As sete palavras de Jesus na Cruz
Adroaldo
Palaoro
Padre
jesuíta
São sete expressões ditas por Jesus
na Cruz e recolhidas pelos evangelistas;
elas condensam a vida do
Crucificado. Nestas expressões revela-se
a identidade de Jesus: quem Ele é e
sua missão
Vamos
contemplar o significado das “palavras
pronunciadas por Jesus na Cruz”, deixando-nos impactar e iluminar por elas.
São palavras densas, carregadas de vida; palavras “ex-cêntricas”, onde Jesus sai de si e se dirige aos outros.
1.
PERDÃO: “Pai, perdoa-lhes, pois não
sabem o que fazem” (Lc 23,34)
Jesus,
na sua vida pública, sempre revelou o perdão do Pai; no encontro com os
pecadores deixou transparecer a misericórdia reconstrutora de Deus. O perdão
foi a marca de sua vida e deve ser também a marca dos seus seguidores.
É difícil perdoar: a dor, o orgulho, a própria
dignidade, quando é violentada, grita pedindo “justiça”, buscando “reparação”,
exigindo “vingança”... Mas, perdão?
Surpreende-nos
que Jesus na Cruz seja capaz de continuar vendo humanidade em seus carrascos; Ele é capaz de continuar crendo que há
esperança para aqueles que cravam seus semelhantes na Cruz.
Porque,
esta palavra de perdão, dita a partir do madeiro, é sobretudo uma declaração
eterna: o ser humano, todo homem e toda mulher, conserva sua capacidade de amar
nas circunstâncias mais adversas. E todo
ser humano, até aquele que é capaz das ações mais atrozes, continua tendo um
germe de humanidade em seu interior e que permite que haja esperança para
ele. Perdoar é atrever-se a ver o que há
de verdadeiro, de beleza em cada um.
O
perdão é capaz de ver dignidade e faísca de humanidade escondida no coração do
carrasco. O perdão abre futuro, destrava
a vida e não se deixa determinar pelos erros do passado; ele quebra
distâncias, nos faz descer em direção à
fragilidade do outro, ao mesmo tempo que revela nossa fragilidade. É
enquanto pecadores que somos chamados a perdoar e não enquanto justos. Por
isso, no perdão
é onde mais nos assemelhamos a Deus, pois só Ele podia inventar o perdão.
Deus
também continua me perdoando hoje, pelas atitudes pecaminosas em minha vida que
destroem, rompem, ferem os outros e o meu mundo.
Deixar ressoar esta expressão de Jesus:
Fiz
experiência de perdão? Sou capaz de perdoar e acolher
o perdão?
2.
CONTIGO: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43)
Jesus
sempre viveu “em más companhias” e agora morre entre dois ladrões. Mais uma
vez, não assume o papel de juiz sobre
dos outros, mas oferece uma nova chance de salvação. O moribundo que dá
vida: presença solidária, que, mesmo em
meio ao pior sofrimento, oferece companhia a outros sofredores.
Um
dos ladrões, impactado pela serenidade e testemunho de Jesus “rouba o paraíso”.
Jesus
revela uma promessa que muitas pessoas precisam ouvir hoje, sobretudo aqueles
que carregam cruzes injustas e pesadas, que vivem realidades atravessadas pela
dor, pela solidão, dúvida, incompreensão ou pranto... Como soarão estas palavras no interior de cada um de nós: “Hoje estarás
comigo no Paraíso”?
Hoje: porque
as mudanças, a nova criação, a
humanidade reconciliada, não tem que esperar mais; hoje, agora, já...; talvez esse “hoje” não chega é por causa de
tantas pessoas que não decidem, não optam, esperam sentadas...
Comigo: promessa de viver em sua companhia e desperta ecos de uma plenitude
que não conseguimos entender.
No paraíso: que não é um mítico Éden, mas lugar
de plenitude de vida, onde não haverá mais pranto, nem dor; realidade já
presente onde habitará a justiça e a paz.
Deixar ressoar esta expressão de Jesus para construir, hoje, o Paraíso
em nosso cotidiano:
Como viver
hoje no paraíso? Neste momento, a quem podemos despertar a esperança?
3. APOIO: “Mulher, eis o
teu filho; filho, eis a tua mãe” (Jo 19,26)
Maria,
mulher do “sim”; “sim” que se prolonga até à Cruz, onde, de pé, revela sua
presença
materna e consoladora junto a seu Filho Jesus.
A presença de Maria na vida
de Jesus não é acidental: foi aquela que mais amou, conheceu e seguiu Jesus. Ela agora é nossa
referência fiel no seguimento do seu Filho.
Despojado de tudo, Jesus tem
um tesouro a nos dar: entrega sua própria mãe para que ela seja presença
cuidadora e de ternura junto aos seus filhos sofredores.
Jesus
não nos deixa órfãos; sempre precisamos dos cuidados e do consolo de uma mãe;
alguém para nos acompanhar nas horas mais obscuras e difíceis; alguém que nos
sustenta nos momentos trágicos; alguém que compartilha nossas perdas... e que
também está presente nas horas boas, que chegarão.
É
como se Jesus nos dissesse: “Para viver
o meu seguimento, inspire-se nela, tenha-a como referência”.
Não estamos sozinhos: muitas
presenças marianas em nossas vidas – amigos, pais, filhos... São tantas pessoas junto ao
pé da cruz, inumeráveis homens e mulheres de Igreja que foram e são
companheiros de caminho, de esforço, de apoio, de buscas e de amor.
João, também de pé junto à
Cruz, representa todo seguidor fiel de Jesus, mesmo nos momentos de crise.
Deixar ressoar estas palavras de Jesus:
Ser presença materna e cuidadora junto aos
sofredores; prolongar o modo solidário de Maria junto aos crucificados.
4.
SOLIDÃO: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27,46)
O
grito de Jesus na Cruz condensa o grito
da humanidade sofredora; é o próprio Deus que grita seu abandono.
Esse grito de Jesus revela
uma presença no próprio abandono, embora, de imediato não se sinta esta presença.
Grito que não fica no vazio, mas aponta para a Vida.
Todos
perguntamos: “Onde está Deus no
sofrimento, na violência, na morte...?” E Deus responde, perguntando: “Onde está
você no meu sofrimento, na violência que sofro, na morte... de meus filhos/as?”
O sofrimento da humanidade é
o sofrimento de Deus; Deus não é insensível e distante da dor dos seus filhos.
Quem
não passa por momentos de noite escura, de insegurança, de absoluta incerteza...?
Quem
não viveu experiências de abandono, de falta de sentido na vida, de solidão, de
rejeição...?
Quem
não tem momentos de ceticismo, de amargura, de medo, de dúvida...?
Quem não se pergunta, talvez
por um instante fugaz mas pungente, onde está Deus agora?
Nesses
momentos temos a impressão de que todas as nossas opções foram equivocadas, que
cada decisão nos levou por um caminho sem saída... Nesses tempos nos remorde o
fracasso, a miséria, própria e alheia.
É do meio desta situação que
brota um grito desesperador, como o de Jesus... No entanto, nos atrevemos a
seguir adiante, com nossos projetos, compromissos e esforços em seu nome.
O desafio está em não ceder,
em não crer que tudo tem sido uma mentira. O desafio é não abandonar, não render-se,
não capitular nesses momentos.
Entende-se,
assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e
que continua ecoando como clamor angustiado. Não são poucos os gritos dos mais pobres e excluídos.
É um clamor forte pela intensidade de suas carências. Um clamor surdo porque não consegue impactar de modo a conseguir
respostas prontas e imediatas aos graves problemas que os afligem.
O
grito dos sofredores é sempre forte. Forte pela violência das necessidades e
das urgências para a garantia de uma vida mais digna. Em Cristo se condensam todos os gritos da humanidade sofredora.
Sua
força, no entanto, não consegue incomodar a todos os que precisam ser
interpelados pela exigência deste clamor. Um grito, pois, é a expressão do mais
forte sentimento que está no centro do próprio coração; é, também, a expressão
mais concreta do que aflige o coração.
Um grito é, na verdade, um
convite a um compromisso solidário.
O
grande grito de Jesus é a certeza de tudo o que sustenta o seu coração; ao
ecoar junto aos crucificados, provocará grandes novidades. Um grito que não fica no vazio mas aponta para a vida.
Deixar ressoar este grito de Jesus:
Quais são os
gritos surdos que brotam da realidade hoje?
5.
SEDE: “Tenho sede...” (Jn 19,28)
Jesus
sempre foi um homem “sedento”: fazer
a vontade do Pai, realizar o Reino,
compromisso com a vida, presença solidária
junto aos sofredores, fazer conhecido a Deus como Pai/Mãe...
Agora grita sua derradeira
sede: um mundo sem dor, sem exclusão, sem violência.
Grita
o homem com a garganta ressequida: sede
na garganta e sede no coração. Sede expansiva, sede que descentra.
Grito que se multiplica em
milhares de gargantas espalhadas pelo mundo:
* quero “justiça”, clamam os
injustiçados deste mundo;
* quero “pão”, pede a criança
com a barriga inchada de ar e de fome;
* quero “paz”, exclama a
testemunha de atrocidades sem fim;
* quero “amor”, pede o jovem
solitário por ser estranho;
* quero “moradia”, sonha o
morador de rua que dorme em um banco da praça;
* quero “trabalho”, suspira
uma jovem que se sente fracassar;
* quero liberdade, escreve o
presidiário em seus poemas;
* quero saúde, recita o
enfermo em seu leito...
Vozes
de compaixão, vozes de pranto, vozes que refletem as dores do mundo.
Há
alaridos, e também sussurros, todos carregados de sensibilidade dolorida.
A sede de Jesus desperta em
nós outras “sedes”: de que tenho sede? Sede de sonhos, de mundo novo... Sede mobilizadora
que ativa as melhores energias dentro de nós, que desperta nossa criatividade...
Sede que purifica nossa capacidade de escutar os gritos, de perto e de longe. O
que fazer?
“Quem
tem sede venha a mim e beba”. Quem não
tem sede não busca, não cria.
Deixar ressoar essa súplica de Jesus:
A quem
precisamos nos atrever a escutar?
6.
COMPROMISSO: “Tudo está consumado” (Jo 19,30)
Parece
contradição alguém dependurado na Cruz afirmar que tudo está consumado; tem-se a impressão de fracasso total.
Mas na Cruz Jesus leva até às últimas
consequências sua Encarnação: mergulha e se faz solidário com todos os
crucificados da história. “Desce” até às profundezas do sofrimento humano e
ali revela a presença do Deus compassivo.
No alto da Cruz, Jesus tem
consciência que não viveu em vão; sua presença fez a diferença; viveu para os outros.
Jesus morre com as mãos cheias de vida;
gastou a vida a serviço da vida; deixou pegadas nos corações de quem
encontrou pela vida. “Jesus morreu de tanto viver”. Morreu de bondade, de
compaixão, de justiça.
Jesus
teve um “caso de amor” com a vida; viveu intensamente.
Uma
vida consumada faz fecunda a morte. Uma história consumada de Amor. Vida
consumada quando se consome no serviço aos outros. Jesus desencadeou um movimento de vida.
Deixar ressoar esta afirmação de Jesus:
Quão plenificante é poder dizer a cada dia:
tudo está consumado. É poder dizer como Pablo Neruda: “Confesso que vivi”.
7.
SENTIDO: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23,46)
Só
quem viveu intensamente uma vida expansiva pode acolher a própria morte com
paz,
confiança, serenidade e abandono nos braços do Pai. Jesus morre como tinha vivido: ancorado na confiança do Pai.
Jesus, que sempre prolongou
as mãos do Pai, agora entrega-se confiadamente nos braços do mesmo Pai.
Jesus
sempre viveu em profunda sintonia com o Pai; agora Ele dá um “salto vital” nos
braços do Pai.
Ao “entregar seu espírito”
Jesus é “aspirado” para dentro de Deus.
A
morte nos inspira medo; mas na morte, somos todos iguais, sozinhos diante de Deus.
A
morte é a última ponte que nos conduz ao Pai. Seremos abraçados do outro lado
da ponte. Nosso destino é o coração de Deus.
Não só na hora da morte, mas
a cada dia somos chamados a “entregar o espírito”; num mundo em que todos
buscam seguranças, que em tudo querem ter “salva-vidas”, num mundo que nos convida a
ter as costas cobertas... queremos arriscar, apostar pelo Reino; queremos nos
sentir confiados, atravessar tormentas ou espaços serenos, sentindo-nos
protegidos pelas mãos do Pai. Mãos que curam, acariciam, sustentam...
Deixar ressoar em nosso interior as palavras de entrega de Jesus:
Vivemos amparados pelas mãos providentes e cuidadosas do Pai; sentir-nos movidos a
prolongar as mãos do Pai.
Estas
[sete] palavras, proferidas por Jesus no alto da Cruz, causam um profundo
impacto em nosso coração.
Tal
impacto nos faz ter os olhos fixos no
Crucificado; a partir do Crucificado
ativar um olhar comprometido com os crucificados da história.
Só podemos crer no Crucificado se estivermos dispostos a tirar da Cruz
aqueles que estão dependurados nela (Jon Sobrino).
Após
a oração universal faremos a chamada “adoração
da Cruz”; não se pode contemplar a Cruz isolada daquilo que nela aconteceu.
A Cruz nela mesma não tem sentido.
O que vemos ao contemplar o
Crucificado?
A
Cruz é expressão da máxima compaixão e
comunhão, com Jesus e com os sofredores. Ela aponta para Aquele que foi
fiel ao Pai e ao Reino. Por isso, a Cruz não é um “peso morto”.
A partir da Cruz de Jesus,
iluminamos e damos sentido às nossas cruzes.
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