A Igreja de Papa Francisco
Pequenos passos rumo a uma Igreja mais
representativa e próxima ao povo
Massimo Faggioli
La
Croix International
03-04-2018
O discurso de Francisco sobre a
sinodalidade e a maneira como ele está
transformando o trabalho das
assembleias sinodais são importantes
para entender o significado de seu
pontificado
A Igreja Católica e as democracias
constitucionais mundiais estão enfrentando hoje o mesmo desafio crítico – de que modo, como instituições, elas podem
representar de modo credível o seu povo. Vimos isso na Igreja há alguns
dias, depois que cerca de 300 jovens que
se reuniram em Roma para oferecer seus pontos de vista sobre a próxima sessão
do Sínodo dos Bispos emitiram seu documento final.
Seu texto foi apenas a ocasião mais recente
para que os críticos habituais do Papa Francisco, especialmente nos Estados
Unidos, mais uma vez atacassem o papa. Os
críticos acusaram os adolescentes e os jovens adultos que elaboraram e
aprovaram o documento final de simplesmente “papaguearem” o papa e de serem
manipulados por ele. Os jovens autores desse documento negaram oficialmente
as acusações.
Curiosamente,
ao negar as acusações, os jovens também apontaram para a lacuna entre o
saudável ethos eclesial modelado pelo
seu encontro em Roma e a polarização que se tornou tão evidente entre os
católicos nos Estados Unidos. Muitos jovens em todo o mundo perguntaram a Katie Prejean, uma das participantes
dos Estados Unidos, se “os estadunidenses
estão realmente entalados na garganta uns dos outros o tempo todo” e se
eles se odeiam tanto quanto parece do lado de fora.
Essa crítica a Francisco é uma nova forma
daquilo que o papa de 81 anos chamou de “hermenêutica
conspirativa” (no original em italiano, “ermeneutica conspirativa”). Francisco usou a frase durante a
assembleia do Sínodo dos Bispos de 2015 para denunciar aqueles que afirmam que certos desenvolvimentos atualmente em
curso na Igreja são o produto de um esquema ou de um complô.
Incoerência dos neotradicionalistas
É irônico que os críticos neotradicionalistas
do papa estejam agora exigindo que o Sínodo dos Bispos seja mais representativo
de todos os vários membros e grupos da Igreja. Essas mesmas pessoas não tiveram tal preocupação durante os
pontificados de João Paulo II e Bento XVI, que estavam muito menos dispostos a
dar esse papel ao Sínodo.
Mas tais críticas contra os preparativos para
a assembleia de outubro próximo sobre a juventude são muito mais insidiosas do
que as críticas contra o papa. Elas vão ainda mais longe ao questionar a credibilidade do papel
representativo do Papa Francisco na Igreja.
À primeira vista, essas queixas contra os
métodos do papa para desenvolver a sinodalidade parecem apenas outro modo de
tentar politizar seu pontificado. Certos
críticos estadunidenses, em particular, atacam Francisco porque sua visão da
Igreja não corresponde à narrativa política deles sobre o catolicismo
institucional. Eles têm insistido nisso desde a eleição dele há cinco anos.
Mas há algo mais profundo acontecendo agora.
Ao fortalecer a sinodalidade com a Igreja, Francisco
também está oferecendo ao mundo de hoje um modelo de representação efetiva aos
nossos órgãos sociais e políticos.
“Uma
Igreja sinodal é como um estandarte levantado entre as nações (cf. Is 11,12) em
um mundo que – embora invocando participação, solidariedade e transparência na
administração da coisa pública – frequentemente entrega o destino de populações
inteiras nas mãos ávidas de pequenos grupos de poder”,
disse o papa em seu discurso de 2015 para
marcar o 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos.
O discurso de Francisco sobre a sinodalidade
e a maneira como ele está transformando o trabalho das assembleias sinodais são
importantes para entender o significado de seu pontificado. Existem muitos paralelos entre a crise de
representação nos nossos sistemas democráticos e a crise de representação na
Igreja. Em ambos os casos, é uma crise de:
* encarnação (o que
incorporamos como povo),
* de imaginação (como expressamos
aquilo que somos) e
* de representação
vicária (quem e o que nos faz sentir
representados).
No que concerne à Igreja, Francisco está tentando tornar o Sínodo
mais representativo. Paulo VI instituiu o Sínodo dos Bispos em 1965 durante
a sessão final do Concílio Vaticano II. Ele esperava que ele fosse
representativo da Igreja em um sentido muito limitado, isto é, através dos
bispos. Era um híbrido entre uma Igreja antirrepresentativa e monárquica
(pré-Vaticano II) e uma Igreja que estava crescendo na crença de que algum tipo
de representação deveria fazer parte do processo eclesial (Vaticano II).
Durante o século XX e especialmente entre a
Segunda Guerra Mundial e o Vaticano II, a Igreja Católica aceitou as ideias de
democracia política, representativa e constitucional – pelo menos ao nível da
história da tradição católica. No nível
eclesiológico, ela ainda está tentando discernir quanto da representação
moderna pode fazer parte da Igreja institucional.
Francisco não
tem medo de deixar que as pessoas sejam participantes ativas no processo
eclesial. É
verdade que seu pontificado deu apenas pequenos passos, mas ele o fez em uma
direção diferente da de seus antecessores.
No entanto, há um novo problema hoje. As
democracias estão vivendo uma crise relacionada à ideia de representação e ao
ideal do secular. E isso está tendo um impacto sobre a Igreja. A Igreja
Católica está alcançando somente agora a revolução democrática dos séculos XIX
e XX, enquanto a democracia
representativa está sendo desafiada pelo mundo virtual das mídias sociais e das
redes sociais.
O risco da manipulação virtual pela internet
O que é verdade para o nosso processo
político – o perigo de manipulação do consenso através de perfis automatizados
que podem manter ocultos os rostos reais – também levanta um problema para a
sinodalidade na Igreja hoje. Embora seja difícil imaginar, em um futuro
próximo, um WikiSínodo ou o Concílio Ecumênico da Internet, não há dúvida de que a virtualização da
experiência eclesial nas mídias sociais pode ser usada para influenciar o
processo e os resultados da tomada de decisões na Igreja.
Vimos isso quando os participantes da reunião
pré-sinodal dos jovens em Roma apontaram para a lacuna entre suas discussões em pessoa e a agenda impulsionada por
alguns grupos nas redes sociais.
“Um consistente bloco de mais ou menos 30
indivíduos inundou as seis páginas privadas do pré-sínodo no Facebook com elogios à missa tradicional em latim,
empurrando-a por um tempo para o topo dos trending
topics nos contadores de mídias sociais”, disse um dos participantes em
Roma.
Ainda estamos
tentando entender como fazer um bom uso das mídias sociais na Igreja. Mas isso é perigoso quando
os proponentes de um catolicismo supostamente mais tradicional e ortodoxo, que
pensam que estão sendo marginalizados pelo Sínodo do Papa Francisco, usam as
mídias sociais para se oporem aos resultados oficiais da experiência sinodal
composta por pessoas reais. Suas táticas
revelam um “senso da Igreja” muito fraco, uma compreensão quase-leninista da
filiação à Igreja.
A
credibilidade da Igreja se baseia em sua fidelidade ao Evangelho. Mas o que é típico da
Igreja – em comparação com cultos e seitas – é o reconhecimento tácito de que as instituições e os órgãos eclesiais
ainda são, embora inadequadamente, representativos da Igreja Católica, apesar
de todos os seus limites e falhas, mais do que pequenos grupos com sua
agenda própria. Essa é uma das
principais diferenças entre a Igreja e outros grupos religiosos, como por
exemplo, o Islã, que não tem nenhuma representação visivelmente unificada em um
determinado país no Ocidente.
![]() |
Ao centro, em veste vermelha, Cardeal Raymond Burke (Estados Unidos), contrário ao modo de Papa Francisco conduzir a Igreja Católica |
Tática do catolicismo neotradicionalista
Parte das táticas de insurgência do
catolicismo neotradicionalista – muito diferente daquilo que poderíamos chamar
de catolicismo conservador clássico – é o
Esforço
constante de minar a função representativa do pontificado de
Francisco
e das decisões tomadas pelos órgãos e eventos eclesiais
convocados
por esse pontificado.
A catolicidade
da Igreja – seus ensinamentos e ações – não é apenas medida em termos da ortodoxia de seu conteúdo, mas também
em termos de como esses ensinamentos e ações são decididos e praticados. A
representação na Igreja não é o mesmo que a democratização da Igreja. Mas uma cultura da participação enfraquecida
significa também uma capacidade mais fraca da Igreja de representar, isto
é, de tornar possível a presença efetiva da Trindade através de Cristo e do
Espírito.
Solapar, em nome de uma ideia idiossincrática
de ensino ortodoxo, a legitimidade das instituições que cooperam na
representação de Cristo na Igreja significa trabalhar na direção de um sistema autoritário-corporativo ou, do
outro lado do espectro, de um sistema
populista-demagógico.
A
Igreja Católica representada na assembleia
preparatória ao Sínodo sobre a juventude é mais representativa da Igreja –
com todos os seus limites – do que as opiniões expressadas em um tuíte ou em
uma coluna de opinião.
Traduzido do
francês por Moisés Sbardelotto.
Acesse a versão original, clicando aqui.
Comentários
Postar um comentário