Família & Comunidade: são as nossas bases
QUAL É SEU UNIFORME?
Alfredo J.
Gonçalves*
Padre Scalabriniano
Com o advento da chamada pós-modernidade,
numerosas referências
com seus laços sólidos e
orientadores “se desmancham no ar”
ou “se liquidificam”
Em
nome da razão e de uma pretensa liberdade sem regras nem freios, “a modernidade empregou uma grande parte de
seu tempo e muita energia a combater a comunidade”, afirma Bauman (Cfr.
Zygmunt Bauman, La vie en
miettes-experiénce postmoderne et moralité, Librairie Arthème
Fayard/Pluriel, Paris, 2014, pág. 372). Da mesma forma que outras formas
pré-modernas de relações humanas, a
comunidade entrava na lista dos resíduos tradicionais a serem extirpados.
Além de ser vista como lugar de pressão e não raro de escravidão, impedia o
intercâmbio sem fronteiras do liberalismo político e econômico. O mesmo pode-se
afirmar com respeito a determinadas formas de relacionamentos familiar e de
parentesco. Entretanto, com o advento da
chamada pós-modernidade (ou modernidade tardia), numerosas referências com seus
laços sólidos e orientadores “se desmancham no ar” ou “se liquidificam”,
para usar respectivamente a frase do Manifesto Comunista ou a metáfora do
próprio Bauman. O autor constata:
«Nós
provamos com frequência uma irresistível “necessidade de pertença” – uma
necessidade de identificar-se não somente como seres humanos individuais, mas
também como membros de uma identidade maior. Essa identificação por adesão deve
fornecer, espera-se, o fundamento sólido sobre a qual construir uma identidade
menor e mais frágil. Na medida em que estão em ruínas certas identidades
antigas e sólidas, as quais garantiam e apoiavam as identidades individuais,
enquanto outras perdem rapidamente o seu poder de força, verifica-se uma demanda por novas identidades, aptas a
promover julgamentos firmes e com autoridade» (idem, pág. 372).
Isso
explica uma atitude negativa quanto a um certo fanatismo, mas, ao mesmo tempo
confirma a valor da Vida Religiosa
Consagrada (daqui pra frente: VRC)
em um tempo desprovido de referências
firmemente ancoradas. O fanatismo já é bem conhecido e notório. Nasce de
uma leitura fatalista e fundamentalista da história para defender-se contra a
sensação, real ou aparente, do caos e do medo, da desordem e do anonimato. Em
sua raiz mais profunda está a busca
ansiosa de uma nova ordem estabelecida, o que traz abrigo, proteção e
segurança para quem em meio à tempestade não dispõe de bússola. Numerosos
movimentos políticos, ideológicos ou religiosos emergem com essa marca
registrada. Prova disso é o uso
exagerado e doentio de um uniforme como símbolo de identidade. Como se o
modo de vestir-se dividisse a sociedade em “bons” e “maus”, “nós” e “eles”,
“convertidos” e “não convertidos” ou ainda “salvos” e “condenados”. No fundo, todo o fundamentalismo –
novamente de caráter político, ideológico ou religioso – costuma apresentar-se com os olhos e a língua inflamados, o que tem
varrido a história de violência, tragédia e morte.
No
caso da VRC, a sensação de caos e de desordem procura defender-se não tanto através
de uma segurança imediata e quase que mágica. Sem dúvida, é preciso reconhecer
que tudo o que debatemos no parágrafo anterior pode surgir (e efetivamente tem
surgido) no interior da Vida Religiosa. Basta
ver o retorno do hábito e de certos hábitos, da rigidez dos ritos, da
solenidade afetada e ostensiva, do formalismo aparente e de outras
exterioridades estéreis e suspeitas. Mas neste caso trata-se de um claro
desvio. De fato, a razão de ser das
diversas formas de VRC não está nas aparências, e sim na centralidade e no seguimento de Jesus Cristo, no
cultivo de um carisma específico e na importância da vida comunitária. Sua identidade mergulha as raízes:
* na Boa Nova do Evangelho,
* na herança do(a) Fundador(a)
e
* na vida em comum.
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Pe. Alfredinho - autor deste artigo |
O reencontro com a comunidade, enquanto forma de identidade primordial e de pertença familiar, aliado ao cuidado da mística e da missão,
consiste hoje em dia numa referência sólida, que pode garantir e renovar as
energias. Família e comunidade são terrenos férteis para reacender a chama da
fé, da esperança e da utopia. Essas
relações interpessoais formam a base para combater o vírus da apatia, do
desinteresse e do desencanto que dominam as pessoas e a própria ação social e
política. Ou para passar da “globalização
da indiferença à cultura da solidariedade”, diria o Papa Francisco. Não se
trata de vestir um uniforme vistoso e com tendência crescente à sofisticação,
mas um uniforme revestido de uma profunda opção interior, iluminado pelo rosto
de Deus e tecido com os mesmos fios que tecem a vida dos pobres e excluídos.
* Correções ortográficas e edição do texto foram realizadas por Pe.
Telmo José Amaral de Figueiredo.
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