Esta é a nossa maior tragédia!
País só deve dominar Leitura em 260 anos!
Renata Cafardo
Essa
é a defasagem do aluno brasileiro em relação ao de países
desenvolvidos,
aponta estudo inédito do Banco Mundial
Um relatório inédito do Banco
Mundial estima que o Brasil vá demorar
260 anos para atingir o nível educacional de países desenvolvidos em Leitura e
75 anos em Matemática. Isso porque o País tem avançado, mas a passos muito
lentos. O cálculo foi feito com base no desempenho dos estudantes brasileiros
em todas as edições do Pisa, a
avaliação internacional aplicada pela Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento (OCDE).
Esta é a primeira vez que o World Development Report, relatório
anual que discute questões para o desenvolvimento mundial, é dedicado
totalmente à educação. A conclusão mais importante do documento é que há uma “crise de aprendizagem” no mundo
todo. “Nos últimos 30 anos houve grandes progressos em colocar as crianças
nas escolas na maioria dos países, mas infelizmente muitas não entendem o que leem ou não sabem fazer contas”, disse ao
jornal O Estado de S. Paulo o diretor
global da área de educação do Banco Mundial, Jaime Saavedra.
Segundo
o relatório, 125 milhões de crianças no mundo estão nessa situação. Na América Latina e Caribe, apenas cerca de
40% das crianças nos anos finais do ensino fundamental chegam ao nível
considerado mínimo de proficiência em Matemática, enquanto na Europa e Ásia
são 80%. Na África Subsaariana, só 10% dos alunos têm níveis aceitáveis de
Leitura.
O
texto sistematiza evidências e casos de sucesso de vários países para traçar um
panorama da educação mundial. A Coreia
do Sul e, mais recentemente, o Peru e o Vietnã são países citados como alguns
dos que conseguiram avançar com reformas e novas políticas. Entre as
sugestões de iniciativas para tentar reverter o quadro principalmente nos
países em desenvolvimento, estão:
a)
a valorização do professor,
b)
a avaliação dos sistemas,
c) a
melhor gestão das escolas e
d)
o investimento em educação infantil.
O Brasil é um dos países
que fazem parte dessa crise de aprendizagem, apesar de avanços recentes em
avaliações.
No último Pisa, porém, o País não aumentou sua nota em Leitura e caiu em
Matemática. Procurado pelo O Estado de S. Paulo, o
Ministério da Educação não quis comentar o conteúdo do relatório.
Segundo
André Loureiro, economista brasileiro do Banco Mundial, a demora para se
atingir níveis de países desenvolvidos só vai acontecer “se o país mantiver o
passo em que está”. “Mas há reformas que estão sendo feitas, como a do ensino
médio, que têm potencial muito grande de afetar essa trajetória”, acredita.
Para ele, a flexibilização do currículo
e a diminuição do número de disciplinas devem deixar a escola mais atrativa
para os jovens.
Sem plano
“O Brasil precisa
urgentemente de um plano estratégico de educação”, diz a presidente do Movimento Todos pela Educação, Priscila
Cruz.
Segundo
ela, os avanços do País são lentos porque não se sabe quais são os fatores de
fracasso e sucesso das políticas. “A
gente abandona as políticas e recomeça do zero sem ter aprendido nada com o
passado.” Para Priscila, os dois
pontos principais desse plano deveriam ser a VALORIZAÇÃO DO PROFESSOR e da PRIMEIRA
INFÂNCIA.
“O
Brasil teve de expandir o sistema rapidamente para trazer muitas crianças para
a escola, precisou de muitos professores e acabou tendo problema com a formação
deles”, diz o coordenador de pesquisas do Centro de Políticas Públicas do
Insper, Naercio Menezes Filho. Mas,
segundo ele, agora o País tem uma oportunidade de corrigir essa questão por
causa da queda demográfica. A natalidade diminuiu muito nos últimos anos e o
número de alunos no ensino fundamental caiu quase pela metade em 20 anos. “Se
mantiver o tamanho das salas, vamos precisar de metade do professores. Podemos
selecionar melhor os candidatos.”
O
relatório intitulado Aprendizagem para
Realizar a Promessa da Educação será apresentado hoje em São Paulo em um
evento na Fundação Getulio Vargas (FGV). O texto enfatiza a importância da educação para impulsionar o “crescimento econômico de
longo prazo, incentivar a inovação, reforçar as instituições e promover a
coesão social”. Há também dados que demonstram que cidadãos mais bem educados valorizam mais a democracia.
Perguntas para Jaime
Saavedra,
diretor global de Educação
do banco Mundial
Por que o relatório do Banco Mundial resolveu focar em educação?
Saavedra: Precisamos ter certeza de
que as pessoas que cuidam das políticas dos países saibam que o capital humano é mais importante que o
capital físico. É crucial mostrar o que está acontecendo, os desafios e o
que fazer. Porque todo mundo diz que educação é muito importante para o
desenvolvimento, mas esse discurso nem sempre se traduz em busca da certeza de que todos na escola estão aprendendo.
Os países precisam investir mais em educação?
Saavedra: Em alguns países, a
resposta é sim, mas em outros, como o Brasil, o dinheiro precisa ser
distribuído melhor pelos níveis de ensino e pelo País. A questão é mais sobre como estamos usando os recursos do que colocar
mais.
Quais as principais medidas para resolver a crise de aprendizagem?
Saavedra: O ponto principal é que os países precisam atrair os melhores
profissionais para serem professores. Em Cingapura, Finlândia, Japão, se
aumentou o prestígio da carreira. E isso não é só salário, mas a percepção
social da carreira. Outra questão é o
gerenciamento das escolas. O serviço das escolas é realmente difícil porque
é o de fazer uma criança feliz e dar a ela as ferramentas para uma vida
produtiva.
Apenas 2,1% dos alunos pobres do País têm
bom desempenho escolar
Renata Cafardo
De 71 países, Brasil é o 62º na
quantidade de estudantes que vão bem em avaliação internacional apesar da
situação de pobreza, os chamados resilientes; baixa rotatividade de professores
e atividades extraclasse têm efeitos positivos no resultado
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VICTOR GONZAGA, apesar das dificuldades financeiras, fez 2 anos de cursinho com bolsa e passou em Medicina na USP, na Unifesp e na UNICAMP |
O Brasil é um dos países em
que há menos estudantes resilientes, aqueles que apesar da condição de pobreza
conseguem ter bom desempenho escolar. Um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) mostra só 2,1% dos
alunos brasileiros com esse perfil. A pesquisa analisou resultados da
última edição do Pisa, maior
avaliação internacional de educação, feita por jovens de 15 anos. A média de
resiliência entre países membros da OCDE é de 25,2%.
No ranking de 71 países participantes, o Brasil ficou
em 62.º, abaixo de outros latinos como Chile, Uruguai e Argentina. Uma das razões é o fato de alunos de baixa renda, em geral, frequentarem as piores
escolas. “O Brasil ainda tem um longo caminho para garantir que estudantes
tenham acesso igualitário às oportunidades educacionais, independentemente da
origem dos seus pais ou do lugar em que vivem”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo um dos autores do
estudo na OCDE Francesco Avvisati.
São resilientes os alunos
que estão entre 25% mais pobres do país e atingiram pelo menos o nível 3 de
desempenho do Pisa, nas três áreas avaliadas - Matemática, Ciências e Leitura.
Para
a OCDE, o nível 3 é o mínimo necessário
para que o jovem possa ter “uma vida com oportunidades de aprendizagem”.
Apesar
da resiliência também ser uma característica pessoal, políticas e práticas
educacionais podem reduzir a vulnerabilidade dos estudantes, afirma o
relatório. Foram tabulados os fatores
que mais influenciam nesse resultado positivo.
Um
dos mais importantes é um bom ambiente escolar, sem graves problemas de
disciplina. Escolas com pouca rotatividade de professores e atividades extraclasse têm
mais resilientes. Segundo o estudo, alunos pobres que estudam com colegas de
classes sociais mais altas têm mais chance de sucesso. Já a menor quantidade de
alunos faltosos ajuda, mas é menos significante. “Um clima em que os estudantes se sentem seguros e apoiados por
professores e colegas é crucial para o sucesso dos que estão em desvantagem
socioeconômica”, diz Avvisati.
Não
foi encontrada qualquer relação entre o número de computadores por aluno e
outros recursos não humanos com a maior resiliência. Classes menores também não
têm influência. E meninas de perfil socioeconômico baixo tem 9% menos chances
de serem resilientes do que meninos da mesma escola.
Como
o Brasil tem índice baixo, não foi possível tabular quais fatores mais
influenciam a resiliência no País. Mas, nos questionários do Pisa sobre o clima
na escola, 40,3% dos brasileiros
disseram que “os alunos não começam a estudar logo que começa a aula” e 38% que
“não ouvem o que o professor fala”. Nas redes estaduais e municipais os
índices são mais altos que na particular.
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No Brasil, há professores que não conseguem iniciar sua aula a não ser depois de uns 20 ou 30 minutos tentando disciplinar a classe em que leciona! |
Emoção
“É bagunça o
tempo todo, professores ruins, tudo desestimula”, diz Victor Gonzaga, de 19 anos, um exemplo de resiliência. Ele mora em
Guarulhos e os pais não têm ensino superior. Ao terminar o ensino médio na rede
pública, fez dois anos de cursinho, com bolsa. Mês passado, surpreendeu a família toda ao ser aprovado em Medicina na
Universidade de São Paulo (USP), na Federal de São Paulo (Unifesp) e na
Estadual de Campinas (Unicamp). “Minha mãe sempre me incentivou e deixou
que eu não trabalhasse nesses anos, mas a maioria dos meus amigos não teve essa
sorte.”
Gabriel
Zanata, de 17 anos, também da rede pública, acha o sistema injusto. “Quem é mais rico vai para a escola
particular. Parece que a regra é: quem está embaixo tem de continuar embaixo,
quem está em cima continua em cima.” Ele passou o último ano saindo de casa
às 6 horas e voltando só à meia-noite - fez escola e cursinho juntos. “Foi
muita emoção ver meu nome na lista (de aprovados no vestibular). Vou ter uma
oportunidade que meus pais não tiveram.” Gabriel
vai cursar Engenharia na USP. O pai é eletricista e a mãe, desempregada.
Equidade
Hong
Kong tem a maior taxa no ranking, 53,1%. É
clara a relação entre resiliência, qualidade e equidade. Em países com
melhor resultado educacional e menos desigualdade social, como Finlândia e
Canadá, o valor é maior do que 30%. Os que estão no fim da lista se saem pior
em avaliações como o Pisa e são menos igualitários, como Argélia, Peru e
Líbano.
“Fico preocupada em acharmos que a escola
sozinha resolve toda essa questão”, diz a ex-secretária de Educação Básica
do Ministério da Educação e diretora da Fundação SM, Pilar Lacerda. Para ela, a
má distribuição de renda e a pobreza influenciam muito na falta de perspectiva
para que o aluno consiga se enxergar em um lugar melhor. “O esforço que temos de fazer é cinco vezes
mais do que em países onde as necessidades básicas já são atendidas.”
O Brasil é o
10.º país mais desigual do mundo, segundo as Nações Unidas. “São os menos favorecidos que estudam nas escolas que não têm aula, que
falta professor”, completa Mozart Neves Ramos, do Instituto Ayrton Senna. A
disparidade também é vista no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Segundo
dados tabulados pelo Estado, só 8% dos
alunos com as mil melhores notas em 2016 eram da rede pública. E 2,6% vêm
de famílias com renda menor de 1,5 salário mínimo.
Para
Ramos, o caminho para reduzir a
desigualdade passa pela inclusão no currículo das habilidades socioemocionais,
entre elas, saber trabalhar em grupo, resolução de problemas e resiliência.
“Você trabalha situações que promovem mudança de atitude, auto estima. Primeiro
você faz isso para depois corrigir fluxo e alfabetização.”
Também
foi tabulado o avanço ao longo do tempo. Entre 2006 e 2015 (o Pisa é de três em
três anos), o Brasil passou de 0,6% de resilientes para 2,1%, alta considerada
significativa. Alguns dos maiores saltos foram de Portugal (16,3% para 25,8%) e
Rússia (12,7% para 24,5%).
Textos e frações
O
Pisa tem níveis de desempenho de 1 a 6. Os conhecimentos do 3 são tidos como
mínimos para alunos de 15 anos. E, por isso, são o limite para jovens pobres
serem considerados resilientes. Isso significa que sabem lidar com frações,
porcentagens e decimais. Na prova de leitura, identificam e categorizam várias
partes de um texto. Em Ciências, são capazes de explicar fenômenos naturais
mais conhecidos.
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