Papa lança novo documento
Luta contra injustiça é tão importante quanto
combate ao aborto, diz papa
Reinaldo José
Lopes
Em documento, Francisco afirma que:
«Não podemos considerar um ideal de
santidade que ignore
a injustiça deste mundo»
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PAPA FRANCISCO assina a Exortação Apostólica "Gaudete Exsultate" |
O papa Francisco disse nesta segunda-feira (9
de abril) que católicos não devem dar
«importância excessiva» a algumas regras da Igreja, enquanto ignoram outras,
pedindo que opositores do aborto
demonstrem a mesma paixão pela vida dos pobres e oprimidos.
O papa fez o pedido em sua terceira EXORTAÇÃO APOSTÓLICA, um
documento de 100 páginas chamado «Gaudete
et Exsultate», no qual escreve sobre como as pessoas podem ser religiosas
em um mundo moderno repleto de distrações seculares e materialismo.
No documento, o papa disse que católicos não devem relativizar diferentes
aspectos dos ensinamentos sociais da Igreja, dando prioridade ou atenção
total a uma única questão ética ou moral, enquanto menosprezam problemas
sociais como a imigração.
«Nossa defesa do inocente não nascido, por
exemplo, precisa ser clara, firme e passional, porque em risco está a dignidade
de uma vida humana, que é sempre sagrada e exige amor para cada pessoa,
independentemente de seu estágio de desenvolvimento», escreveu.
«Igualmente sagrada, entretanto, são as
vidas dos pobres, aqueles já nascidos, dos necessitados, dos abandonados e
dos desfavorecidos, dos enfermos vulneráveis e dos idosos expostos à eutanásia
encoberta, das vítimas de tráfico humano, de novas formas de escravidão e de
qualquer forma de rejeição.»
«Não
podemos considerar um ideal de santidade
que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam
alegremente e reduzem sua vida às novidades de consumo, ao mesmo tempo que
outros apenas observam de fora, enquanto sua vida passa e se acaba
miseravelmente», afirmou ele no documento.
No texto, o papa também fez uma defesa dos
imigrantes e refugiados. «Se escuta com frequência que, ante o relativismo e
dos limites do mundo atual, a situação
dos migrantes seria um assunto menor. Alguns
católicos afirmam que é um tema secundário ao lado dos temas “sérios” da
bioética», disse ele, em uma resposta às críticas que recebe de que seu
pontificado dá mais valor aos assuntos sociais que às questões éticas e morais.
«Que um político preocupado com seus êxitos
diga algo assim é possível compreender; mas não um cristão, a quem só cabe a
atitude de colocar-se no lugar deste
irmão que arrisca sua vida para dar um futuro a seus filhos», afirmou o
papa.
Leia, baixe e imprima este novo e importante
documento de Papa Francisco, clicando aqui
A Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate
do Papa Francisco
Os desafios de ser santo no mundo
atual
Em sua Exortação
Apostólica «Gaudete et Exsultate», o Papa dá indicações sobre como viver a
santidade – um chamado que é para todos
– em um mundo que apresenta tantos desafios à fé. Mas Francisco começa o
documento, falando sobre o espírito de alegria.
Nós nos
tornamos santos vivendo as bem-aventuranças, o caminho principal porque «contra a
corrente» em relação à direção do mundo. O
chamado à santidade é para todos, porque a Igreja sempre ensinou que é um
chamado universal e possível a qualquer um, como demonstrado pelos muitos
santos «da porta ao lado».
A vida de
santidade está assim intimamente ligada à vida de misericórdia, «a chave para o céu».
Portanto,
santo é aquele que sabe comover-se e
mover-se para ajudar
os miseráveis e curar as misérias.
Quem esquiva-se das «elucubrações» de velhas
heresias sempre atuais e quem, entre outras coisas, em um mundo «acelerado» e
agressivo «é capaz de viver com alegria e senso de humor».
Não é um «tratado», mas um convite
É precisamente o espírito de alegria que o Papa Francisco escolhe colocar na
abertura de sua última Exortação Apostólica.
O título «Gaudete et Exsultate», «Alegrai-vos e exultai», repete as palavras que Jesus dirige «aos
que são perseguidos ou humilhados por causa dele».
Nos cinco capítulos e 44 páginas do
documento, o Papa segue a linha de seu magistério mais profundo, a Igreja próxima à «carne de Cristo sofredor».
Os 177 parágrafos não são – adverte – «um
tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções», mas uma maneira
de «fazer ressoar mais uma vez o chamado
à santidade», indicando «os seus riscos, desafios e oportunidades» (n. 2).
A classe média da santidade
Antes de mostrar o que fazer para se tornar
santos, o Papa Francisco se detém no primeiro capítulo sobre o «chamado à
santidade» e reafirma: há um caminho de
perfeição para cada um e não faz sentido desencorajar-se contemplando «modelos
de santidade que lhe parecem inatingíveis» ou procurando «imitar algo que não foi pensado para ele»
(n. 11).
«Os santos, que já chegaram à presença de
Deus» nos «protegem, amparam e acompanham» (n. 4), afirma o Papa. Mas,
acrescenta, a santidade a que Deus nos
chama, irá crescendo com «pequenos gestos» (n. 16) cotidianos, tantas vezes
testemunhados por «aqueles que vivem próximos de nós», a «classe média de
santidade» (n. 7).
Razão como um Deus
No segundo
capítulo, o Papa estigmatiza aqueles que define como «dois inimigos sutis da santidade», já várias vezes objeto de sua reflexão,
entre outros, nas missas na capela Santa Marta, na Evangelii gaudium, bem como no recente documento da Doutrina da Fé,
Placuit Deo.
Trata-se de «gnosticismo» e «pelagianismo»,
duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas continuam
a ser de alarmante atualidade (n. 35).
O gnosticismo
– observa – é uma autocelebração de «uma
mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros,
engessada numa enciclopédia de abstrações».
Para o Papa, trata-se de uma «vaidosa superficialidade», que
pretende «reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura
dominar tudo». E ao desencarnar o mistério, preferem – como disse em uma missa na Santa Marta – «um Deus sem Cristo, um Cristo sem Igreja,
uma Igreja sem povo» (nn. 37-39).
Adoradores da vontade
O neo-pelagianismo
é, segundo Francisco, outro erro gerado pelo gnosticismo. A ser objeto de adoração aqui não é mais a mente humana, mas o «esforço
pessoal», uma vontade sem humildade que «sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas» ou por ser fiel «a um certo estilo católico»
(n. 49).
«A obsessão pela lei»,
«o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas», ou «a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da
Igreja» são para o Papa, entre outros, alguns traços típicos de cristãos que «não se deixam guiar pelo
Espírito no caminho do amor» (n. 57).
Francisco, por outro lado, lembra que é
sempre o dom da graça que ultrapassa «as capacidades da inteligência
e as forças da vontade humana» (n. 54). Às vezes, constata, «complicamos o Evangelho e tornamo-nos
escravos de um esquema» (n. 59).
Oito caminhos de santidade
Além de todas as «teorias sobre o que é
santidade», existem as Bem-aventuranças.
Francisco coloca-as no centro do terceiro capítulo, afirmando que com este discurso Jesus «explicou, com toda
a simplicidade, o que é ser santo» (n. 63).
O Papa as
repassa uma a uma. Da pobreza de coração – que também significa austeridade da vida (n.
70) – ao reagir «com humilde mansidão» em um mundo onde se combate em todos os
lugares (n. 74).
Da «coragem» de deixar-se «transpassar» pela
dor dos outros e ter «compaixão» por eles – enquanto «o mundano ignora, olha
para o lado» (nn. 75-76) – à sede de justiça.
«A realidade mostra-nos como é fácil entrar
nas súcias da corrupção, fazer parte
desta política diária do “dou para que
me deem”, onde tudo é negócio. E
quantos sofrem por causa das injustiças, quantos ficam assistindo, impotentes,
como outros se revezam para repartir o bolo da vida» (nn. 78-79).
Do «olhar e agir com misericórdia», o que
significa ajudar os outros «e até mesmo perdoar» (nn. 81-82), «manter o coração limpo de tudo o que
mancha o amor» por Deus e ao próximo, isto é santidade (n. 86).
E finalmente, do «semear a paz» e «amizade
social» com «serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza» – conscientes
da dificuldade de lançar pontes entre pessoas diferentes (nn. 88-89) – ao
aceitar também as perseguições, porque hoje
a coerência às Bem-aventuranças «pode ser mal vista, suspeita, ridicularizada» e,
no entanto, «não se pode esperar, para
viver o Evangelho, que tudo à nossa volta seja favorável» (n. 91).
A grande regra do comportamento
Uma dessas bem-aventuranças, «Bem-aventurados os misericordiosos»,
contém para Francisco «a grande regra de comportamento» dos cristãos, aquela
descrita por Mateus no capítulo 25
do «Juízo Final».
Esta página, reitera, demonstra que «ser santo não significa revirar os olhos num
suposto êxtase» (n. 96), mas viver
Deus por meio do amor aos últimos.
Infelizmente, observa o Papa, existem ideologias que «mutilam o
Evangelho». Por um lado, cristãos
sem um relacionamento com Deus, que transformam o cristianismo «numa
espécie de ONG, privando-o daquela espiritualidade irradiante» vivida por São
Francisco de Assis, São Vicente de Paulo, Santa Teresa de Calcutá (nº 100).
Por outro, aqueles que «suspeitam do compromisso social dos outros»,
considerando-o como se fosse algo de superficial, mundano, secularizado,
imanentista, «comunista ou populista», ou «o relativizam» em nome de uma
determinada ética.
Aqui o Papa reafirma que “a defesa do
inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque
neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada” (n. 101).
Mesmo a acolhida
dos migrantes – que alguns católicos, observa, gostariam que fosse menos
importante do que a bioética – é um
dever de todo cristão, porque em
todo estrangeiro existe Cristo, e «não se trata da invenção de um Papa, nem
de um delírio passageiro» (n. 103).
«Gastar-se» nas obras de misericórdia
Assim, observou que «gozar a vida» como nos
convida a fazer o «consumismo hedonista», é o oposto do desejar dar glórias a
Deus, que pede para nos «gastarmos» nas
obras de misericórdia (nn. 107-108).
No quarto capítulo, Francisco repassa as características «indispensáveis» para
entender o estilo de vida da santidade:
* «perseverança, paciência e
mansidão»,
* «alegria e senso de humor»,
* «audácia e fervor».
O caminho da santidade vivido como caminho
«em comunidade» e «em constante oração», que chega à «contemplação», não entendida como «evasão que nega o mundo que nos
rodeia» (nn. 110-152).
Luta vigilante e inteligente
E porque, prossegue, a vida cristã é uma luta «constante» contra a «mentalidade mundana» que
«nos engana, atordoa e torna medíocres» (n. 159).
O Papa conclui no quinto capítulo convidando
ao «combate» contra o «Maligno» que, escreve ele, não é «um mito», mas «um ser
pessoal que nos atormenta» (n. 160-161).
«Quem não quiser reconhecê-lo, ver-se-á
exposto ao fracasso ou à mediocridade». As suas maquinações, indica, devem ser
contrastadas com a «vigilância»,
usando as «armas poderosas» da oração, a adoração eucarística, os Sacramentos e
com uma vida permeada pela caridade (n. 162).
Importante, continua Francisco, é também o «discernimento», particularmente
em uma época «que oferece enormes possibilidades de ação e distração» – das
viagens, ao tempo livre, ao uso descontrolado da tecnologia – «que não deixam espaços vazios onde ressoa
a voz de Deus». Francisco pede cuidados especiais para os jovens, muitas
vezes «expostos a um constante zapping»,
em mundos virtuais distantes da
realidade (n. 167).
"Não se faz discernimento para descobrir
o que mais podemos derivar dessa vida, mas para reconhecer como podemos cumprir
melhor a missão que nos foi confiada no Batismo." (174)
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