Você é, mesmo, convertido(a)?
Muitos cristãos julgam-se convertidos, mas qual
o fundamento para justificar tal convicção?
Orlando
Polidoro Junior
Teólogo,
pastoralista e bacharel em Teologia pela
Pontifícia
Universidade Católica do Paraná – PUC-PR
A conversão eleva o ser humano para
uma vida repleta de amor em
tudo – tudo é Amor. Mas é o amor que
sempre se destaca
na conduta de alguns supostos
convertidos?
“Isto vos mando: amai-vos
uns aos outros” (Jo 15,17).
“A caridade é paciente, a caridade é
prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz
de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não
guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4-7).
Não
existe um padrão, um jeito correto ou um planejamento ideal para a conversão,
entretanto, este artigo reflete sobre um
modelo de conversão embasado nessas duas citações bíblicas.
Dialogar
sobre conversão é tratar sobre Deus, é falar da misericórdia e do Amor
professado pelo Seu Filho Jesus, sem deixar de reconhecer e suscitar as
revelações do Espírito Santo. Deus manifesta a plenitude do Seu Amor em Cristo
Jesus, que veio para nos servir – e não para ser servido (cf. Mt 20,28). Seu Evangelho é pura lição de amor ao
próximo. Então, ir à missa
diariamente ou toda semana, rezar
copiosamente, participar de obras de
ações sociais [dentro e fora da igreja], doar o dízimo etc., não
podem ser consideradas como “atitudes finais que configuram uma ‘verdadeira’
conversão”, desde que, no dia a dia não seja impulsionada por olhares
respeitosos e fraternos para com o próximo.
Herdeiros
da Nova e Eterna Aliança, o Santuário
Onipresente na alma do cristão ama ao próximo com a si mesmo (cf. Gl 5,14),
e adora a Santíssima Trindade (cf.
Jo 4,23). Jesus é O Modelo que o
fiel busca se aproximar e seguir. É fácil? Não! Mas da parte humana este é o
critério da conversão.
Convivendo
entre cristãos, católicos e protestantes, é comum ouvir declarações convictas
de irmãos que, de alguma forma ou por algum(ns) motivo(s) se julgam e até se
declaram convertidos(as). Diante de tal circunstância, glória a Deus passa a
ser uma mensagem de retorno cabível e digna para o cristão “merecedor dessa
graça”. Porém, o conceito de graça
merecida é mais um entre alguns fundamentos mal interpretados, tanto por
determinados fiéis, como também por certas denominações religiosas que pregam a
ideia de que a conversão não é para qualquer um, e sim, é recebida quase como
um prêmio concedido por Deus, mas somente para os puros e justos. Será?
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SANTO AGOSTINHO |
Para
o catolicismo, o protestantismo tradicional e alguns pentecostais, os
entendimentos de uma conversão virtuosa
contêm princípios equivalentes, entre eles, o de maior relevância é o afastamento do pecado. Partindo
desta gênese, pela via da graça santificante o cristão segue O Novo Caminho, e
durante o processo de conversão que é contínuo [...], surge uma mudança de
conduta – cheia de luz – semelhante à vida e ao amor de Jesus proclamado em Seu
Evangelho. Para seguir Jesus é preciso estar preparado(a) para novos desafios e
esforços, mas sempre consciente de que serão alcançados e superados pela moção
da Santíssima Trindade [Papa Francisco. Evangelii
Gaudium]. Pela fé, a graça da
conversão promove transmutações no interior/alma do fiel, gerando sentimentos
mais puros e justos – dignos do amor de Jesus, O Cristo (cf. 2Cor 5,17).
Mesmo
partindo deste entendimento, a capacidade humana para compreender e explicar,
com certeza, sobre a conversão em sua totalidade, está limitada até mesmo aos
maiores teólogos do mundo em todas as épocas, pois não é possível profetizar o
que Deus pensa e nem como e quando sua graça será manifestada. Contudo, os
resultados de pesquisas desenvolvidas durante séculos, pelo menos nos dão algumas pistas lógicas para o
reconhecimento de conversões analisadas e concebidas como “verdadeiras”, devido
ao modelo de vida construído pelo fiel convertido(a), ou seja, modelo
exemplar de caridade [amor pleno ao próximo]. Mas certas atitudes de alguns
convertidos (as) de nosso relacionamento servem como bons exemplos de caridade?
Quando
pela graça, A Santíssima Trindade coloca um filho(a) no caminho inicial da
conversão [Ad Gentes], ela é
incontestável, por isso, as mudanças de pensamentos e de atitudes refletem
intensamente à luz do Senhor – refletem paz, harmonia, respeito e muito amor em
tudo. A Trindade transfigura a alma do
ser humano.
Em
verdade, a questão da conversão é complexa e exige discernimento para que possa
ser bem interpretada, visto que, como humanos apegados às doutrinas religiosas,
algumas vezes mal compreendidas, defendidas e praticadas sem o uso correto da
razão, “bate-se no peito com orgulho”
autoafirmando-se convertido(a), até mesmo em relação a alguns tipos de mudanças
mais “comuns” como: trocar de igreja ou de religião, parar com algum tipo
de vício, parar de praticar alguns atos considerados pecaminosos etc.
Nem
cabe comentários quanto ao modelo de conversão visto como mudança de religião
ou de igreja. Mas, com certeza, as referências de libertação de vícios e o
afastamento de ações destruidoras da paz, independente de uma vida de fé ou
não, é pura graça divina. Mas em amplo juízo teológico, estas
ações/manifestações também não podem ser consideradas como uma conversão
virtuosa/gloriosa, pois um cristão
verdadeiramente convertido pelo amor e pela misericórdia da Santíssima
Trindade, recebe muito mais do que uma graça/milagre temporal. Recebe
gratuitamente, carismas, virtudes, serenidade e dons semelhantes aos de Jesus.
A conversão
eleva o ser humano para uma vida repleta de amor em tudo – tudo é Amor. Mas é o amor que sempre se destaca na conduta de alguns supostos
convertidos?
Sem
julgar e condenar, vale contemplar para poder perscrutar sobre o Evangelho de
Jesus; e como aceitamos e convivemos com as supostas conversões de alguns
semelhantes.
Vamos
refletir um pouco sobre dois exemplos
considerados como conversões:
1º)
refere-se ao cristão ardente na fé,
que caminha em intensa sintonia com os sinais da Trindade Santa – e com isso,
aos poucos, seu coração vai se
transformado para o Bem Maior de Deus.
2º)
exemplo é aquele que, caminhando ou não
na fé, “do nada”, o(a) filho(a) passa a conviver com a Verdade.
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SÃO PAULO |
O primeiro exemplo segue o raciocínio
cristão que compreende a conversão como
um processo de evolução na caminhada de fé, já o segundo parece ser um passe de mágica, mas não é, é pura manifestação
da Graça Trinitária [obras do Divino].
É
uma ousadia humana querer adivinhar o que Deus pensa e/ou o seu modo de agir,
todavia, a Teologia interpreta a
conversão como sendo um processo diário na vida do fiel, visto que não pode
ser concebida como uma simples chave liga-desliga e tudo resolvido. Contudo, o
agir do Deus Trinitário surpreende sempre, da mesma forma que também podemos surpreendê-lo
com nosso livre-arbítrio, porém, na vertical há muitas bênçãos e graças
recebidas, e uma delas é a caridade, que dignamente o fiel a compartilha com os
semelhantes na horizontal – no chão da vida (cf. Tg 2,8).
Comparando os dois exemplos
com duas referências de conversões bem tradicionais na história do catolicismo,
citamos, Agostinho de Hipona e Saulo
de Tarso, pois têm semelhanças racionais. Segundo as Confissões de Agostinho, mesmo com uma vida
turbulenta diante do ser cristão em sua época, de perseguidor consciente de
Deus por longos anos, só O encontra quando em um determinado momento, ao ouvir a voz de uma criança (Confissões, p. 226), relata que sua
conversão [graça] ocorreu ali. Mas como todo processo de conversão, este foi
apenas o início de sua virtuosa caminhada de fé que culminou no Doutor da
Igreja Católica – Santo Agostinho. Pelas narrativas das Escrituras Sagradas, Saulo,
de perseguidor maldoso dos cristãos, diante da narrativa de ter “caído do cavalo” [caiu por terra -
cf. At 9,4], aquele foi o ápice de sua conversão [graça], que mais tarde o
tornou no iluminado Paulo apóstolo.
Nos
dois contextos temos fatos históricos e teológicos, com isso, é preciso
discernir sobre os dois acontecimentos, pois têm circunstâncias em comum, e uma
grande evidência: Agostinho perseguia um
encontro interior com Deus, e Saulo perseguia os cristãos. Mas a Boa-Nova mesmo é que Deus perseguia os
dois –, e em Seu momento [kairós],
manifestou a graça.
Não
existem parâmetros para medição, mas se houvessem, a conversão em seu estado de
graça não poderia ser mensurada somente por uma vitória, pois ela superabunda a
vida do cristão com valores místicos-divinos-absolutos, suficientes para encher
a alma e o coração com O Amor Verdadeiro e transformador, mensurável sim, pelo(a)
próprio(a) fiel que recebe os sete dons do Espírito Santo – e os partilha com o
próximo – é o agir divino presente entre os homens.
Teologicamente,
o entendimento mais ponderado para os
dois episódios é o de que aqueles momentos não tenham sido exatamente os das
completudes das conversões. Para cada um, aquele foi o momento do encontro;
da revelação. Mesmo declarados como tais, tanto
Agostinho como Saulo passaram pelo processo evolutivo da conversão, isto é,
foram crescendo em graça; foram descobrindo o Amor; foram transformando
suas almas para o bem. Saulo, após abrir os olhos para o Senhor, se preparou
durante um período aproximado de três anos, para daí sim, como Paulo, sair
evangelizando os gentios. Nenhum deles
estava pronto/convertido naquele momento.
Infelizmente, presenciamos
em alguns irmãos que se autoafirmam convertidos, certas atitudes nada
condizentes com os ensinamentos de Jesus. Isto é comum no dia a dia de quem vive em
comunidades cristãs. Então fica a reflexão: autoafirmar-se é o suficiente para
o Reino, ou somente um coração repleto de caridade representa a plenitude da
graça – e é sempre louvável em todas as atitudes para com os semelhantes?
O
Pai, O Filho e O Espírito Santo não precisam de nada que se possa oferecer como
forma de reconhecimento pessoal. Inspirado em Mateus 7,21, mas sem questionar a
entrada no Reino futuro, até mesmo para os que proclamam, na falsidade ou com o
coração ardente, Senhor, Senhor, fazer a
maior vontade do Pai que está nos céus é respeitar, amar e servir aos irmãos.
Adorá-lo em Sua Trindade não é a exigência [livre-arbítrio], mas as
benevolências do amor ao próximo são muitas bênçãos, graças e dons recebidos do
céu, às vezes não reconhecidos.
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PAPA FRANCISCO |
Não
pela lógica utilizada por alguns, mas com
senso teológico é possível relacionar a conversão com a salvação, pois as duas
dependem da graça e não de méritos pessoais criados pela mentalidade
pelagiana ou semipelagiana, que só confia nas suas próprias forças e sente-se
superior aos outros [cf. Papa Francisco. Gaudete
et exultate].
Para
desmistificar qualquer tipo de
compreensão que resuma a conversão como um acontecimento único; momento mágico,
vamos acompanhar a vida do Maior Homem da história, Jesus, O Cristo. Nascido do
ventre de Maria que recebeu o anúncio do anjo, Ele cresceu com esta verdade – e
certamente ciente de como foi gerado. Aos doze anos, no templo, mostrou que crescia
em graça e sabedoria, porém, somente aos trinta anos iniciou sua vida pública.
Com isso, temos um período conhecido como o da vida oculta de Jesus. Não
teria sido o tempo necessário para o processo de sua gloriosa e redentora
conversão? Mas será que como Divino Ele precisou ser convertido como
humano? É necessária muita circunspecção para compreender a comparação dessa
indagação.
Gerado, se tornou humano,
igual a nós em tudo, menos no pecado. Mesmo sendo o Filho do Homem, não nasceu pronto, passou por um processo como os cristãos também
passam. Ao final de Sua Dolorosa Paixão, Cristo Jesus questionou: Deus meu,
Deus meu, por que me abandonaste? Será
que estamos absolutamente convictos de nossas conversões?
Por
Cristo, com Cristo, e em Cristo.
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