Como mudar o Brasil
Ensaios propõem soluções concretas para problemas do
Brasil
Vítor Marques
Livro reúne textos de 12
especialistas em áreas como saúde,
educação, moradia e economia
educação, moradia e economia
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Historiador é o organizador deste livro |
Em
meio à polarização e à cisão do debate político nacional, Brasil: O Futuro que Queremos
é um livro raro para o que ele se propõe às vésperas de uma eleição
presidencial: discutir o País e dialogar
com o outro, considerando o adversário uma voz dissonante e não um inimigo.
A obra reúne textos de 12 especialistas em áreas distintas, mas que se conectam
entre si, outro mérito do livro. É clara
a ligação entre os temas:
* educação e ciência e tecnologia;
* cidades e moradia;
* economia, finanças e relações internacionais;
* esporte, saúde e segurança pública;
* agricultura e meio ambiente.
Como
escreveu na introdução do livro o historiador e coordenador do projeto, Jaime
Pinsky, os textos trazem “propostas
concretas, sem milagres”.
Os capítulos, curtos e didáticos, seguem
um padrão e se afastam do estilo
acadêmico. O autor apresenta:
a) o
problema nacional que afeta sua área de pesquisa,
b)
descreve como o País chegou ao ponto crítico, segundo sua visão,
c)
e apresenta soluções e propostas.
De
acordo com Pinsky, a ideia foi escolher
autores de diferentes campos ideológicos. Alguns deles já ocuparam cargos
públicos, como ministérios, outros, não. “Nenhum
dos participantes deste livro foi escolhido por sua filiação política, senão
por sua competência”, escreveu Pinsky.
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PAULO SALDIVA Médico patologista e Professor da Faculdade de Medicina da USP |
Na
Saúde, o médico patologista e professor da Faculdade de Medicina da USP Paulo Saldiva propõe uso de big
data e tecnologia como forma de reduzir custos na área e sugere algo que se
encaixa em uma época em que o conhecimento está integrado: profissionais da
medicina devem debater problemas de outras áreas relacionadas à saúde. “É
interessante que raramente a Saúde é chamada para discutir temas como
desarmamento, as leis do trânsito, os limites da velocidade. No entanto, não é possível ignorar a
questão da violência no planejamento e custeio da saúde.”
Ao
defender que o Brasil não pode abdicar
do Sistema Único de Saúde (SUS), Saldiva compara o investimento do País na
área com o de outras nações. “O gasto público per capita (na saúde) no Brasil
foi entre 4 a 7 vezes menor que países europeus com sistema universal.” Os
dados a que ele se refere são de 2013, anteriores, portanto, à crise econômica,
ao atual ajuste fiscal e à PEC do teto, que impõe limite de gastos públicos,
inclusive na Saúde. “A não adequação do
financiamento público para o SUS, mesmo em tempos de ajuste fiscal, infligirá
aos brasileiros um ônus intolerável”, diz.
Como
reparar décadas de políticas equivocadas no sistema educacional e preparar
a futura geração de adultos para o trabalho em meio à quarta Revolução
Industrial é um dos temas centrais do texto da ex-ministra Claudia Costin,
especialista em educação. “Isso envolve
uma profunda transformação na escola como conhecemos”, afirma. Ao propor o
que ela chama de “plano de ação”, sugerindo a criação de um Sistema Nacional de Educação Básica,
Claudia sustenta que o País precisa de
uma escola que “ensine a pensar e (...) desperte dois componentes
essenciais para uma aprendizagem consistente: a curiosidade e a imaginação.”
Dois
textos discutem fundamentos da economia
brasileira, que patina para sair da recessão – o governo já reviu para
baixo o crescimento do PIB em 2018 (de 2,97% para 2,5%) e o dólar ronda a casa
dos R$ 3,80. O economista e ex-diretor do Banco Central (BC) Luís Eduardo Assis,
CEO da Fator Seguradora, oferece como soluções
rever o tamanho do Estado, por meio da desestatização de empresas públicas, e
garantir a independência do BC. Ao escrever sofre a crise fiscal, defende a Reforma da Previdência. Assis
antevê que temas como esses passarão ao largo do debate em ano eleitoral.
“Ajuste fiscal não rende votos”, diz.
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ANTÔNIO CORREA DE LACERDA Economista e Professor da PUC-SP |
Já
o também economista e professor da PUC Antônio Correa de Lacerda
diz que a questão fiscal só se resolverá a partir do momento em que a economia voltar a crescer de modo
sustentado. “As tentativas de ajuste não têm atingido o esperado”. Lacerda
coloca em dúvida a tese dos que defendem a independência completa dos bancos
centrais, “uma visão desconectada da realidade internacional” para ele. “Os bancos centrais vêm atuando de forma
coordenada com governos nacionais.” No entanto, Lacerda e Assis convergem em
um ponto: é preciso reduzir ou eliminar
o grau de indexação da economia, uma herança da hiperinflação dos anos 1980
e 90.
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NABIL BONDUKI Arquiteto, Urbanista e Professor da USP |
O
livro também debate outro problema não resolvido do País e explicitado no
desabamento do prédio Wilson Paes de Almeida no centro de São Paulo: a falta de moradia. Especialista em
urbanismo e professor da USP, Nabil Bonduki lamenta
que o Plano Nacional de Habitação
(PlanHab), do qual foi coordenador entre 2007 e 2008, ficou em segundo plano,
“atropelado por decisões políticas”. Bonduki cita, por exemplo, o momento em
que o Partido Progressista (PP)
assume o Ministério das Cidades, em 2005, após o escândalo do mensalão. “O Ministério perdeu a capacidade de
articular as políticas setoriais”, diz, antes de apontar um olhar crítico
do programa Minha Casa Minha Vida, “estruturado como instrumento para gerar
empregos (...), mas incapaz de dar uma resposta adequada à questão
habitacional.”
São
várias as soluções apontadas por Bonduki para resolver o déficit habitacional
do País: desde a articulação entre União, Estados e municípios e a importância
de um plano diretor das cidades. A questão urbana também é tratada no texto do
arquiteto e ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner, para quem “o que temos feitos com
nossas cidades é quebrar o casco da tartaruga e espalhá-lo em várias partes –
morar aqui, trabalhar lá, recrear acolá –, do que deriva uma estrutura urbana desconexa.”
Ao
englobar 12 áreas vitais para o País, o
livro funciona como uma espécie de miniplano de governo para um futuro presidente.
Boa parte dos temas debatidos no livro estará presente nos discursos dos
candidatos ao Planalto. Como os textos da obra mostram, não há uma “bala de
prata” capaz de solucionar problemas sociais e econômicos brasileiros.
L I V R O
Título: Brasil: o futuro que queremos
Autor: Jaime
Pinsky (Organizador)
Editora: Contexto (São Paulo – SP)
Páginas: 256
Preço de capa: R$ 49,90
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