4º Domingo de Páscoa – Ano B – Homilia
Evangelho: João 10,11-18
Naquele
tempo, disse Jesus:
11
«Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.
12
O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar,
abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa.
13
Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas.
14
Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem,
15
assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas
ovelhas.
16
Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo
conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.
17
É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente.
18 Ninguém
tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho
poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi do meu Pai».
ENZO BIANCHI
Monge,
teólogo e biblista italiano
Fundador
da Comunidade de Bose – Itália
JESUS, O PASTOR SANTO, BELO E BOM
Nos trechos do Evangelho que a Igreja (depois
daqueles sobre as manifestações do Ressuscitado) nos propõe para o Tempo
Pascal, sempre tirados do quarto Evangelho, é o Jesus Cristo ressuscitado que fala à sua comunidade, revelando sua identidade mais profunda, identidade
que vem de Deus, seu Pai.
O Senhor vivo para sempre está mais do que
nunca autorizado a se apresentar com o Nome próprio de Deus: “Eu sou” (Egó eimi – em grego). Quando Moisés pedira a Deus que lhe falava da
sarça ardente para lhe revelar seu Nome, Deus respondera: “Eu sou” (Ex 3,14), Nome inefável, nome indizível inscrito no
tetragrama YHWH.
O Cristo vivo se revela, portanto, como “Eu sou” e especifica: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6,35); “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12); “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10,7);
“Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo
11,25); “Eu sou o caminho, a verdade e a
vida” (Jo 14,6); “Eu sou a videira”
(Jo 15, 5).
No nosso trecho, depois de ter se apresentado
como a porta do redil, Jesus declara por duas vezes: “Eu sou o pastor bom e belo” (kalós
– grego), resumindo em si a imagem de todos os pastores dados por Deus ao seu
povo (Moisés, Davi, os profetas), mas também a imagem de Deus mesmo, invocado e
louvado como “Pastor de Israel” (Sl 80,2), dos crentes nele.
Jesus tinha evocado várias vezes a imagem do
pastor e do rebanho por ele apascentado (cf. Mt 9,36; 10,6; 15,24 etc.), mas agora, com essa revelação, ele fala de si mesmo,
proclama-se Messias e Enviado por Deus para conduzir a humanidade à vida plena,
tendo vindo “para que todos tenham vida e
a tenham em abundância” (Jo 10,10).
O bom pastor versus o pastor assalariado/funcionário
O bom pastor é
o oposto do pastor assalariado, que faz esse ofício apenas por ser pago, que olha
para a recompensa pelo trabalho, mas que, na verdade, não ama as ovelhas: estas
não lhe pertencem, não são destinatárias do seu amor e não importam nada para
ele. Prova disso é o fato de que, quando o lobo chega, ele abandona as ovelhas
e foge: quer salvar a si mesmo, não as
ovelhas que lhe são confiadas!
Quem é o pastor mercenário ou assalariado? É um funcionário, é aquele
que cumpre a tarefa pelo salário que recebe ou simplesmente porque ser pastor é considerado uma honra que lhe
provoca reconhecimento e também lhe dá glória. Mas é preciso dizer: o pastor assalariado é facilmente
reconhecível no cotidiano, porque está longe das ovelhas e não as ama.
Basta-lhe governá-las!
Pelo contrário, o amor do bom pastor pelas
suas ovelhas provoca até que ele se exponha, deponha sua vida pela salvação
delas. Ele não só gasta a sua vida estando no meio das ovelhas, guiando o
rebanho, conduzindo-o a pastos onde ele possa se saciar; mas também pode
acontecer que a ameaça à vida do rebanho
se torne ameaça à própria vida do pastor. Este é o momento em que o bom
pastor se revela.
Essa solidariedade, esse amor, porém, só são
possíveis se o pastor não é apenas um assalariado, mas também se conhece as
suas ovelhas com um conhecimento particular que o leva a discernir e a
reconhecer a identidade de cada uma delas: um
conhecimento penetrante que é gerado pela proximidade, pela assídua custódia do
rebanho.
O bom pastor ser faz próximo
Sim, a
primeira qualidade do pastor autêntico é a proximidade às ovelhas: ele está
com elas noite e dia, nos desertos e nos prados, debaixo do sol e debaixo da
chuva. O Papa Francisco falou de “proximidade
da cozinha”, isto é, de estar lá onde “se cozinham” as coisas decisivas,
aquelas que importam para cada ovelha, para cada rebanho; ele falou de um pastor que deve ter “o cheiro das ovelhas”
sobre ele. Imagens fortes, que indicam a urgência de que os pastores não
estejam acima nem às margens, mas “no meio”, em plena solidariedade com as
ovelhas.
O bom pastor conhece e se deixa conhecer
Jesus tenta explicar essa comunhão recíproca
evocando até mesmo o conhecimento entre ele e o Pai, que o enviou e do qual
tenta realizar a vontade dia após dia: “Conheço
as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço
o Pai”.
Há, nessas palavras de
Jesus, a essência do cuidado pastoral:
um conhecimento penetrante recíproco
entre pastor e ovelha. O pastor não só conhece as ovelhas uma a uma, em uma
relação pessoal e em um vínculo de amor, mas também as ovelhas conhecem o pastor, sua vida, seu comportamento, seus
sentimentos, suas ansiedades e suas alegrias.
Porque o pastor é seu vizinho, seu próximo. As ovelhas não conhecem apenas a voz do
pastor que ouvem quando ele as chama, mas também conhecem sua presença, às vezes silenciosa, mas que sempre lhes dá
segurança e paz.
Tal conhecimento-comunhão certamente é o
mesmo vivido por Jesus nos seus dias terrenos, dentro de sua comunidade, com
seus discípulos e suas discípulas; mas também é uma comunhão que transcende os
tempos, pois será vivida na história entre o Ressuscitado e aqueles que ele
atrair para si, chamando-os de outros redis.
Tendo vindo para todos, não só para Israel, e
querendo levar a todos à plenitude da vida, Jesus é consumido pelo desejo de que haja um único rebanho sob um
pastor e que todos os filhos de Deus dispersos sejam reunidos (cf. Jo 11,52).
Precisamente no evento da cruz, se manifestará a glória de Jesus como glória de
quem amou até a morte e, então, elevado da terra, ele atrairá todos para si
(cf. Jo 12,32) e dará início à reunião dos povos ao seu redor, até o
cumprimento escatológico [= do fim dos
tempos], quando “o Cordeiro será seu pastor” (Ap 7,17).
Jesus não é um pastor como os pastores de
Israel, mas, precisamente por ser “a luz do mundo” (Jo 8,12) e “o Salvador do
mundo” (Jo 4,12) – tendo Deus amado o mundo (cf. Jo 3,16) –, ele também é o pastor de toda a humanidade, como
Deus foi confessado e testemunhado.
Depois dessa autorrevelação, eis outras
palavras com que Jesus expressa sua intimidade, sua comunhão com Deus: “É por
isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la
novamente”.
Por que o Pai ama Jesus? Porque Jesus realiza sua vontade, aquela
vontade que é amor até o dom da vida. Em Jesus, há esse amor “até o extremo” (em grego: eis
télos: Jo 13,1), até o dom da vida, justamente, e há a fé de poder
recebê-la novamente do Pai.
Preste-se atenção aqui à tradução, que pode
comprometer o sentido das palavras de Jesus. Jesus não diz: “O Pai me ama,
porque dou a minha vida, para depois retomá-la novamente”, mas sim “para recebê-la novamente” (o verbo lambáno, no quarto Evangelho, sempre
significa “receber”, não “retomar”). A
oferta da vida por parte de Jesus está no espaço da fé, não da asseguração
antecipada!
O mandamento do Pai é que ele gaste, ofereça a vida; e a promessa
do Pai é de que, assim, ele poderá recebê-la, porque “quem perder sua vida a encontrará novamente, mas quem quiser salvá-la,
a perderá” (cf. Mc 8,35 e par.; Jo 12,25). Ninguém tira a vida de Jesus,
ninguém a rouba, e sua morte não é nem
um destino (uma necessidade) nem um
acaso (deu tudo errado...): não, trata-se de um dom feito na liberdade e por amor, um dom do qual ele foi consciente
ao longo de toda a sua vida, dizendo todos os dias o seu “sim” ao amor.
Nas palavras
de Jesus, o Pai aparece como a origem e o fim de toda a sua atividade: dele vem o mandamento, que
nada mais é do que o mandamento de amar, vivido por Jesus na sua descendência
como Palavra feita carne (cf. Jo 1,14) e na sua vida humana no mundo. E a morte de Jesus não é apenas o termo do
êxodo deste mundo, mas é um ato consumado (“Está consumado!”: Jo 19,30), o termo último do fato de ele viver o amor
ao extremo.
Jesus dá a sua vida até a morte, mas não com
o desejo de recuperar a vida como prêmio, de retomá-la como um tesouro que lhe
cabe ou como um mérito pela oferta de si mesmo, mas sim na consciência de que o
Pai lhe dá e que ele a acolherá porque “o
amor basta ao amor” (Bernardo de Claraval). Jesus não deu a vida por razões
religiosas, sagradas, mistéricas, mas porque, quando amamos, somos capazes de dar aos amados a nós mesmos, tudo o que
somos.
No túmulo de um cristão do fim do século II,
um certo Abércio, lemos a seguinte inscrição: “Sou o discípulo de um pastor santo que tem olhos grandes; seu olhar
alcança a todos”. Sim, Jesus é o pastor santo, bom e belo, com olhos
grandes, que alcançam a todos, até a nós, hoje. E, por esses olhos, nos
sentimos protegidos e guiados.
Traduzido do
italiano por Moisés Sbardelotto.
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