A VIDA ATRIBULADA DE ADÃO E EVA
Antonio
Gonçalves Filho
Stephen Greenblatt está publicando
no Brasil seu livro
«Ascensão e Queda de Adão e Eva»
No
prólogo de seu livro Ascensão e Queda de Adão e Eva, o
teórico e crítico literário norte-americano Stephen Greenblatt pergunta por que uma história que ocupa pouco
mais de uma página e meia da Bíblia “se impõe com tanta eficiência e tanta
facilidade”. Ele mesmo responde: “Porque
nós a ouvimos quando crianças e nunca mais a esquecemos”. Greenblatt não só
não a esqueceu como decidiu escrever um livro sobre nossos parentes mais
distantes, concluindo que o primeiro
casal da humanidade “é o epítome do nosso poder de contar histórias”.
Greenblatt
conversou por telefone com a reportagem do Aliás,
esclarecendo que seu ensaio sobre Adão e Eva não pretende ser um manifesto
anticlerical ou um resumo de como essa história foi absorvida pela cultura
judaica, muçulmana e cristã. Antes, é um
estudo sobre como ela foi interpretada por homens religiosos como o bispo africano Santo Agostinho, que deu à
história um peso ligado ao sexo e ao pecado, ou por escritores como Milton, autor de O Paraíso Perdido, que fez do texto bíblico um pretexto para discutir
valores humanos. Ou ainda por artistas
como o pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), o mais popular entre os
renascentistas nórdicos, que revolucionou a arte europeia ao criar, em 1507, um
Adão inspirado no Apolo Belvedere e uma Eva cercada por quatro bichos que
representam a ideia medieval dos quatro temperamentos humanos.
Assim
como Dürer deixou o espírito científico de lado para definir esses
temperamentos por figuras de animais que cercam Eva no jardim do Éden (um gato
colérico, um coelho sanguíneo, um melancólico alce e um fleumático boi), Greenblatt argumenta que a literatura
parece ter melhores ferramentas para explorar a história bíblica que a ciência.
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"Adão e Eva" de Albrecht Dürer (1471-1528) |
As
fontes literárias analisadas por Greenblatt são inúmeras. “Para mim, essa história de Adão e Eva se parece com um conto de Kafka”,
diz ele, definindo a narrativa bíblica como paradoxal. Em seu livro, ele começa
com mitos sumérios que remetem à história do paraíso perdido, como o épico
Gilgamesh, que trata igualmente de iniciação sexual e da aceitação da
mortalidade, e termina com uma pesquisa sobre chimpanzés em Uganda.
“Mas, no lugar de mitos
mesopotâmicos, o que nós herdamos foi o Gênesis”, observa o crítico, que se
ocupa demoradamente no estudo de Agostinho sobre o primeiro livro da Bíblia.
Foi por meio dele, argumenta Greenblatt, que a história de Adão e Eva “deixou
de ser alegoria pura para se transformar em verdade literal”. Com Agostinho, conclui o autor, a queda do
casal se torna a fonte do pecado original, projetando a própria luta do
santo para manter a castidade e resgatar o estado de inocência do jardim do Éden.
Greenblatt
não despreza o viés psicanalítico ao falar também de John Milton. Após descrever a rebelião dos anjos liderados por
Lúcifer, que por isso perdeu o paraíso, Milton entra na vida dos pais da
humanidade e, segundo Greenblatt, projeta uma visão do Éden que nem passou pela
cabeça de Agostinho – o crítico vê no poema sinais de um erotismo incontrolado.
“Parece claro que Milton imaginava o
paraíso como um lugar em que Adão e Eva praticavam sexo desenfreadamente”.
O que era um casal idílico, que só teria descoberto o sexo depois da queda,
vira um casal de uma carnalidade extremamente real.
No
cerne da história bíblica, continua Greenblatt, está “a escolha de comer o fruto proibido”, uma rebelião contra um poder
que ele não hesita em chamar de “tirânico” – “que espécie de Deus proibiria suas criaturas de conhecer a diferença
entre o bem e o mal?”, pergunta o crítico no prólogo, transferindo a
responsabilidade da incômoda questão para os céticos que a Igreja perseguiu por
tal ousadia. O Iluminismo, conclui Greenblatt, amplificou as vozes dissonantes
desses céticos, entre os quais ele inclui Darwin
e o escritor norte-americano Mark Twain.
Em 1906, Twain, num sarcástico exercício de imaginação literária, publicou Os Diários de Eva, em que a primeira mulher
conta como foi criada, explorou o Éden com Adão e dele foi expulsa com o
companheiro. Na época do seu lançamento, o livro de Twain, que trazia 55
ilustrações do casal como veio ao mundo, foi considerado “pornográfico” por uma
biblioteca americana.
Greenblatt
cita ainda o livro de Saramago, Caim, como um dos seus preferidos sobre
o Gênesis. E não esquece Spinoza,
que, ao contrário de Agostinho, não
acreditava ser a natureza humana corrompida a ponto de impedir a reconquista do
paraíso. Eva foi frequentemente acusada de ludibriar o primeiro homem – em
um livro recentemente lançado, O Martelo
das Feiticeiras, dois frades dominicanos do século 15 acusam a mulher, e
não o diabo, de ter enganado o homem e provocado a ruína humana, lembra
Greenblatt. A história bíblica, enfim,
antecipou temas contemporâneos como transgressão, diferença sexual e
exílio. Há autores, entre eles uma freira do século 17, Arcangela Tarabotti, que condenou a difamação de Eva como um
exemplo de “tirania patriarcal”?
O
crítico americano não chega a tanto. Diz que Eva, antes de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, “não
entendia que estava sendo dominada por Adão, o que só veio a compreender depois
de transgredir”. Greenblatt foi observar a vida dos chimpanzés num parque
em Uganda e topou com inocentes vivendo no jardim do Éden. “Os chimpanzés têm
algo de Adão e Eva antes da Queda”, afirma. “Embora não saibam a diferença
entre o bem e o mal, em contrapartida são livres e sem culpa”, conclui.
Greenblatt
lança lá fora, no próximo dia 8, mais um livro sobre Shakespeare, sobre quem
escreveu o antológico Como Shakespeare se
Tornou Shakespeare. Em Tyrant, o
autor analisa os personagens mais doentios do bardo, de Coriolano a Ricardo
III, passando por Macbeth, para entender a obsessão tirânica pelo poder na
Inglaterra.
L
I V R O
Título:
Ascensão e Queda de Adão e Eva
Autor:
Stephen Greenblatt
Tradutor:
Donaldson M. Garschagen
Editora:
Companhia das Letras (São Paulo)
Páginas:
392
Preço
de capa: R$ 69,90
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