3º Domingo da Páscoa – Ano “B” – Homilia


Evangelho: Lucas 24,35-48

José Antonio Pagola

TESTEMUNHAS

Lucas descreve o encontro do Ressuscitado com seus discípulos como uma experiência fundante. O desejo de Jesus é claro. Sua tarefa não terminou na cruz. Ressuscitado por Deus depois de sua execução, toma contato com os seus para iniciar um movimento de “testemunhas” capazes de contagiar a todos os povos com sua Boa Notícia: “Vós sois minhas testemunhas”.

Não é fácil converter em testemunhas àqueles homens mergulhados na confusão e no medo. Ao longo de toda a cena, os discípulos permanecem calados, em silêncio total. O narrador somente descreve seu mundo interior: estão cheios de terror; sentem somente perturbação e incredulidade; tudo aquilo lhes parece bom demais para ser verdade.

É Jesus que irá regenerar a fé deles. O mais importante é que não se sintam sozinhos. Eles têm de senti-lo cheio de vida em seu meio. Estas são as primeiras palavras que escutarão do Ressuscitado: “Paz a vós... Por que surgem dúvidas em vosso interior?”.

Quando esquecemos a presença viva de Jesus no meio de nós; quando o tornamos opaco e invisível com nossos protagonismos e conflitos; quando a tristeza nos impede de sentir sua paz; quando nos contagiamos  uns aos outros com pessimismo e incredulidade... estamos pecando contra o Ressuscitado. Não é possível uma Igreja de testemunhas.

Para despertar a fé deles, Jesus não lhes pede que olhem para o seu rosto, mas para suas mãos e seus pés. Que vejam suas feridas de crucificado. Que tenham sempre diante de seus olhos o seu amor doado até a morte. Não é um fantasma: “Sou eu em pessoa”. O mesmo que conheceram e amaram pelos caminhos da Galileia.

Sempre que pretendemos fundamentar a fé no Ressuscitado com nossas elucubrações, o convertemos num fantasma. Para encontrarmos com ele, temos de recorrer ao relato dos evangelhos: descobrir essas mãos que abençoavam os enfermos e acariciavam as crianças, esses pés cansados de caminhar ao encontro dos mais esquecidos; descobrir suas feridas e sua paixão. É esse Jesus aquele que, agora, vive ressuscitado pelo Pai.

Apesar de vê-los cheios de medo e dúvidas, Jesus confia em seus discípulos. Ele mesmo lhes enviará o Espírito que os sustentará. Por isso lhes confia prolongar sua presença no mundo: “Vós sois testemunhas disto”. Não deverão ensinar doutrinas sublimes, mas contagiar pela sua experiência. Não terão de pregar grandes teorias sobre Cristo, mas irradiar seu Espírito. Haverão de torná-lo crível com a vida, não somente com palavras. Este é sempre o verdadeiro problema da Igreja: a falta de testemunhas.

CRER POR EXPERIÊNCIA PRÓPRIA

Não é fácil crer em Jesus ressuscitado. Em última instância, é algo que somente pode ser captado e compreendido a partir da fé que o próprio Jesus desperta em nós. Se não experimentamos “por dentro” a paz e a alegria que Jesus infunde, é difícil que encontremos “por fora” provas de sua ressurreição.

Algo disto nos diz Lucas ao descrever-nos o encontro de Jesus ressuscitado com o grupo de discípulos. Entre eles há de tudo. Dois discípulos estão contando como o reconheceram ao ceiar com ele em Emaús. Pedro diz que ele lhe apareceu. A maioria não teve, no entanto, nenhuma experiência. Não sabem o que pensar.

Então, “Jesus se apresenta no meio deles e lhes diz: ‘A Paz esteja convosco’ ”. A primeira coisa que desperta nossa fé em Jesus ressuscitado é poder intuir, também hoje, sua presença no meio de nós, e fazer circular em nossos grupos, comunidades e paróquias a paz, a alegria e a segurança que dá saber que ele está vivo, acompanhando-nos de perto nestes tempos nada fáceis para a fé.

O relato de Lucas é muito realista. A presença de Jesus não transforma de modo mágico os discípulos. Alguns se assustam e “creem estar vendo um fantasma”. No íntimo de outros “surgem dúvidas” de todo tipo. Havia aqueles que “não acreditavam devido à alegria”. Outros continuam “surpresos”.

Assim ocorre também hoje. A fé em Cristo ressuscitado não nasce de maneira automática e segura em nós. Ela vai se despertando em nosso coração de forma frágil e humilde. No começo, é quase somente um desejo. Normalmente, cresce cercada por dúvidas e interrogações: será possível que algo tão grande seja verdade?

Segundo o relato, Jesus permanece, come entre eles, e se dedica a “abrir-lhes o entendimento” para que possam compreender o que aconteceu. Quer que se convertam em “testemunhas”, que possam falar a partir de sua experiência, e pregar não de qualquer modo, mas “em seu nome”.

Crer em Jesus Ressuscitado não é questão de um dia. É um processo que, às vezes, pode durar anos. O importante é nossa atitude interior. Confiar sempre em Jesus. Dar-lhe mais espaço em cada um de nós e em nossas comunidades cristãs.

FAZEM FALTA AS TESTEMUNHAS

Os relatos evangélicos repetem mais uma vez. Encontrar-se com o Ressuscitado é uma experiência que não se pode calar. Quem experimentou Jesus cheio de vida, sente necessidade de contá-lo aos outros. Contagia aquele que vive. Não se permanece calado. Converte-se em testemunha.

Cristo em Emaús - quadro de Rembrandt
Os discípulos de Emaús “contavam o que lhes havia acontecido no caminho e como o haviam reconhecido ao partir do pão”. Maria de Magdala deixou de abraçar Jesus, se foi para onde os demais discípulos estavam e lhes disse: “vi o Senhor”. Os onze escutam invariavelmente o mesmo chamamento: “Vós sois testemunhas destas coisas”; “como o Pai me enviou, assim eu lhes envio”; “proclamai a Boa Notícia a toda a criação”.

A força decisiva que possui o cristianismo para comunicar a Boa Notícia que se encerra em Jesus são as testemunhas. Esses crentes que podem falar em primeira pessoa. Aqueles que podem dizer: “isto é o que me faz viver nestes momentos”. Paulo de Tarso o dizia à sua maneira: “já não sou eu que vivo. É Cristo quem vive em mim”.

A testemunha comunica sua própria experiência. Não crê “teoricamente” em coisas sobre Jesus; crê em Jesus porque o sente pleno de vida. Não somente afirma que a salvação do homem está em Cristo; ele mesmo se sente sustentado, fortalecido e salvo por ele. Em Jesus vive “algo” que é decisivo em sua vida, algo inconfundível que não se encontra em outro lugar.

Sua união com Jesus ressuscitado não é uma ilusão: é algo real que está transformando pouco a pouco sua maneira de ser. Não é uma teoria vaga e etérea: é uma experiência concreta que motiva e impulsiona sua vida. Algo preciso, concreto e vital.

A testemunha comunica o que vive. Fala do que lhe aconteceu no caminho. Diz o que viu quando se lhe abriram os olhos. Oferece sua experiência, não sua sabedoria. Irradia e contagia vida, não doutrina. Não ensina teologia, “faz discípulos” de Jesus.

O mundo de hoje não necessita de mais palavras, teorias e discursos. Necessita de vida, de esperança, de sentido, de amor. Fazem falta mais testemunhas que defensores da fé. Crentes que nos possam ensinar a viver de outra maneira porque eles mesmos estão aprendendo a viver de Jesus.

Tradução: Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A. Pagola - Segunda-feira, 16 de abril de 2012 - 23h35 - Internet: http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php

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