A fraternidade está em campanha
Campanha da Fraternidade merece ser apoiada
Dom Odilo
Pedro Scherer
Cardeal-Arcebispo
de São Paulo – SP
Devemos superar injustiças,
discriminações, polarizações e ódios
Todos os anos, desde 1963, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB) promove a Campanha da Fraternidade durante o período da Quaresma,
quando os cristãos se preparam para celebrar a Páscoa. Incentivador primeiro da iniciativa foi dom Eugênio de Araújo Sales,
na época responsável pela Arquidiocese de Natal, secretário para a ação social
da CNBB e presidente da Cáritas Brasileira. A inspiração veio de outras
campanhas semelhantes já realizadas regularmente, naquele tempo, por outras
conferências episcopais, como as da Alemanha e da Itália.
No seu nascimento, a Campanha da Fraternidade
foi instrumento de implementação do Concílio Ecumênico Vaticano II na renovação
da Igreja Católica. Desde 1970, a cada
ano o papa envia uma mensagem na abertura da campanha, na Quarta-Feira de
Cinzas, o que mostra a importância que a Campanha da Fraternidade assumiu.
Inicialmente, os temas anuais foram dedicados,
sobretudo, à vida interna da própria comunidade católica. A partir de 1973, porém, o temário foi sendo orientado para questões
sociais e âmbitos em que se faz necessário promover maior fraternidade, nas
suas diversas implicações.
Essa evolução traduz a compreensão de que a fé católica não se restringe à vida
privada, mas tem implicações sociais. Como Jesus ensinou, amor a Deus e
amor ao próximo são inseparáveis. O tema de 1973, “O egoísmo escraviza, o amor liberta”, apontava claramente
para a necessária superação de tudo o que escraviza a pessoa e fere a sua
dignidade. Em 1974 o tema “Onde está
teu irmão?” tratava da defesa da vida humana e da superação de toda violência
contra o semelhante. Em 1975,
“Repartir o Pão” abordava o escândalo da fome e da miséria. Em 1978, com o tema “Trabalho e justiça
para todos” a campanha enfocou o problema do desemprego e das injustiças
sociais, que ferem profundamente a solidariedade social e a fraternidade.
Com o passar do tempo, passaram a ser
abordadas questões que, para uma análise superficial, nada teriam em comum com
a promoção da “fraternidade” e, menos ainda, com a Quaresma e a vivência da fé
cristã. No entanto, a reta compreensão
da fé e da moral cristãs não permite separação e incoerência entre o culto
prestado a Deus e o zelo e apreço pela obra de Deus. Assim, em 1979, o tema “Preserve o que é de
todos” levantou a questão das dimensões da justiça e da fraternidade implicadas
no cuidado, ou no descuido, da natureza. A temática ambiental foi tratada ainda
em várias outras campanhas sucessivas, como a de 2017, que tratou dos biomas
brasileiros.
Em 1981,
o foco foi “Saúde para todos”; em 1988,
“Ouvi o clamor desse povo” tratou da “fraternidade e o negro”. A abordagem de
questões foi sendo ampliada, abrangendo assuntos e âmbitos muito diversos, como
a terra, a água, as drogas, o trabalho, a saúde, a economia, o tráfico humano,
a segurança pública.
“Fraternidade
e superação da violência” é o tema de 2018. Recentemente, a campanha também passou a
ser promovida de modo ecumênico a cada cinco anos.
Os objetivos da Campanha da Fraternidade estão
expressos no seu próprio nome: despertar
e promover o amor fraterno e o senso comunitário, indicando vias para a
promoção do bem comum, especialmente em relação às questões focadas em cada
campanha. E a via proposta para promover o bem comum é a da fraternidade
efetiva, traduzida em respeito, solidariedade, defesa ou socorro de quem mais
sofre as consequências da ausência de fraternidade na vida social.
Os resultados pretendidos são maior justiça,
harmonia e paz social, a equidade e a participação responsável na promoção do
bem comum. Tudo isso não é apenas compatível com a fé e a vida cristãs: trata-se de exigências éticas e morais
decorrentes do Evangelho de Jesus Cristo.
No final da campanha é feito o “gesto concreto de solidariedade”,
mediante a coleta em dinheiro nas celebrações da Igreja Católica em todo o
Brasil. O fruto desse gesto é destinado a apoiar
ações voltadas para a busca dos objetivos da Campanha: localmente, pelas
dioceses; em todo o Brasil, pela CNBB. A fraternidade merece ser apoiada
para superar injustiças, discriminações, polarizações e ódios, sintomas de
sérias enfermidades no corpo social.
Com a Campanha da Fraternidade a Igreja Católica
não deixou de lado a sua missão religiosa, nem se alinhou a nenhuma ideologia,
partido político ou governo. O pressuposto dessa ação é sempre o da fé cristã,
em que o amor a Deus e o amor ao próximo
são inseparáveis. Quem deseja viver a fé de modo coerente não pode ficar alheio
ao que se passa ao seu redor.
Vale lembrar as recomendações aos cristãos
dadas pelo apóstolo São João já no início da Igreja: “Filhinhos, não amemos só com palavra e de boca, mas com ações e de
verdade” (1Jo 3,18). De modo semelhante, o apóstolo São Tiago respondeu a
quem pensava que a fé cristã fosse apenas interior, sem implicações na vida
social: “Meus irmãos, de que adianta
alguém dizer que tem fé, quando não tem obras? (...) A fé, se não se traduz em
ações, é morta em si mesma” (cf. Tg 2,14-17).
A promoção da
Campanha da Fraternidade é uma das respostas ao chamado que ressoa no rito da
Quarta-Feira de Cinzas, bem no início do período quaresmal: “Convertei-vos e
crede no Evangelho” (cf. Mc 1,15). Quem tem fé religiosa deve voltar-se para Deus de todo
o coração e orientar suas relações sociais de maneira coerente com o amor ao
próximo. A Campanha da Fraternidade não absorveu nem substituiu as demais
práticas da Quaresma, que continuam sendo propostas a todos os fiéis: o jejum, a esmola e a oração. Seria um
erro deixar de lado essas práticas penitenciais consagradas desde os tempos
bíblicos. E seria um lamentável equívoco
achar que a Campanha da Fraternidade é estranha às práticas quaresmais cristãs.
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