Não sejamos ingênuos ! ! !

Privacidade de Zuckerberg vale mais do que a de
seus incautos usuários

Clóvis Rossi

O mundo inteiro, não apenas a América, está deixando de lado
o direito à intimidade
MARK ZUCKERBERG
Criador e principal acionista do Facebook é interrogado pelos Deputados e Senadores norte-americanos

O momento mais eloquente do depoimento de Mark Zuckerberg ao Congresso americano (terça-feira, 10) foi o seguinte diálogo entre ele e o senador democrata Dick Durbin.

Durbin: «Mr. Zuckerberg, o senhor se sentiria confortável em dividir conosco o nome do hotel em que se hospedou na noite passada?»

Zuckerberg (depois de uma pausa): «Hum..., não».

Seguiram-se risadas dos presentes até a nova pergunta de Durbin:

«Se o senhor enviou mensagens a alguém esta semana, o senhor compartilharia conosco os nomes das pessoas com as quais trocou mensagens?».

Zuckerberg: «Senador, não, eu provavelmente escolheria não tornar isso público aqui».

Moral da história, segundo Durbin: «Acho que é exatamente disso que se trata, de seu direito à privacidade, dos limites de seu direito à privacidade e quanto ele é deixado de lado na América moderna em nome de “conectar pessoas ao redor do mundo” [um dos slogans essenciais do Facebook de Zuckerberg]».

Se o senador tivesse dito que o mundo inteiro e não apenas a América está deixando de lado o direito à privacidade, estaria sendo ainda mais correto.
DICK DURBIN
Senador Democrata interrogando o criador do Facebook, Zuckerberg

O depoimento de Zuckerberg acaba sendo a aplicação prática do pré-histórico ditado que diz «faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço».

Ou, posto de outra forma: as redes sociais sabem muito bem quais hotéis seus usuários estão escolhendo, mas o criador da mais emblemática delas (o Facebook) não compartilha nem com senadores o nome do estabelecimento em que pernoita.

Acho que essa dualidade é que incomoda. Eu uso a internet para procurar hotéis para minhas ocasionais viagens. Imediatamente após a primeira busca, recebo uma porção de anúncios do hotel x ou y naquela cidade ou até em outras que jamais pensei em visitar.
É um jogo de mão dupla: abrir um pedaço (irrelevante, de resto) da minha privacidade em troca da facilidade de descobrir e reservar o hotel mais adequado às minhas necessidades.

O problema começa quando alguém ganha dinheiro — e muito dinheiro — ao avançar os limites do meu, do seu, do nosso direito à privacidade.

O problema fica ainda maior quando as empresas «mineradoras» de dados nas redes sociais os utilizam para personalizar a propaganda — política/eleitoral ou de outra natureza. Fica claro, pois, que é preciso de fato estabelecer regras, tal como Zuckerberg e os congressistas americanos concordaram em fazer.

Não há qualquer razão para que uma empresa de mídia, como o Facebook inegavelmente o é, não tenha que respeitar regras como o fazem as empresas tradicionais do ramo.

Fonte: Folha de S. Paulo – Colunistas – Quarta-feira, 11 de abril de 2018 – 12h26 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

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