JOVENS, GRITEM!
“Jovens, não se deixem manipular e anestesiar. Não se
calem. Decidam-se antes que gritem as pedras”, conclama o Papa Francisco
IHU-Online
Na
celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor,
o
Papa Francisco, na homilia, conclamou os jovens:
«Cabe
a vocês a decisão de gritar, cabe a vocês se decidirem pelo Hosana do domingo
para não cair no “crucifica-O” de sexta-feira»
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PAPA FRANCISCO Durante a celebração eucarística de Domingo de Ramos na Praça São Pedro - Vaticano Domingo, 25 de março de 2018 |
Prosseguiu o papa: «E cabe a
vocês não ficar calados. Se os outros
calam, se nós, idosos e responsáveis, tantas vezes corrompidos, silenciamos, se
o mundo se cala e perde a alegria, pergunto-lhes: vocês gritarão?»
E concluiu: "Decidam-se
antes que gritem as pedras".
Ao final da celebração
eucarística, antes da Bênção apostólica, foram entregues ao Papa as conclusões da reunião pré-sinodal em
preparação da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos a ser
realizado em outubro de 2018 tendo como tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional» [leia e baixe este
importante documento clicando aqui – escolha a sua versão em língua inglesa, espanhola ou italiana].
Eis a homilia de Papa
Francisco:
Jesus
entra em Jerusalém. A liturgia convidou-nos a intervir e participar na alegria
e na festa do povo que é capaz de aclamar e louvar o seu Senhor; alegria que
esmorece, dando lugar a um sabor amargo e doloroso depois que acabamos de ouvir
a narração da Paixão. Nesta celebração,
parecem cruzar-se histórias de alegria e sofrimento, de erros e sucessos que
fazem parte da nossa vida diária como discípulos, porque consegue revelar
sentimentos e contradições que hoje em dia, com frequência, aparecem também em
nós, homens e mulheres deste tempo: capazes de amar muito... mas também de
odiar (e muito!); capazes de sacrifícios heroicos mas também de saber
«lavar-se as mãos» no momento oportuno; capazes de fidelidade, mas também de
grandes abandonos e traições.
Vê-se
claramente em toda a narração evangélica que, para alguns, a alegria suscitada
por Jesus é motivo de aborrecimento e irritação.
Jesus
entra na cidade rodeado pelos seus, rodeado por cânticos e gritos rumorosos.
Podemos imaginar que é a voz do filho perdoado, do leproso curado ou o balir da
ovelha extraviada que ressoam intensamente nesta entrada. É o cântico do
publicano e do impuro; é o grito da pessoa que vivia marginalizada da cidade. É
o grito de homens e mulheres que O seguiram, porque experimentaram a sua compaixão
à vista do sofrimento e miséria deles... É
o cântico e a alegria espontânea de tantos marginalizados que, tocados por
Jesus, podem gritar: «Bendito seja o que vem em nome do Senhor!» (Mc 11,9).
Como deixar de aclamar Aquele que lhes
restituíra a dignidade e a esperança? É a alegria de tantos pecadores
perdoados que reencontraram ousadia e esperança.
Estas aclamações de
alegria aparecem incômodas e tornam-se absurdas e escandalosas para aqueles que
se consideram justos e «fiéis» à lei e aos preceitos rituais [cf. R. GUARDINI, Il Signore (Brescia-Milão 2005),
344-345]. Uma alegria insuportável para quantos reprimiram a sensibilidade face
à angústia, ao sofrimento e à miséria. Uma alegria intolerável para quantos
perderam a memória e se esqueceram das inúmeras oportunidades por eles
usufruídas. Como é difícil, para quem
procura justificar-se e salvar-se a si mesmo, compreender a alegria e a festa
da misericórdia de Deus! Como é difícil, para quantos confiam apenas nas
suas próprias forças e se sentem superiores aos outros, poder compartilhar esta
alegria! (cf. FRANCISCO, Exortação Apostólica Evangelii gaudium, 94).
Daqui nasce o grito
da pessoa a quem não treme a voz para bradar: «Crucifica-O!» (Mc 15,13). Não é um grito espontâneo, mas grito pilotado,
construído, que se forma com o desprezo, a calúnia, a emissão de testemunhos
falsos. É a voz de quem manipula a realidade criando uma versão favorável a
si próprio e não tem problemas em
«tramar» os outros para ele mesmo se ver livre. O grito de quem não tem
escrúpulos em procurar os meios para reforçar a sua posição e silenciar as
vozes dissonantes. É o grito que nasce
de «maquiar» a realidade, pintando-a de tal maneira que acabe por desfigurar o
rosto de Jesus fazendo-O aparecer como um «malfeitor». É a voz de quem
deseja defender a sua posição, desacreditando especialmente quem não se pode
defender. É o grito produzido pelas
«intrigas» da autossuficiência, do orgulho e da soberba, que proclama sem
problemas: «crucifica-O, crucifica-O!»
E
deste modo, no fim, silencia-se a festa do povo, destrói-se a esperança,
matam-se os sonhos, suprime-se a alegria; deste
modo, no fim, blinda-se o coração, resfria-se a caridade. É o grito do «salva-te a ti mesmo» que
pretende adormecer a solidariedade, apagar os ideais, tornar insensível o
olhar... O grito que pretende cancelar a compaixão.
Perante todas estas
vozes que gritam, o melhor antídoto é OLHAR A CRUZ DE CRISTO e deixar-se
interpelar pelo seu último grito. Cristo morreu, gritando o seu amor por
cada um de nós: por jovens e idosos, santos e pecadores, amor pelos do seu
tempo e pelos do nosso tempo. Na sua
cruz, fomos salvos para que ninguém apague a alegria do Evangelho; para que
ninguém, na própria situação em que se encontra, permaneça longe do olhar
misericordioso do Pai. Olhar a cruz
significa deixar-nos interpelar nas nossas prioridades, escolhas e ações. Significa deixar-nos interrogar sobre a
nossa sensibilidade face a quem está a passar ou a viver momentos de
dificuldade. Que vê o nosso coração?
Jesus continua a
ser motivo de alegria e louvor no nosso coração ou
envergonhamo-nos das suas prioridades para com os
pecadores,
os últimos e os abandonados?
Queridos
jovens, a alegria que Jesus suscita em vocês é, para alguns, motivo de aborrecimento
e irritação, porque um jovem alegre é
difícil de manipular.
Neste
dia, porém, existe a possibilidade de um terceiro grito: «Alguns fariseus
disseram-Lhe, do meio da multidão: “Mestre,
repreende os teus discípulos”. Jesus retorquiu: “Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras”» (Lc 19,39-40).
Calar os jovens é uma tentação que sempre existiu.
Os próprios fariseus inculpam Jesus, pedindo-Lhe que os
acalme
e faça estar calados.
Há muitas maneiras
de tornar os jovens silenciosos e invisíveis. Muitas maneiras de os anestesiar e
adormecer para que não façam «barulho», para que não se interroguem nem ponham
em discussão. Há muitas maneiras de os fazer estar tranquilos, para que não se
envolvam, e os seus sonhos percam altura tornando-se fantasias rasteiras,
mesquinhas, tristes.
Neste
Domingo de Ramos, em que celebramos o Dia
Mundial da Juventude, faz-nos bem ouvir a resposta de Jesus aos fariseus de
ontem e de todos os tempos: «Se eles se
calarem, gritarão as pedras» (Lc 19,40).
Queridos jovens,
cabe a vós a decisão de gritar, cabe a vós decidir-vos pelo Hosana do
domingo para não cair no «crucifica-O» de sexta-feira... E cabe a vós não ficar
calados. Se os outros calam, se nós,
idosos e responsáveis, tantas vezes corrompidos, silenciamos, se o mundo se
cala e perde a alegria, lhes pergunto: vocês gritarão?
Por
favor, decidam-se antes que gritem as pedras.
Assista
ao vídeo com a homilia de Papa Francisco,
clicando
sobre a imagem abaixo:
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