O FUTURO DA FÉ CRISTÃ NO MUNDO
Papa
se concentra em futuro da fé católica no Hemisfério Sul
Jason
Horowitz
The New York
Times
Estratégia
visa evitar que Igreja Católica perca terreno na região
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PAPA FRANCISCO desvia a atenção da Europa e imagina uma Igreja preocupada com as necessidades dos pobres e dos desamparados Foto: Tiziana Fabi/AFP |
Quando cerca de um terço da população católica da Irlanda foi
assistir à celebração da Missa pelo papa João Paulo II em Dublin, em 1979, o
divórcio, a homossexualidade e o aborto eram ilegais no país. A Irlanda, assim
como grande parte da Europa, obedecia aos ensinamentos do catolicismo.
Em agosto, o papa Francisco voltará à Irlanda para um Encontro
Mundial das Famílias, do qual participarão os ativistas da Igreja mais
ligados ao movimento contrário ao aborto. Mas depois do histórico repúdio da
proibição do aborto em uma votação esmagadora, no dia 26 de maio, eles se
encontrarão em um país que faz claramente parte do movimento secular de saída
da Europa do aprisco católico.
Em toda a Europa ocidental, o poder outrora enorme da Igreja
se enfraqueceu, principalmente por causa dos escândalos sexuais que o clero
infligiu a si próprio e da sua incapacidade de fazer frente à mudança dos
tempos e de preservar os católicos contemporâneos. A frequência à Igreja
despencou, as paróquias estão se fundindo, e há escassez de novas vocações. Os
casamentos entre pessoas do mesmo sexo aumentam, e o aborto foi amplamente
legalizado.
Entretanto, Francisco não soou o alarme. Ele parece
resignado a aceitar o fato de que a Europa católica retrocedeu ao passado da
Igreja.
Ele desviou sua atenção do
futuro da fé para o hemisfério ocidental do qual é filho. No centro
da visão de Francisco está a proximidade dos sacerdotes com os pobres e
desamparados aos quais ele acredita que a Igreja deve servir.
Esta guinada suscitou as críticas dos católicos
conservadores, como os da Polônia, o país mais conservador do
continente, que se aliaram a um governo nacionalista contra os migrantes.
Mas o pontífice argentino claramente acredita que
enfatizar um fraco ministério pobre da Igreja para os marginalizados do mundo é
uma mensagem global mais autêntica e mais atraente do que a defesa das
raízes cristãs da Europa.
Tratar o Hemisfério Sul contra:
* o flagelo dos escândalos dos
abusos sexuais,
* do secularismo crescente e
* de um clero distante da
realidade que devastou o catolicismo na Europa exigirá toda a atenção do
papa.
Talvez isto explique por que Francisco, embora tenha se
calado no caso da Irlanda antes da votação, em maio se concentrou em um
escândalo de abusos sexuais no Chile, que ameaça a credibilidade da Igreja
naquele país.
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JUAN CARLOS CRUZ um dos principais acusadores de casos de abusos cometidos pela Igreja Católica no Chile Foto: Andres Kudacki/Associated Press |
“O escândalo dos abusos sexuais e a negligência dos bispos
chilenos provocou um enorme dano”, afirmou Juan Carlos Cruz, um
sobrevivente de abusos sexuais que recentemente esteve com o papa. Ele esperava
que o Vaticano responsabilizasse os bispos e que desse a esta estratégia uma
chance de sucesso no Chile. O fato de não ter falado da crise, segundo Cruz,
causou um “rápido aumento do secularismo em países nos quais era forte a esperança
de uma expansão”.
Também na América Latina e na África, há sinais de que a
Igreja está perdendo terreno em um amplo mercado religioso.
No Brasil, país que tem a maior população católica do
mundo, os evangélicos que pregam o evangelho da prosperidade competem
acirradamente com o catolicismo, que, segundo as projeções, deverá se
tornar um credo de minorias em 2030. Francisco realizou sua primeira viagem
apostólica ao Brasil depois de sua eleição.
Enquanto Francisco vê a preocupação pelos pobres como a
maior esperança da Igreja, o seu predecessor Bento XVI, um alemão, via o
secularismo como a maior ameaça ao futuro da Igreja. Sua homilia antes da
eleição contra a “ditadura do relativismo” contribuiu para a sua subida ao
trono de Pedro, e o seu pontificado foi considerado por muitos um esforço
extremo para salvar a Europa e suas raízes cristãs. Mas a erosão europeia
continuou inelutavelmente, e Bento renunciou ao trono em 2013.
Para suceder-lhe, os cardeais escolheram o primeiro cardeal
não europeu em quase 1.300 anos. Segundo os analistas, a Igreja reconhecera que
o seu futuro estava em outra parte.
Na Itália, muitas paroquias católicas agora são dirigidas por
sacerdotes nascidos fora do país, e o papa declarou que talvez
esteja na hora de fundir algumas das centenas de paróquias de todo o país.
Na maior parte do Luxemburgo católico, o governo,
liderado por um primeiro-ministro gay, aboliu no final do ano passado o
ensino religioso nas escolas públicas. Em 2012, a Arquidiocese de Viena
consolidou suas 660 paróquias em 150.
Somente um em cada cinco católicos assiste à missa na Espanha
hoje. Na França, um em cada 10.
Na Irlanda, a votação sobre o aborto foi o último salto que
distanciou os fiéis de uma Igreja que há muito dominava a cultura do país. A
Irlanda já tinha aprovado em plebiscito a legalização do casamento gay.
“A influência da Igreja católica sobre as pessoas diminuiu”, afirmou
Mary McAuliffe, professora do University College Dublin. “É um fato inegável”.
A Polônia é o país mais católico da Europa. Cerca de 40% dos
católicos assistem à missa aos domingos, quase todos são batizados, e ela
atualmente exporta sacerdotes para outros países europeus.
Monsenhor Edward Staniek, um padre polonês que está
preocupado em proteger os valores tradicionais católicos, disse no início deste
ano que orava para que Francisco concordasse com a sua maneira de pensar o
problema ou então “tivesse uma rápida passagem para a casa do Pai”.
Na Hungria, muitas autoridades da Igreja se aliaram ao
primeiro-ministro contrário à imigração, Viktor Orban, de
formação protestante e que antes se mostrava ambivalente a respeito da
religião, mas agora afirma: “A identidade europeia tem suas raízes no
cristianismo”. Enquanto isto, os populistas na Itália afirmam que Francisco
está abandonando essencialmente a luta pela identidade cristã da Europa.
Se a votação esmagadora da Irlanda preocupou Francisco, não o
demonstrou no domingo, depois da votação. Ele sorriu tranquilo ao abençoar os
fiéis na Praça de São Pedro e os instou a orar pela África.
Kilvia Passos, 47, saudou o papa erguendo a
bandeira da sua terra, o Brasil. E disse que apesar da crescente concorrência
dos evangélicos em seu país, o Brasil continua profundamente católico. Mas até
pouco tempo atrás, também a Irlanda e o resto da Europa afirmavam o mesmo.
“O que nos preocupa é o que está acontecendo aqui”, ela
disse.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional – Sábado,
2 de junho de 2018 – 10h15 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.
ENQUANTO ISSO... NA EUROPA
Espanha.
Mais
da metade dos jovens não creem mais
Redação
Religión Digital
01-06-2018
Os
jovens que não creem em Deus nem praticam qualquer religião chegaram, em 2017,
a 53,5%, superando pela primeira vez o
número
daqueles que creem
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Síndrome das igrejas vazias na Espanha |
E em relação ao conjunto da população, um de cada quatro
espanhóis não é religioso, segundo o estudo “Laicismo em números 2017”, da Fundação
Ferrer i Guàrdia.
Este ano, no entanto, o percentual de não crentes caiu 0,8%,
mesmo que, de acordo com a diretora da Fundação, Sílvia Luque, isso “não
represente propriamente uma mudança de tendência”, segundo declarou à agência
Efe, mas um aspecto estatístico, uma vez que de 1980 para cá, a população
não religiosa aumentou de forma constante.
Segundo Luque, a diminuição do número de pessoas crentes
ocorreu de maneira “marcada” entre 1980 e 2010, uma tendência que teria dado
lugar agora a uma “estagnação”, porque “são mudanças lentas”.
“A não religiosidade entre os jovens, sim, continua
crescendo, mas seu peso populacional é menor e, portanto, tem menos impacto
na estatística geral”, disse Luque.
Jovens se afastam da religião
Atualmente, a idade é um dos fatores que mais incide sobre a
probabilidade de professar uma religião: enquanto 53,5% dos com menos de 25
anos não creem, essa proporção diminui para cada faixa etária, até chegar a
6,7% nos maiores de 65 anos.
O relatório também inclui “grandes diferenças” territoriais,
já que enquanto 39% dos catalães se declaram não religiosos, apenas 9% de
murcianos compartilham essa característica.
A Catalunha é seguida, com maior número de não
religiosos, pelo País Basco, as Ilhas Baleares e Navarra,
enquanto que seguindo Múrcia, com menor número de não religiosos, estão Aragão,
Castela-La Mancha e Extremadura.
“Os territórios mais urbanizados e industrializados mais
cedo mostram uma secularização mais avançada, porque as áreas rurais mantiveram
mais as tradições, incluindo aquelas de natureza religiosa”, explicou Luque.
Outro dado que se destaca no
relatório é o declínio sustentado da importância da religião na vida, que,
pela primeira vez em 2014, foi ultrapassada pela política, tendência que
perdura até hoje.
No ofício dos ritos de passagem (batismo, casamento e
exéquias) também há uma tendência de secularização acentuada, já que a
proporção de casamentos civis e religiosos “inverteu-se completamente” em 20
anos: se em 1996, 76,7 % das uniões eram confessionais, agora elas
representam apenas 27,5%.
Outra tendência das últimas décadas é o aumento das
crianças nascidas de pais não casados, que em 1990 representavam 9,6% e
hoje chegam a 44,4%.
Uma faceta que o relatório também analisa é o impacto da
religião na educação, e destaca que 18% dos estudantes espanhóis estão
matriculados em um centro privado de confissão religiosa, em comparação com 68%
dos alunos matriculados em escolas públicas e 14% em uma escola privada laica.
Quanto à opinião sobre o aborto:
* 79% dos ateus e 72% dos não
crentes mostram-se a favor,
* em comparação com 40% dos
católicos e 26% dos crentes de outras religiões,
* porcentagens que se repetem de
maneira similar na avaliação da igualdade do direito de adoção para casais
homossexuais.
Os sociólogos Hungría Panadero e Josep Mañé são
os autores do relatório, que é publicado anualmente há sete anos para “fazer um
Raio-X do laicismo em um sentido amplo”, segundo Luque, incluindo a profissão
de fé da população, mas também a análise das relações entre Igreja e Estado.
Traduzido do espanhol por André Langer. Acesse a
versão original, clicando aqui.
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