LULA e a arte de se esquivar
A culpa foi de Marisa
Eliane
Cantanhêde
Lula jogou o apartamento no colo da mulher dele, que já
morreu e
agora está no centro da Lava Jato
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LULA NO INTERROGATÓRIO CONDUZIDO PELO JUIZ MORO Quarta-feira, 10 de maio de 2017 |
Como
estava escrito nas estrelas, o
ex-presidente Lula disse que não pagou pelo triplex, não estava interessado
nele, não poderia nem ir à praia (“só às segundas-feiras e nas Quartas-feiras
de Cinzas”), “Dona Marisa” não gostava mesmo de praia e, afinal, o apartamento
era pequeno e cheio de defeitos. Ah! E
Lula não sabia de nada do que ocorria na Petrobrás nem no Partido dos
Trabalhadores [PT].
Então, quem sabia alguma
coisa? Lula
jogou o apartamento no colo da mulher dele, que já morreu e agora está no
centro da Lava Jato. Marisa Letícia é
quem estava interessada no triplex (para investimento?) e Lula só soube
depois que ela tinha ido lá com o filho, mesmo depois da desistência da compra.
Essas mulheres...
Moro
não se intimidou e fez perguntas curtas, diretas, respaldadas por agendas,
datas, fatos. Lula, ao contrário,
parecia inseguro, sem a fluência e as sacadas típicas dele. Recorreu o
tempo todo a “não sei”, “não lembro”, não tinha obrigação de saber que Renato Duque
“operava” para o PT na Petrobrás e que Pedro Barusco
roubava tanto que pôde devolver 100 milhões de dólares à justiça.
O
depoimento foi, tecnicamente, sobre o triplex, mas ele é só uma das
materializações das relações promíscuas
entre o ex-presidente e as empreiteiras. Por isso, Moro fez várias
perguntas sobre Duque, Barusco e o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.
Mais
do que o triplex, o que complica Lula é
o encontro com Duque num hangar em São Paulo. O que um ex-presidente queria
com um ex-diretor da Petrobrás? E por que pediu a mediação de Vaccari, que nem
era do governo nem da Petrobrás? Segundo
Duque, Lula foi pedir para anular provas. Mas Lula disse que só queria
saber se era verdade que Duque tinha contas milionárias no exterior. Ficou
claro que, como não poderia negar o
encontro, Lula adocicou a verdade. Adivinha com qual versão a Justiça
trabalha?
Mulher de Lula emerge como “investidora”
Vera Magalhães
As inconsistências da defesa e o truque de terceirizar
para alguém que morreu e, assim, não é mais parte do processo não parecem ser
um caminho jurídico seguro
Mais uma vez, Luiz Inácio
Lula da Silva não sabia de nada. Antes foram Delúbio Soares, Silvio Pereira, José
Dirceu e os “malfeitos” do mensalão. Depois, os “aloprados” do dossiê contra os
tucanos em 2006. Agora, o triplex: sua
mulher, Marisa Letícia, a despeito de “odiar” praia, visitou o apartamento
no Guarujá mais de uma vez, desejava
adquiri-lo para “investimento”, mas não conversava com o marido sobre isso, nem
sobre a eventual troca de uma cota de unidade simples pelo triplex.
“Eu não sei” foi a frase mais dita por Lula em suas cinco horas de depoimento diante
do juiz Sergio Moro:
* Semblante crispado,
* nervosismo patente em
cacoetes como cofiar o bigode,
* abrir e fechar compulsivamente
as pernas dos óculos de leitura,
* beber sucessivas garrafas
de água,
* folhear (sem ler) o
calhamaço de papel à sua frente e
* arrumar o nó na gravata,
como se o tivesse apertando,
eram
gestos a indicar um animal político fora
de seu hábitat.
Mas
embora não tenha conseguido transformar o interrogatório num comício, como
fizera em seu primeiro depoimento como réu, em Brasília, Lula teve seus momentos. Ao dizer a Moro que, por ser quem é, só
poderia frequentar a praia no Guarujá “às segundas ou na quarta-feira de
Cinzas”, ao perguntar ao juiz se não sabia se ele já tinha enfrentado um
vendedor de imóveis ou ao pintá-lo como um “jovem” sem paciência com um
“velho”, estava lá a raposa dos palanques.
Mas
isso pouco ou nada pode ajudar a situação jurídica de Lula. Nesse campo, o que se viu, depois de meses clamando por
“provas”, foi o ex-presidente tergiversar:
1)
Diante de documento de 2004 de opção de
compra do apartamento, apreendido em seu apartamento em São Bernardo,
chegou a insinuar que o papel pode ter sido “plantado”.
2) Flagrado
em contradição sobre as circunstâncias das visitas ao triplex, de novo recorreu
a dona Marisa para deixar sob sua responsabilidade toda a transação do imóvel.
As inconsistências da defesa
e o truque de terceirizar para alguém que morreu e, assim, não é mais parte do
processo não parecem ser um caminho jurídico seguro para alguém que tem um
séquito de advogados à disposição e armou
um circo político para posar de vítima de perseguição. Diante das câmeras, o Lula bravateiro deu lugar a outro, acuado
e hesitante. Entende-se a celeuma em torno do ângulo de filmagem do
depoimento.
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SERGIO MORO |
Entre a tecnicalidade e a informalidade
Davi Tangerino
Dada a palavra aos comentários finais do réu,
Lula assumiu a esperada posição de perseguido político;
Moro fez questão de consignar que o julgamento seria
pautado pela lei
Uma
análise preliminar do interrogatório do ex-presidente Lula já permite alguns
comentários. Primeiramente, chama
atenção os minutos dedicados por Moro em declarar-se neutro em relação a Lula,
bem como nas palavras tranquilizadoras quanto à sua (não) prisão naquela
audiência. Em segundo lugar, a defesa insistiu fortemente que perguntas
estranhas à acusação (por exemplo, relativas ao sítio de Atibaia) fossem
deixadas de fora do interrogatório, já que o acusado se defende apenas dos
fatos descritos na denúncia.
Moro,
após ouvir as objeções, manteve tais perguntas, ressalvando que ao réu era dado
o exercício do direito ao silêncio. Coloca-se, aqui, um embate que transcende a tecnicalidade: a defesa considerava a
pergunta indevida, fora de lugar; logo,
não era o caso de formulá-la e não de invocar o direito ao silêncio.
O
simbólico, aliás, merece o terceiro aspecto a ser comentado: Moro fez questão de sempre chamá-lo de
“ex-presidente”. Um quarto elemento diz respeito às perguntas repetidas. Moro
perguntou e reperguntou coisas muito semelhantes, algo que ele não deferiria
nem à defesa, nem ao Ministério Público Federal [MPF]. Aliás, a
preponderância do magistrado na formulação de perguntas escapa ao sistema
acusatório, em que incumbe às “partes” mover a produção de provas.
Por
fim, Lula portou-se com a informalidade
costumeira, não tendo poupado nem comentários jocosos, nem broncas ao MPF.
Dada a palavra aos comentários finais do réu, assumiu a esperada posição de
perseguido político, em um esquema alimentado pela mídia. Moro fez questão de consignar
que o julgamento seria pautado pela lei.
Assista os vídeos do interrogatório do ex-presidente na
Lava Jato,
clicando aqui.
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