4º Domingo da Quaresma – Ano B – Homilia
Evangelho: João 3,14-21
Naquele
tempo, disse Jesus a Nicodemos:
14
Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que
o Filho do Homem seja levantado,
15
para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.
16
Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra
todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.
17
De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para
que o mundo seja salvo por ele.
18
Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não
acreditou no nome do Filho unigênito.
19
Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as
trevas à luz, porque suas ações eram más.
20
Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações
não sejam denunciadas.
21
Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que
suas ações são realizadas em Deus.
JOSÉ ANTONIO
PAGOLA
APROXIMAR-NOS DA LUZ
Pode parecer uma observação excessivamente
pessimista, porém o certo é que somos
capazes de viver longos anos, sem ter a mínima ideia do que está acontecendo em
nós. Podemos seguir vivendo dia após dia sem querer ver o que, de verdade, move a nossa vida e quem é que, dentro de nós, toma realmente
as decisões.
Não é manifestação de indignidade ou falta de
inteligência. O que acontece é que, de maneira mais ou menos consciente, intuímos que olhar-nos com mais luz nos
obrigaria a mudar. Mais uma vez cumprem-se em nós aquelas palavras de
Jesus: «Quem pratica o mal odeia a luz e
não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas».
Assusta-nos ver-nos tal como somos. Sentimo-nos mal quando a luz penetra em
nossa vida. Preferimos continuar cegos,
alimentando dia a dia novos enganos e ilusões.
O mais grave é que pode chegar um momento no
qual, estando cegos, acreditemos ver tudo com clareza e realismo. Que fácil é, então, viver sem conhecer a si
mesmo nem perguntar-se jamais «Quem sou eu?». Crer ingenuamente que eu sou
essa imagem superficial que tenho de mim mesmo, fabricada de recordações,
experiências, medos e desejos.
Como é fácil, também, crer que a realidade é
justamente tal como eu a vejo, sem ser consciente de que o mundo exterior que eu vejo é, em grande parte, reflexo do mundo
interior que eu vivo e dos desejos e interesses que alimento. Como é fácil também, acostumar-nos a tratar
não com pessoas reais, mas com a imagem ou etiqueta que delas eu mesmo
fabriquei.
Aquele grande escritor que foi Hermann Hesse, em seu pequeno livro Creio-me, repleto de sabedoria,
escrevia: «O homem que contemplo com temor, com esperança, com cobiça, com
propósitos, com exigências, não é um homem, é somente um turvo reflexo de minha
vontade».
Provavelmente, na hora de querer transformar
nossa vida, orientando nossos passos por caminhos mais nobres, o mais decisivo
não é o esforço por mudar. A primeira
atitude é abrir os olhos. Perguntar-me sobre o que ando buscando na vida. Ser mais consciente dos interesses que movem minha existência.
Descobrir o motivo último de meu viver
diário.
Podemos levar um tempo para responder a estas
perguntas:
* Por que fujo tanto de mim
mesmo e de Deus?
* Por que, em última análise,
prefiro viver enganado sem buscar a luz?
Temos de escutar as palavras de Jesus: «quem age conforme a verdade aproxima-se da
luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus».
PERGUNTAS FUNDAMENTAIS
Eliminado aquele Deus «infantil» no qual acreditaram, desde os primeiros anos de sua
infância, hoje são muitas as pessoas que não acreditam mais em nada. Não é que
rejeitem Deus. É que não sabem o que
fazer para encontrar-se com Ele. Surgem, então, perguntas elementares que
precisam ser respondidas.
Deve-se fazer
algo para crer?
Sim. Não basta uma atitude passiva ou
frívola. Tampouco, é suficiente «deixar-se levar» pela tradição religiosa de
nossos pais. É necessário buscar um sentido último para o mistério de nossa
vida. Porém, o que fazer concretamente? ESTAR MAIS ATENTOS às interrogações,
anseios e apelos que brotam constantemente de nosso interior.
Pode-se crer
tendo dúvidas?
Sim. Para ser crente [= temente a Deus] não é
necessário resolver, com certeza, todas as interrogações e dúvidas que surgem em
nosso interior. O decisivo é buscar honestamente a verdade de Deus em nossa
vida. Não é mais crente aquele que com mais segurança fala acerca dos «dogmas e
da moral», mas quem mais se esforça para VIVER NA VERDADE diante de Deus.
Crer é simples
ou complicado?
Crer é tão simples e, ao mesmo tempo, tão
complicado como é o viver, o amar ou o ser humano. O próprio do crente é que NÃO
SE CONTENTA COM VIVER DE QUALQUER MANEIRA ESTA VIDA TÃO COMPLEXA E ENIGMÁTICA,
e que encontra precisamente em sua fé o melhor estímulo e a melhor orientação
para vivê-la intensamente.
Pode-se
obrigar alguém a crer?
Não. Ninguém pode ser forçado, exteriormente,
para que creia. Cada um é responsável pela sua própria vida e pelo sentido que
deseje dar à sua vida e ao seu morrer. O que todos podemos fazer é dialogar
entre nós, compartilhar e contrastar nossas próprias experiências, e ajudar-nos
a ser sempre mais humanos.
Crer não é
questão de temperamentos?
Certamente, há pessoas que parecem
«alérgicas» a tudo que é religioso e pessoas que tendem a crer facilmente no
«invisível». Sem dúvida, a sensibilidade e a estrutura pessoal de cada um podem
predispor a adotar uma atitude ou outra na vida. Porém, a fé não é assunto de
pessoas «crédulas» ou «sentimentais». TODO HOMEM OU MULHER PODE ABRIR-SE
CONFIANTEMENTE AO MISTÉRIO DE DEUS, ainda que cada um o faça a partir de seu
próprio temperamento.
Há algum
método para aprender a crer?
Se por método entende-se um programa
organizado de aprendizagem, como por exemplo, para aprender uma língua, não há
métodos nem receitas para garantir a fé.
Porém, a aprendizagem da fé, sim, exige umas atitudes de busca e de
honestidade; uma vontade de coerência e fidelidade; a dedicação de um certo
tempo.
Em todo caso, devemos escutar com atenção as
palavras de Jesus: «quem age conforme a
verdade aproxima-se da luz». Todo aquele que enfrenta o seu viver cotidiano
com uma atitude de honestidade e verdade interior, não está distante da luz.
Traduzido do
espanhol por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
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