Solenidade da Natividade de São João Batista – Homilia
Evangelho: Lucas
1,57-66
57 Completou-se
o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho.
58 Os
vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido misericordioso para
com Isabel, e alegraram-se com ela.
59 No
oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai,
Zacarias.
60 A mãe
porém disse: «Não! Ele vai chamar-se João.»
61 Os
outros disseram: «Não existe nenhum parente teu com esse nome!»
62 Então
fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse.
63 Zacarias
pediu uma tabuinha, e escreveu: «João é o seu nome.»
64 No
mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele
começou a louvar a Deus.
65 Todos
os vizinhos ficaram com medo, e a notícia espalhou-se por toda a região
montanhosa da Judéia.
66 E
todos os que ouviam a notícia, ficavam pensando: «O que virá a ser este menino?»
De fato, a mão do Senhor estava com ele.
80 E o menino crescia e se fortalecida em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel.
JOSÉ MARÍA CASTILLO
Teólogo
espanhol
O PRECURSOR DO MESSIAS
O dia de São
João Batista recorda a todos o momento no qual se inicia uma das mudanças
mais decisivas na história da humanidade. João Batista é o único santo do
qual a Igreja celebra o nascimento. Independentemente das razões que tiveram
aqueles que instituíram essa festa, para comemorar hoje, não sua morte, mas seu
nascimento, o que deve chamar a atenção daquele que crê é que, com a chegada de
João Batista a este mundo, encerra-se uma etapa na história das tradições
religiosas, e se abre outra: «A Lei e os Profetas chegaram até João
Batista; desde então se anuncia o Reino de Deus» (Lc 16,16; Mt 11,13).
Com João
encerra-se a etapa marcada pela lei religiosa e se abre a etapa do Reino,
que é vida para os pobres, enfermos e pecadores. Dizendo mais claramente: a
presença de João Batista neste mundo anuncia a todos que o «fato religioso» se
desloca. O centro desse fato deixa de estar no Templo e passa à rua, ao
campo, ao deserto. O central não será mais «o sagrado», mas «o profano».
É isso mesmo!
Enquanto ao
nome, João significa em hebraico «Javé é clemente». Pois bem, a
clemência se traduz geralmente pela palavra grega «éleos», que significa
misericórdia. O que nos vem dizer que o próprio nascimento de João
Batista representa uma mudança assombrosa: Deus não se encontra no «sagrado»,
mas na «misericórdia». João é o precursor porque é o anuncio vivo da grande
transformação do fato religioso: da religião dos «homens sagrados» à religião
dos «homens misericordiosos».
João
representou uma inovação importante em seu tempo. Era filho de um sacerdote
(Zacarias) e sua mãe (Isabel) era da família de Aarão (Lc 1,5). Ou seja, João
era de família sacerdotal em sentido pleno. O lógico era que ele fizesse o
que lhe correspondia, integrar-se no Templo e viver como sacerdote. Porém, ele
não fez assim. João foi um homem do deserto, lugar de perigo e
marginalização social, onde viviam pessoas que não tinham boa relação com o
Templo, como era o caso dos monges de Qumran.
Porém, João
foi somente o primeiro caso de um deslocamento decisivo. A passagem da etapa da
Lei e do Templo para a etapa do Reino de Deus. Há diferenças entre João e
Jesus. Reduzindo essas diferenças ao essencial, é seguro que o centro das
preocupações de João foi a conversão dos pecadores. Enquanto que o centro
das preocupações de Jesus foi a saúde dos enfermos e a alimentação
(como comensalidade) de todos, especialmente dos pobres e excluídos sociais. No
fundo de tudo, estava o fato que João cria em um Deus justiceiro e castigador
(Mt 3,12; Lc 3,17), enquanto que Jesus creu sempre em um Pai absolutamente
bom com todos (Lc 15,11-32).
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
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