Padres no divã
Rodrigo Cardoso
Sacerdotes recorrem à terapia ou a clínicas especializadas para tratar de males como depressão, alcoolismo e estresse
Sentado na ponta do banco da igreja praticamente vazia, o pároco passa a tarde com a “Bíblia” aberta sobre o colo, prestando atendimento aos fiéis. Cada palavra sussurrada ecoa pelo templo desocupado. São histórias de aflição, angústia, medo e dor de pessoas que enxergam, na figura do sacerdote, o lenitivo para seus males. Dele se espera a palavra certa, o conforto imediato, a esperança revigorante. O ofício de se ocupar dos outros é feito de graça, mas tem um custo alto. E tanta responsabilidade às vezes cobra seu preço. Muitos padres vão além dos seus limites, na ânsia de se doar, o que os faz mergulhar num mar de angústias que não há consulta com bispo ou oração que surta efeito. Por isso, a Igreja Católica tem pedido socorro à ciência e encaminhado muitos de seus servos para a terapia.
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Ênio Brito Pinto - psicoterapeuta |
Responsável pela paróquia Santo Antônio, em Brejões, na Bahia, o padre Antônio Tourinho Neto, 48 anos, recebeu o apoio do bispo ao decidir se afastar de suas funções, depois de viver uma situação traumática em 2000 e passar um mês na unidade de Sergipe da Fazenda da Esperança, uma comunidade terapêutica alternativa que presta assistência espiritual sem abrir mão do auxílio de profissionais de saúde como psicanalistas e psicólogos. Então responsável por outra paróquia, padre Neto prestava atendimento espiritual a um jovem na porta da igreja. Depois de cerca de uma hora e meia de desabafo, ele viu seu interlocutor sacar uma arma e anunciar que iria se matar.
O sacerdote ainda trocou algumas palavras com o rapaz antes de ele apertar o gatilho e se suicidar. “O choque me pôs em angústia profunda, passei a questionar o porquê de Deus permitir aquilo e fiquei decepcionado com o sacerdócio”, diz Neto. O estresse e o transtorno psicológico do pároco foram tratados por meio de conferências com um psicanalista e terapia em grupo, entre outras atividades. “Entrei lá fraco e abatido e saí forte e gordo”, afirma.
A Fazenda da Esperança, presente também em outros dez países, tem nos dependentes de drogas o seu público-alvo, mas cerca de 3% de seus pacientes são religiosos. Hoje, um de seus missionários, o padre tailandês Dekson Teope, 34, passou um ano em tratamento por conta do alcoolismo. “Cheguei a ponto de celebrar bêbado”, diz ele, que foi proibido de rezar missas. O padre Teope, porém, encarou o tratamento, livrou-se do vício e, hoje, celebra em uma comunidade brasileira da Fazenda. “Por trabalhar muito, os sacerdotes têm suas relações interpessoais prejudicadas, ao mesmo tempo que lidam mal consigo mesmos. Muitos sucumbem ao alcoolismo ou vivem crises de mau humor”, afirma o psicoterapeuta Pinto.
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Pe. Dekson Teope |
Fonte: ISTOÉ Independente - Edição nº 2213 - 05 de abril de 2012 - 17h30 - Internet: http://www.istoe.com.br/reportagens/197721_PADRES+NO+DIVA
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