Partido tóxico ! ! !
MDB é tóxico e pode contaminar
aliados nas
eleições, diz cientista político
Entrevista com Alberto Carlos Almeida
Néli Pereira
A má avaliação do governo Michel
Temer torna o MDB - partido tradicional pelas alianças costuradas em eleições
presidenciais -, um peso negativo no pleito deste ano
A
avaliação é do cientista político Alberto Carlos Almeida, que acaba de lançar o
livro O Voto do Brasileiro, no qual analisa indicadores socioeconômicos e eleitorais para afirmar que o
resultado das eleições no Brasil é "previsível". Ele defende que
o segundo turno deve se manter entre o duopólio
PT x PSDB - partidos cujas máquinas eleitorais, segundo ele, "não têm
competição".
Autor de outros livros sobre o assunto, como A Cabeça do Brasileiro e A Cabeça do Eleitor, Almeida argumenta que apesar de o eleitorado brasileiro ter
sido impactado pelas crises recentes e pelos escândalos de corrupção, não houve
uma mudança significativa no perfil do eleitor. Segundo ele, apesar da
demanda da população ser diferente, a oferta de candidatos e partidos permanece
praticamente inalterada.
Eis a entrevista.
BBC News Brasil: No seu livro recém-lançado, você analisa indicadores eleitorais e
sociais para afirmar que as eleições presidenciais no Brasil são previsíveis e
reforçam o monopólio de PT e PSDB. O senhor acredita que este pode ser o caso
do pleito deste ano, mesmo com Lula preso e o candidato do PSDB, Geraldo
Alckmin, tão em baixa?
Alberto Carlos Almeida: Um forte indicador são
as pesquisas que já foram divulgadas e mostram o Lula liderando a corrida presidencial, mesmo preso. As pessoas
podem até falar "ah, mas ele não vai ser candidato" - pode ser, mas
isso é um sinal da força do PT. E essa liderança
se dá graças ao Nordeste do país, o que reforça o padrão que eu demonstro
no livro com base nas eleições de 2010 e 2014. O que falta é o PT ter um candidato para o lugar do Lula, e nessa
hora o Nordeste vai olhar com todo carinho, pensar em programas como o Bolsa
Família, como a vida deles melhorou nos anos do PT etc.
Do outro lado, o
PSDB, que é o "anti-PT". Pode ser que haja uma exceção neste ano,
mas isso só vamos poder afirmar depois que a campanha começar, porque a estrutura do PSDB é muito maior do que a
de vários partidos, inclusive da sigla do Jair Bolsonaro (pré-candidato
pelo PSL).
O fato de as pesquisas mostrarem uma certa
dificuldade do PSDB neste ano, não quer dizer que ela vá permanecer. A gente não pode esquecer que na eleição
passada, o então candidato Aécio Neves passou a Marina Silva somente na
quinta-feira antes da votação que ocorreu no domingo. O mesmo pode vir a
acontecer com o Geraldo Alckmin, já que o PSDB tem uma máquina muito forte em
São Paulo.
BBC News Brasil: Quer dizer que, depois de todos os escândalos de corrupção e da
Lava-Jato, nada mudou na cabeça do eleitor brasileiro?
Almeida: Não é que nada tenha mudado. Quando se fala
do eleitor você está falando da procura, da demanda - o eleitor demanda
mudança, e isso não é de hoje. Mas quando
falamos de partido, falamos da oferta, e essa oferta no Brasil é
"oligopolizada". Os recursos
de campanha, recursos financeiros,
tempo de televisão - tudo está muito
concentrado no PT e PSDB, eles são muito fortes. A diferença entre eles e
os competidores deles é muito grande.
BBC News Brasil: Com a recessão e os cortes de gastos públicos, muitas pessoas que
haviam ascendido experimentaram retrocesso social. Como essa experiência se
refletirá no voto?
Almeida: Eu tenho visto isso de forma muito direta.
Há um apoio muito forte ao voto de oposição - e a oposição sendo o PT. Ou seja,
na cabeça do eleitor funciona mais ou
menos assim: "tiraram o PT e colocaram um governo que não está
funcionando, então põe o PT de volta".
Essa intenção de voto no Lula mostra um pouco isso,
e nas pesquisas você observa que há um
favoritismo para o PT. Então, embora a crise tenha afetado figuras do
partido, o saldo favorece a sigla nas eleições desse ano, as pesquisas mostram
isso inclusive para o segundo turno. Aí, mesmo que você não tenha o Lula, que
seja outro candidato, o partido tem uma máquina muito forte, por exemplo: o
governo da Bahia, de Minas Gerais, que é o maior colégio eleitoral do país. Se somar Minas, Bahia, Maranhão, Piauí, dá
um quarto do eleitorado brasileiro, sem contar todos os Estados do Nordeste.
Tem um lado bom do Lula não fazendo campanha para
ele mesmo - afinal, ele está respondendo a acusações, o nome dele foi envolvido
em escândalos etc. Outro candidato do PT
que não seja o Lula, não terá esse lado tão ruim. O Lula tem ativos, sim,
mas tem passivos também.
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LULA Forte mesmo preso em Curitiba |
BBC News Brasil: Assim como aconteceu em outros países, qual a chance de termos aqui um
candidato ultra conservador com sucesso no pleito, como Jair Bolsonaro? Como
ele se insere em meio ao monopólio PT/PSDB?
Almeida: A diferença é que na Europa, e até nos
Estados Unidos, você tem o tema da imigração, que não existe aqui no Brasil. Lá
você tem uma onda de imigrantes que são acusados de ocupar vagas de trabalho
dos cidadãos dos países para onde vão, e isso vira um tema muito forte das
campanhas conservadoras, como a de Marine Le Pen na França. Então, o que
poderia fortalecer esse discurso aqui no Brasil? O tema da segurança pública?
Duvido um pouco, porque os governadores vão fazer campanha em cima desse tema, eles controlam
as polícias militar e civil - isso vai fazer o discurso do Bolsonaro parecer um
pouco demagogo, porque ele vai falar, prometer o que não poderá cumprir.
Tem muita onda para passar debaixo dessa ponte que vão acabar mostrando os
pontos fracos do Bolsonaro.
BBC News Brasil: O senhor falou sobre segurança pública, quais devem ser os grandes temas
das campanhas deste ano?
Almeida: Tudo o que estiver relacionado ao bem estar
social e econômico das pessoas - aumento de poder de compra, ter acesso a
programas sociais. A palavra que costura tudo é acesso: acesso a bens de
consumo via renda, acesso a serviços,
acesso a programas sociais. A
campanha deve ser muito focada nisso.
BBC News Brasil: O MDB é sempre um peso importante nas eleições presidenciais, e nas
alianças. Qual deve ser o peso do MDB neste ano?
Almeida: O MDB tem um peso de um governo muito mal
avaliado. Para onde o partido for e apoiar, ele vai ferir de morte aquele que
estiver junto. Quem encostar no MDB,
quem encostar no governo, está morto.
BBC News Brasil: Mas em uma eleição em que todos os candidatos têm um tempo de televisão
curto, como os partidos vão disputar a eleição sem o tempo de TV e a
capilaridade do apoio do MDB. Vai dar para ganhar a eleição, ignorando os pesos
pesados do MDB?
Almeida: Sobre o tempo de
TV, para se ter uma ideia, o PT terá 30
vezes mais tempo que o Bolsonaro. A Marina
Silva tem menos ainda. A assimetria é muito grande. O Alckmin a mesma coisa: o Ciro Gomes tem muito menos tempo. Então
isso reforça o peso, mesmo com as alterações de campanha.
Sobre o MDB, as máquinas estaduais no Brasil se
dividem em função do voto regional, então o
MDB do Nordeste já afirmou que vai apoiar o PT, caso de Alagoas, e no Sul a sigla já declarou apoio ao PSDB,
como RS e SC.
Na convenção que definirá se o partido vai ou não
ter candidato, já que o Henrique Meirelles está se colocando, ali teremos uma
definição mais precisa de como eles vão se comportar, inclusive em termos de
apoio.
Outra coisa: quem o MDB apoiar, perde a eleição. Por
exemplo, a escolha do vice do Alckmin, se essa figura for do MDB, ele perde. O MDB é tóxico, inteiramente tóxico, porque
o governo é muito mal avaliado.
A imagem do
partido é muito ruim, não só do
presidente. Seria uma loucura ter o MDB por perto, quem o tiver, perde. As
divisões regionais é que regem o apoio das máquinas estaduais do partido, então
nas regiões onde o PT é mais votado, a
máquina vai para onde o vento sopra, e o mesmo com o PSDB. E por fim, o
impacto do tempo de televisão ainda não está claro porque vai depender das
escolhas que eles farão na convenção.
BBC News Brasil: É possível falar de um realinhamento eleitoral no Brasil? De que forma
ele se configura? E algo muda para as eleições do Legislativo?
Almeida: É difícil de dizer. O que já observamos é
que essa mudança sobre as doações
privadas de campanha vai dificultar a entrada de novos políticos - os que
vão entrar serão aqueles que estarão dispostos a gastar uma fortuna pessoal, ou
algo desse tipo.
Na minha
avaliação, de certa forma, isso vai ter um aspecto negativo para a política e
já há estudos que detectam que mostram que a
cada eleição que passa, os candidatos eleitos tendem a ser os mais ricos, e
isso está aumentando a distância social
entre os eleitos e não eleitos.
Antigamente, os eleitos eram pouco mais ricos que
os não eleitos, agora eles são muito mais ricos do que aqueles que perdem as
eleições. Isso gera um grupo de parlamentares que são ricos pessoalmente. Essa
é a única janela de renovação hoje em dia. O restante vai ter o financiamento
público e quem segura a máquina do partido vai ter esse financiamento.
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GERALDO ALCKIMIN Candidato do PSDB beneficia-se da grande e forte máquina e estrutura de seu partido |
BBC News Brasil: E sobre o perfil do eleitor? No seu livro o senhor defende que o perfil
socioeconômico é determinante para o voto e que houve uma mudança significativa
a partir da eleição de Lula em 2006. O peso desse fator deve ser o mesmo neste
ano?
Almeida: De alguma maneira,
já há uma configuração nessa direção. As pesquisas divulgadas até agora mostram
um favoritismo do PT na região Nordeste
e do PSDB em São Paulo. Isso mostra
que o peso desse fator não foi alterado.
BBC News Brasil: Podemos esperar alguma mudança no comportamento do eleitor com base na
ideologia de alguns candidatos, inclusive sobre temas mais sociais, como identidade
de gênero, legalização do aborto, entre outros?
Almeida: Eu ficaria surpreso se os candidatos
seguissem para esse tipo de discussão. Os jornalistas vão questioná-los sobre
isso, mas eles entendem que a economia é
mais importante - a população brasileira é muito carente, o que mobiliza mesmo os votos é o consumo,
poder comprar mais. As pessoas estão contraindo gastos até no supermercado,
acredito que esses temas serão mais discutidos.
BBC News Brasil: Com Lula preso, muitos de seus eleitores continuam sem candidato. Quem
tende a "herdar" esses eleitores? Por quê?
Almeida: Na minha avaliação, esses eleitores devem ficar com o PT porque o partido tem uma máquina
muito forte. A gente pode até imaginar como vai ser essa dinâmica de
lançamento de um candidato: eles vão anunciar quem vai ser, o ex-presidente deve enviar uma carta,
que será lida, esse nome vai ser entrevistado e ter mídia forte durante algum
tempo, a exposição midiática vai ser muito grande - e esse candidato pode
crescer.
BBC News Brasil: Os grandes escândalos não arranharam a imagem de PT? E agora do PSDB? O
eleitor não está ligando pra isso? Por quê?
Almeida: Arranharam sim, se não tivessem arranhado,
a eleição estaria ganha no primeiro turno. Ainda que se suponha um equilíbrio
porque a imagem do PT está arranhada, a ascensão do Bolsonaro também por causa
dessa imagem mais prejudicada - não fosse isso, o PT ganharia no primeiro no
turno e o PSDB estaria mais à frente nas pesquisas, com muito mais solidez.
Então os escândalos de corrupção estão
sendo sentidos sim, e eles é que são responsáveis pelo cenário que estamos
vendo antes das eleições e da campanha em si.
BBC News Brasil: No livro o senhor analisa indicadores para afirmar que um segundo turno
sem PT e PSDB neste ano é possível, mas não provável. Por quê?
Almeida: Por causa das
máquinas. Hoje a dificuldade maior é dizer se o PSDB vai. Mas eles têm uma
máquina muito forte, um domínio político em cada Estado - agências de
publicidade, diretores de entidades estatais, de hospitais - essa máquina fica
ali esperando a eleição, e será ativada na campanha. O PSDB tem essa máquina
muito forte principalmente em São Paulo. E o PT continua tendo uma máquina
forte, como eu disse anteriormente. Nesse aspecto, podemos não ter nenhuma
novidade.
A
oferta é rígida, e limitada. E faz parte de uma construção, que leva
tempo. PT e PSDB são grandes jogadores.
BBC News Brasil: E olhando para um futuro próximo, há alguém ou alguma sigla que
desponte no cenário político capaz de competir com esses dois grandes partidos?
Almeida: Não vejo isso acontecer, e se trata de um
processo longo, tem que ser plantado e construído. Se pegarmos o caso do Movimento 5 Estrelas na Itália, eles
vêm construindo, isso leva tempo.
Não é de uma hora para a outra.
Fonte: BBC News Brasil – Segunda-feira, 25 de junho de 2018 – Internet: clique aqui.
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