Sexta-feira da Paixão - Para além do silêncio
Timothy Radcliffe
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Típica entrada de sepulcro do tempo de Cristo |
Fez-se silêncio.
Temos de esperar que a ressurreição quebre o silêncio do sepulcro.
Deus deseja sempre que nós esperemos pela sua palavra.
Deus leva sempre tempo para falar.
Esta espera é dura para nós, que pertencemos à Geração do Agora.
Nós sentimos a impaciência do atraso.
Na internet, comunicação é quase instantânea.
Como Zygmunt Bauman escreveu, eliminamos "a espera do nosso querer".
"Por que é que estamos à espera?", como dizia a canção.
A Palavra de Deus chega-nos como um dom. Não pode ser agarrada.
Não podemos apoderar-nos dela nem dominá-la.
A Palavra vem como uma pessoa, que de fato é.
Devemos-lhe a cortesia da atenção paciente, deixando-a entrar quando ela quiser.
Simone Weil escreveu que "nós não obtemos os presentes mais preciosos, partindo em sua busca, mas esperando por eles... Esta forma de olhar é, primeiro de tudo, atenta. A alma esvazia-se de todo o seu conteúdo a fim de receber o ser humano para o qual está a olhar, tal como ele é, em toda a sua verdade..."
Assim como uma pessoa deve dar a outra o espaço em que esta possa mostrar quem é, também nós devemos dar a Deus o espaço em que Ele nos possa dar essa Palavra, atentos ao silêncio de Sábado Santo.
Devemos esperar pela Palavra em silêncio, porque ela irrompe do interior da linguagem humana.
A Palavra não provém do exterior, mas é gerada dentro da nossa linguagem humana.
A Palavra de Deus não desce do céu como um Esperanto celestial.
Fertilizar a linguagem humana com a Palavra de Deus leva o seu tempo. A gravidez leva tempo.
Por isso, agora, há que se fazer silêncio enquanto esperamos que nos seja dada a Palavra que quebra o silêncio.
Temos de aprender a estar à espera, mas isso não é suficiente.
Também temos de lutar corpo a corpo para receber a Palavra que nos é dada agora.
A Palavra de Deus leva tempo a ser gerada dentro de nós.
Demorou quatrocentos anos [após a sua morte] até Cristo começar a ser representado na cruz... e mais quinhentos anos para alguém se atrever a representá-lo morto.
James Alison sublinha que a Ressurreição não é apenas mais uma etapa da vida de Jesus, e que Ele pôs a morte para trás das costas.
Ele agora é o crucificado e o ressuscitado.
"A ressurreição de Jesus foi a retribuição gratuita de toda a sua vida e morte que terminara na Sexta-feira Santa: toda a humanidade de Jesus inclui a sua morte humana".
Ele continua entre nós como excluído e crucificado.
O Corpo de Cristo continua a ser um excluído dentre os pobres, e dentre todos aqueles que vivem na desolação.
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Descida da Cruz - pintor: Tintoretto |
No Antigo Testamento, a bênção suprema é que o rosto de Deus nos sorria.
"Brilhe sobre o teu servo a luz da tua face;
salva-me pela tua misericórdia" (Salmo 31[30],17).
Antes de Cristo, nós não podíamos ver Deus e continuar a viver.
Pedíamos que Deus nos sorrisse, mas nós não podíamos retribuir esse olhar.
Agora, no fim da vida de Cristo, olhamos para o seu rosto morto.
Agora, é Deus que não pode retribuir-nos o olhar.
Esta é a suprema vulnerabilidade de Deus em Cristo.
Toda a amizade é entre iguais.
A nossa amizade com Deus significa que a anterior desigualdade de olhares deve ser deitada por terra.
Nós não somos apenas vistos; agora também vemos.
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Sepultamento de Cristo - pintor: Caravaggio |
"Diante deste rosto morto nós podemos reconhecer alguém que se entregou completamente por Deus e por nós: está a ser morto por nós, está ausente por nós, apresenta-se como alguém que cria, pela sua morte, uma esfera ilimitada de responsabilidade para nós."
Ele compara isto ao retrato de Santa Teresa de Lisieux, de Jesus adormecido no barco: os discípulos devem assumir a responsabilidade, não acordá-lo.
O rosto morto chama-nos à responsabilidade porque, tal como disse Santa Teresa d'Ávila, Ele agora só tem os nossos pés, agora só tem as nossas mãos e agora só tem a nossa boca.
Depois da Ascensão, quando Jesus já não está entre nós como um ser humano, no meio de outros, nós somos aqueles que continuamos a quebrar o silêncio dos sepulcros da humanidade.
Fonte: RADCLIFFE,Timothy. As Sete Últimas palavras. Prior Velho (Portugal): Paulinas, 2010. pp. 76-84.
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