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Um fascismo renovado percorre a Europa
Eduardo Febbro
Página/12
05-06-2018
Itália, Eslovênia, República Checa,
a Grã-Bretanha do Brexit, Holanda, Áustria, Polônia e França são os principais
países europeus onde foi se forjando o cinturão sombrio da extrema-direita
racista e autoritária
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JANEZ JANSA Líder do Partido Democrata Esloveno (SDS) |
O
ex-primeiro-ministro esloveno Janez
está a um passo de se somar como uma peça a mais da fortaleza populista e
xenófoba que, com um êxito imparável, foi se construindo na Europa desde que,
em meados dos anos 80 do século XX, a extrema-direita
do Frente Nacional francês começou a acumular êxitos eleitorais. Naqueles
anos, seus militantes se reuniam com a cabeça raspada, exibiam sem rodeios as
suásticas e entoavam hinos públicos em homenagem ao nazismo. Os de agora andam com gravata,
desfizeram as cenografias provocativas e
centraram sua ascensão ao poder em torno da rejeição à Europa e de um racismo
fervoroso.
Itália,
Eslovênia, República Checa, a Grã-Bretanha do Brexit, Holanda, Áustria, Polônia
e França são os principais países do Velho Continente onde foi se forjando o
cinturão sombrio dos fascismos renovados. A
fase atual se iniciou em 2005, quando França e Holanda rejeitaram mediante um
referendo o tratado sobre a Constituição Europeia. Desde então, alentado:
* pelas crises financeiras,
* o desemprego,
* a diluição do ideal europeu,
* o surgimento do islamismo
radical que o Ocidente facilitou e
* as reiteradas crises
migratórias, o cinturão dos populismos cinzentos não fez mais que se estender.
Janez Jansa, o líder do Partido
Democrata Esloveno (SDS), impôs-se no
domingo passado nas eleições legislativas eslovenas com 25,03% dos votos.
Embora não possa governar sem o apoio de outras formações políticas, a estreita
vitória de Jansa se forjou com uma mescla
das narrativas do presidente norte-americano Donald Trump e slogans anti-Europa
e anti-imigração inspirados no modelo da ultradireita francesa e,
sobretudo, com o principal ingrediente da retórica de seu mestre, o
ultranacionalista primeiro-ministro húngaro Víktor Orban, o propulsor do
“iliberalismo”.
Esta
doutrina mencionada nos anos 1990 pelo ensaísta norte-americano Fareed Zakarya em um artigo publicado
na revista Foreign Affairs é uma espécie de versão decorosa do chamado
autoritarismo pós-democrático que:
* suprime direitos
democráticos,
* coloca a justiça a serviço
do poder político,
* retira as liberdades
individuais,
* amordaça a imprensa e
* articula sua ascensão ao
poder a partir de um racismo de Estado.
Nem democracia autêntica,
nem ditadura real, mistura de ultranacionalismo com estrangulamento dos
direitos democráticos, “nas fronteiras da Europa como
no seio da Europa se desenha a tentação das democracias iliberais”, disse,
alguns meses atrás, o presidente francês Emmanuel Macron. A realidade foi mais
veloz do que muitos analistas esperavam e chegou até se incrustar no coração da
União Europeia com o exemplo da Itália
e o pacto de governo entre o Movimento 5
Estrelas e os racistas da Liga Norte
(11 milhões de pessoas votaram no primeiro (32%) e sei milhões (18%) no
segundo).
Em
sua primeira intervenção pública na Sicília, o novo ministro do Interior
italiano e líder da Liga, Matteo Salvini,
convidou os imigrantes a se preparar “para fazer suas malas”. Nada muito
diferente do que ocorreu na Grã-Bretanha, com o Brexit, na Polônia, com o
dirigente Jaroslaw Kaczynski, na
Hungria, Áustria, Holanda e França. Os
ascendentes líderes destes países constituem a linha fronteiriça que pretende
defender a Europa do que todos chamam “a invasão”. [Ocultando as verdadeiras invasões que países da Europa já realizaram em
territórios africanos e de outros continentes]
Usando
bandeiras da esquerda para conquistar mentes
Paradoxalmente,
esse grupo adotou alguns perfis
retóricos que antes pertenciam exclusivamente à esquerda. O principal
consiste em se apresentar como um
“cinturão antissistema”. O exemplo mais importante e mais temido pelos
sócios europeus, em razão de sua poderosa carga eurocética, é o da Itália. A aliança entre o Movimento 5 Estrelas e a
Liga Norte é a primeira coalizão ultradireitista “antissistema” que chega ao
poder em um dos países fundadores da União Europeia. Os dois partidos se
caracterizam por seus pactos com outras forças similares no cenário político da
Europa.
Os
14 eurodeputados do Movimento 5 Estrelas
no Parlamento Europeu se associaram com a formação de ultradireita Europa da Liberdade e da Democracia Direta, cujo líder não
poderia deixar de ser o britânico Nigel
Farage, o patrono do Brexit na
Grã-Bretanha. E no que concerne à Liga Norte, os 5 eurodeputados deste
partido formaram uma aliança com o Frente
Nacional de Marine Le Pen. O
populismo de ultradireita que renasceu na França foi se propagando para o
restante da Europa, principalmente para a Europa do Leste, onde começou a
prosperar após a queda do Muro de Berlim (1989). Depois, avançou pela Europa do
Norte até conquistar o coração da Europa do Sul.
Um
trabalho realizado pelo Centro de Pesquisas
Internacionais da Universidade de Ciências Políticas de Paris identificou muitos pontos comuns nesse iliberalismo
xenófobo:
* povo virtuoso contra elites corrompidas e globalizadas;
* sociedade aberta contra sociedade fechada.
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VÍKTOR ORBAN Primeiro-Ministro da Hungria |
Em
2017, o húngaro Víktor Orban dizia: “uma
nova era está batendo à porta. Uma nova era do pensamento político. As pessoas
querem sociedades democráticas e não sociedades abertas”. Querem:
* dirigentes com perfil forte;
* com uma inclinação
pronunciada pela democracia direta,
mediante a celebração de todos os tipos de referendos;
* um poder sólido dentro de um Estado soberano, ou seja, independente da União Europeia; e
* a defesa da identidade cultural diante da “invasão tóxica” dos estrangeiros.
Paradoxalmente,
tanto no seio do Movimento 5 Estrelas,
como na Liga Norte, as linhas
narrativas excludentes de alguns meses atrás foram limadas: já não se fala como antes de um Italexit,
nem do abandono do Euro, menos ainda de sair da Aliança Atlântica, a OTAN.
Isso não impede que o que hoje se denomina “a internacional populista” seja uma
realidade cada vez mais tangível. O próprio uso do termo “populismo” difere, por outro lado, do que os narradores
midiáticos da casta fazem na América Latina. Na América Latina, as direitas liberais chamam de populistas tudo o
que vai da socialdemocracia à esquerda. Na Europa
não: esse termo está globalmente identificado com as extremas direitas.
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ALAIN DUHAMEL Cientista Político francês |
O
cientista político francês Alain Duhamel
escreveu na página do jornal Libération
que a “Europa enfrenta a crise mais grave
de sua história. A Europa se tornou o campo cerrado de uma batalha entre
reformistas e populistas, entre partidários e adversários da União”. Os
países do Leste da Europa se libertaram do comunismo para depois cair nos
braços de seu inimigo histórico, os do Norte da Europa se deixaram seduzir
pelas mesmas sereias e os do Sul negam, agora, toda a história que os
constituiu como pilares da construção europeia. Xenofobia e autoritarismo, os demagogos são as estrelas triunfantes no
“berço da cultura”.
Como
destaca o próprio Alain Duhamel, no Libération, a história deu uma guinada extraordinária: “dos anos 1960 a 2000,
os europeus reformistas ganharam o primeiro tempo. Dos anos 2000 até agora, os
populistas eurofóbicos acumulam as vitórias”. O afundamento da esquerda
primeiro, da socialdemocracia depois, e os rumos dos partidos de direita
reconfiguraram a Europa. A avalanche não terminou. O cinturão do populismo racista e autoritário seguirá asfixiando as
democracias liberais.
Traduzido do espanhol pelo CEPAT. Acesse a versão original do
artigo, clicando aqui.
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