarna: quem nega que Deus se fez carne é anti-Cristo e, se um movimento não
se encarna na realidade da diocese, através da paróquia, não está nessa linha
de ser cristão. Quando nos deparamos com
aqueles grupinhos que talvez, com muito estudo, porém, vivem para si, talvez
sejam santos, mas não católicos. E uma Ação Católica que não se encarna não
é católica, é ação, muito boa talvez, mas não católica”.
De modo mais geral, “o protocolo sobre o qual
seremos julgados é muito concreto. Lemo-lo em Mateus 25, e quando recitamos o
Credo afirmamos coisas concretas. Não há um único artigo do Credo que não seja
concreto. A nossa fé é concreta. E,
quando falta à fé a concretude, a fé não é católica. O católico é sempre
concreto”.
O papa também recomendou que todos os membros da Ação Católica sejam “dinamicamente
missionários”, sem exceção, e nesse sentido é preciso evitar “cair na
tentação perfeccionista da eterna preparação para a missão e das eternas
análises, que, quando se concluem, já passaram de moda ou estão superadas: quantas energias da Cúria diocesana ou
religiosa são dedicadas a planos pastorais que, quando estão terminados, já
estão passados!”. [Todos precisamos ouvir esta
advertência do Papa, mais atual que nunca!!!]
Para o papa, que reiterou a importância de
não “descartar” os jovens e os idosos na nossa sociedade, “aprende-se a evangelizar evangelizando, assim como se aprende a
rezar rezando, se o nosso coração está bem disposto. Todos podem ir em missão,
embora nem todos possam sair pelas ruas ou pelos campos”.
Todos os
homens “e todas as periferias” são “destinatários” da evangelização, disse o papa ainda: “É
necessário que a Ação Católica esteja presente no mundo político, empresarial,
profissional, mas não porque acreditamos que somos cristãos perfeitos e
formados, mas para servir melhor”. Se não se apresenta “nas prisões, até mesmo
com os condenados à prisão perpétua, nos hospitais, nas ruas, nas favelas, nas
fábricas”, a Ação Católica “será uma instituição de exclusivistas que não dizem
nada a ninguém, nem mesmo à própria Igreja”.
Francisco insistiu: “Quero uma Ação Católica entre as pessoas, na paróquia, na diocese, na
cidade, no bairro, na família, no estudo e no trabalho no campo, nos âmbitos
próprios da vida”.
Bergoglio, depois, dirigiu uma oração aos
dirigentes: “Por favor, não sejam alfândegas. Vocês não podem ser mais
restritivos do que a própria Igreja, nem mais papistas do que o papa. Por favor
– disse, entre os aplausos –, abram as
portas, não façam exames de perfeição cristã, porque, ao fazerem isso,
promoverão um farisaísmo hipócrita. É
preciso misericórdia ativa”.
Todos, disse, “têm direito a serem
evangelizadores”. E a Ação Católica pode oferecer “o espaço de acolhida e de
experiência cristã àqueles que, por motivos pessoais, sentem-se ‘cristãos de
segunda ordem’”.
Quanto ao modo
de evangelizar, é preciso estar, para o Papa Francisco, “no meio do povo”: “Quando eu digo povo, não
quero dizer populismo – especificou –, as pessoas, o povo de Deus. Pode-se
falar de povo como categoria lógica, pode-se falar de populismo, falar dele
ideologicamente, mas povo é uma categoria mítica: o povo, as pessoas seguiam a
Jesus porque ele curava os enfermos e falava com autoridade”.
E “como disse o Concílio e como rezamos
muitas vezes na missa: atentos e compartilhando as lutas e as esperanças dos
homens para lhes mostrar o caminho da salvação. A Ação Católica não pode ficar em um laboratório, longe do povo, mas
ela vem do povo e deve estar no meio do povo. Vocês devem popularizar mais
a Ação Católica. Trazer pessoas que não estão na elite da sociedade? Não, não
digo isso de modo ideológico, essa é a ideologia do povo. Eu digo isso como
categoria mítica do povo, o santo povo fiel de Deus. Não é uma questão de imagem, mas de veracidade e de carisma. Também não
é demagogia, mas seguir os passos do Mestre que não sentiu nojo de nada”.
Por isso, é bom “descobrir quais são os seus interesses e as suas buscas, quais são os
seus anseios e as suas feridas mais profundas, e de que ele precisa de nós.
Isso é essencial para não cair na esterilidade de dar respostas a perguntas que
ninguém se faz. Os modos de evangelizar
podem ser pensados a partir de uma escrivaninha, mas só depois de estar no meio
do povo, e não ao contrário”.
É claro, especificou o papa, “uma Ação
Católica mais popular, mais encarnada, causará problemas a vocês, porque
quererão fazer parte da instituição pessoas que, aparentemente, não estão em
condições de fazê-lo: famílias em que os pais não são casados na Igreja, hoje
um fenômeno generalizado, homens e mulheres com um passado ou um presente
difícil, mas que lutam, jovens desorientados e feridos. É um desafio à maternidade eclesial da Ação Católica: receber a todos e
acompanhá-los no caminho da vida com as cruzes que carregam sobre as costas”.
O papa recomendou ainda: “Não clericalizem o laicato. Falo isso a sério, porque me preocupa. Que
a aspiração dos seus membros não seja de fazer parte do sinédrio das paróquias
que circunda o pároco, mas a paixão pelo Reino”.
O papa concluiu o seu longo discurso,
recordando que, “na publicação ‘La Acción
Católica a luz de la teología tomista’, de 1937, lê-se: ‘Talvez a Ação Católica não deveria se
traduzir em Paixão Católica?’. Era 1937, eu tinha um ano... A paixão
católica, a paixão da Igreja é viver a doce e reconfortante alegria de evangelizar.
É disso que precisamos da Ação Católica. Obrigado, e peço perdão pelo
comprimento [do discurso]!”.
O encontro, introduzido pelo cardeal Kevin Farrell, foi precedido
por uma série de testemunhos de membros da Federação Internacional da
associação. Entre outros, alguns representantes da Ação Católica de Lampedusa,
Salvatore Scibetta e o assistente, Pe. Carmelo La Magra, na linha de frente na
acolhida dos migrantes.
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EMILIO INZAURRAGA Ação Católica da Argentina e Coordenador do Fórum Internacional da Ação Católica |
“O que foi doado ao Santo Padre de Lampedusa
– explicou Emilio Inzaurraga,
coordenador do Fórum Internacional da
Ação Católica – é uma cópia do Novo Testamento e Salmos em inglês,
encontrada no fundo de um bote. Não temos conhecimento do destino da pessoa que
guardava esse texto, só sabemos que uma das páginas, atingida pela viagem, está
dobrada cuidadosamente no Salmo 55, que começa assim: ‘Dá ouvido à minha prece, ó Deus, não te furtes à minha súplica! Presta
atenção e responde-me, porque as ansiedades me agitam! Estremeço ante a voz do
inimigo, diante dos gritos do injusto. Eles fazem recair sobre mim calamidades,
e me acusam com raiva’. Essas palavras descrevem perfeitamente os
sentimentos e as orações dos migrantes que chegam até nós e que cotidianamente
encontramos”, disse Inzaurraga.
E o Papa Francisco
tomou o Evangelho e o beijou.
Para ler o discurso de Papa Francisco na íntegra, em
língua espanhola,
clique
aqui.
Traduzido do
italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse
a versão original, clicando aqui.
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