E o Brasil, agora?
“Sem Lula, esquerda não tem candidato”
Entrevista
com José Murilo de Carvalho
Graduado
em Sociologia e Política (Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG);
mestre
e doutor em Ciência Política (Stanford University – EUA);
pós-doutor
em História da América Latina (London University).
Wilson Tosta
Para o pesquisador José Murilo de
Carvalho, o PT terá que se aproximar
do centro se quiser ser competitivo
em 2018
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JOSÉ MURILO DE CARVALHO |
Mesmo com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenado e preso na
Operação Lava Jato e, a partir de 2019, com um novo presidente eleito, o Brasil seguirá dividido e longe da
normalidade, avalia o historiador José Murilo de Carvalho. Estudioso das
mudanças que marcaram a política nacional, o pesquisador diz, porém, que mesmo
na prisão Lula poderá ser um ator político importante. Já o PT não vai – “nem deve”, pondera – desaparecer, mas precisará se
refundar. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Há quem compare Lula ao caso de Juscelino [JK] na
ditadura. São situações análogas?
José
Murilo de Carvalho: Não muito. O ódio contra JK era devido à sua aproximação com o
varguismo, vinculado, segundo militares e líderes udenistas, ao comunismo,
embora tivesse sido acusado também de corrupção, coisa nunca provada. (JK) Foi
preso, humilhado, sujeito ao arbítrio dos inquéritos policiais-militares. A
natureza política da ação contra ele era inegável. Agora há também alegações de
viés político na condenação de Lula, mas sem a obviedade do caso de JK. E não
há IPMs (Inquéritos Policial Militar).
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JUSCELINO KUBITSCHEK DE OLIVEIRA (1902-1976) Mandato presidencial: 31 de janeiro de 1956 – 31 de janeiro de 1961 |
O que se abre agora, para a campanha de 2018, com a
prisão do ex-presidente?
José
Murilo: Se
Lula de fato não puder concorrer – tudo é possível neste país – e dada a
rejeição pelos grandes partidos, o maior
beneficiário será o candidato de extrema-direita, segundo colocado nas
pesquisas de intenção de voto. Um
panorama preocupante, pois lembra a
vitória de (Fernando) Collor (presidente de 1990 a 1992, quando foi
derrubado por impeachment). Sem Lula, a
esquerda não tem candidato viável. Se quiser competir para valer terá que fazer
alianças ao centro. No centro, também não há candidato convincente. Enfim,
mais instabilidade, menos concentração na tarefa de retomar o crescimento.
A prisão de Lula encerra uma era na política
brasileira?
José
Murilo: Prisão
de ex-presidente por crime comum é fato inédito em nossa história. Mas não sei se irá encerrar o ciclo iniciado em
1985. Será mais um tropeço, como o foram os dois processos de impeachment.
Mesmo preso, Lula poderá influenciar o processo
eleitoral?
José
Murilo: Sem
dúvida. (Eurico Gaspar) Dutra, depois
de depor (Getúlio) Vargas em 1945,
embora fosse um “poste” eleitoral, ganhou as eleições em função do anúncio do
endosso de Vargas: “Ele disse!”. O PT
não tem candidato viável sem Lula, mas o apoio dele a outro candidato pode
fazer diferença. Há uma diferença entre o PT de hoje e o PTB de Vargas. O
último sobreviveu e cresceu mesmo sem o carisma do chefe. O PT ainda depende
demais do carisma de Lula.
Com a prisão do ex-presidente, o petismo e o lulismo
tendem a desaparecer ou a se reduzir?
José
Murilo: O PT não vai, e não deve,
desaparecer.
Precisamos de um forte partido de esquerda para a saúde de nossa democracia.
Mas ele terá que por os pés no chão e
começar um processo de refundação, inclusive para reduzir a dependência de Lula.
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O ex-presidente Lula chega ao prédio da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba para cumprir mandado de prisão - 07/04/2018 (Ricardo Moraes/Reuters) |
As pressões sobre o Supremo tiveram peso na decisão dos
ministros de liberar a prisão de Lula?
José
Murilo: Sem
dúvida. Refiro-me, sobretudo, à
declaração do comandante do Exército feita na véspera. Nenhuma corte está
isenta de pressões externas, por mais que alguns juízes queiram acreditar
nisso.
Como analisar a manifestação do comandante do Exército?
José
Murilo: A declaração foi infeliz e
intempestiva.
A Constituição diz que as Forças Armadas se destinam à defesa da pátria e à
garantia dos poderes constitucionais. A intervenção no Rio para garantia da lei
e da ordem, ordenada pelo Executivo, foi perfeitamente constitucional. A declaração do comandante, sem que
houvesse ameaça aos poderes constitucionais, foi política e inadequada.
Isso não evoca o passado do regime militar?
José
Murilo: Nas
décadas de 1950 e de 1960, declarações de chefes militares, individuais ou
coletivas, eram frequentes e culminaram nas quedas de Vargas e de Goulart. Não creio que haja ameaça de intervenção
militar na fala do comandante, mas suas declarações revivem velhos
fantasmas.
Os militares podem voltar a ter peso na política?
José
Murilo: Um
dos pontos positivos das crises da República iniciada em 1985 foi a
neutralidade política mantida pelas Forças Armadas. Seria um enorme retrocesso
democrático se essa neutralidade fosse rompida. Resta saber se os comandos da Marinha e da Aeronáutica compartilham a
posição do comandante do Exército.
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Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) julgam habeas corpus preventivo do ex-presidente Lula - 22/03/2018 (Antonio Cruz/Agência Brasil) |
A crise política chegou ao Supremo Tribunal Federal
(STF)?
José
Murilo: Até
pouco tempo, o STF era o poder da República menos atingido pela descrença dos
cidadãos. Não é mais. Suas hesitações e
contradições, os conflitos e
bate-bocas entre ministros, a loquacidade
de seus membros fora dos autos, tudo isso tem contribuído para o desgaste da instituição. Muito ruim para a saúde da República.
Esse processo de politização tem volta?
José
Murilo: A
judicialização da política não é fenômeno apenas brasileiro. Mas aqui ela tem
adquirido dimensões preocupantes. Juízes
e promotores não são eleitos, não são representantes dos cidadãos. O vácuo de poder gerado pelo descrédito
dos outros poderes e dos partidos políticos é que tem incentivado o ativismo
judicial. Só a extinção do vácuo poderá
sanar o mal.
A eleição de 2018 pode levar o Brasil de volta à
normalidade?
José
Murilo: Com
ou sem Lula, as eleições não trarão de volta a normalidade. O próximo presidente, seja quem for, terá
que construir sua base parlamentar, fazer os velhos acordos de sempre e não
terá forças, ou vontade, de fazer as reformas de que o País necessita para
retomar o crescimento e para atacar o problema máximo do País que é a REDUÇÃO
DA DESIGUALDADE. [Por isso, urge, mais do nunca, uma
autêntica Reforma Política no Brasil. Sem ela, não há esperança de mudança
neste país!]
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