Para a Igreja, é hora de abrir o armário!
Um novo livro sobre a homossexualidade
no Vaticano sai nesta semana.
O que podemos esperar?
Michael J. O’Loughlin
Revista “America”
14-02-2019
Um livro prometendo expor o que o autor alega ser
hipocrisia
de líderes da Igreja Católica, sobre questões
relacionadas à homossexualidade, será publicado nesta semana
De acordo com um comunicado de
imprensa de sua editora, Bloomsbury, “In The Closet of The Vatican” (No armário do Vaticano, em tradução
livre) do jornalista francês Frédéric
Martel, “expõe a podridão no coração
do Vaticano e da Igreja Católica Romana atualmente”. Martel, que também é
sociólogo, teria passado quatro anos conduzindo mais de 1.500 entrevistas, incluindo conversas com 41 cardeais, dezenas de padres e outras autoridades
do Vaticano. Isto, de acordo com o jornal The Tablet, que também alega que o livro relata que 80% dos padres trabalhando no Vaticano são gays, não
sendo necessariamente sexualmente ativos.
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Edição francesa, original do livro: Tradução livre do título: "SODOMA: investigação no coração do Vaticano" Será publicado no dia 21/02/2019 |
Uma parte da edição francesa do livro foi publicada pela revista Le Point no dia 13 de fevereiro. De
acordo com o artigo, Martel explora
os ataques contra o Papa Francisco, a quem Le
Point chama de “herói” do livro, mas gasta muito mais tempo examinando os
papados e assessores de João Paulo II e Bento XVI.
Nas últimas décadas, algumas
autoridades do alto escalão católico têm estado à frente da batalha contra
casamentos do mesmo sexo e de direitos LGBT. Mas o Papa Francisco tenta dar um tom mais acolhedor à discussão, nos
últimos anos, mantendo a doutrina da Igreja quanto a sexualidade e casamento,
mas incitando menos críticas ao se
aproximar da comunidade LGBT.
O reverendo James Alison, padre e teólogo britânico, dedicado aos assuntos de
sexualidade e sacerdócio, disse à America
que quando se trata de padres
homossexuais “o que realmente importa é a honestidade”.
Pe. Alison, que foi entrevistado
diversas vezes para o livro de Martel, disse que um sistema que impede os padres de serem honestos sobre sua própria
sexualidade, cria condições suscetíveis ao escândalo. Oficialmente, homens
gays são barrados do sacerdócio, instrução confirmada, em 2016, pelo Papa
Francisco. Mas críticos dizem que o banimento não funciona de fato, ao invés
disso, mantém gays que ainda desejam
servir ao sacerdócio, presos no armário.
Alison disse que esse tipo de sigilo pode levar alguns bispos e padres a viverem vidas
duplas, um fenômeno que Francisco condena repetidamente, e isso contribui para os abusos financeiros e
sexuais que abalaram a Igreja nas últimas décadas.
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Edição inglesa do livro será publicada no dia 21 de fevereiro próximo. Tradução livre do título: "No armário do Vaticano: poder, homossexualidade, hipocrisia" |
In the
Closet of the Vatican deve ser lançado em 8 idiomas e em 20 países, em 21 de fevereiro, mesmo dia que se
inicia a cúpula de bispos de todo o mundo com o Papa Francisco, em Roma, onde
eles discutirão maneiras de lutar contra o abuso sexual infantil.
Essa data de lançamento deixa
algumas pessoas preocupadas.
James Martin S.J., editor da America,
cuja dissertação “The Challenges and
Gifts of the Homossexual Priest” (Os desafios e dádivas de padres
homossexuais, em tradução livre) foi publicada em 2000, diz estar desapontado.
“Infelizmente, o momento da publicação do livro torna inevitável que a
discussão sobre ele confunda a questão dos padres gays com os abusos sexuais”, disse o
padre Martin, acrescentando que os primeiros relatos descrevem o livro como
tendo “uma camada quase impenetrável de
fofoca”.
Sean Larsen, teólogo e editor-chefe da revista acadêmica on-line Syndicate, disse que, nas primeiras
recepções do livro, ele vê um teste de Rorschach sobre questões da
homossexualidade.
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Edição em língua portuguesa, pela editora Sextante de Portugal. Será publicado, também, no próximo dia 21 de fevereiro de 2019 |
Especialistas dos Estados Unidos já disseram que não há relação entre a
orientação sexual e abuso de menores. Enquanto alguns bispos sugeriram
que a Igreja olhe mais atentamente para ligações entre o grande número de
padres gays e o abuso, muitos líderes de alto escalão da Igreja, incluindo o
Papa Francisco, disseram que a cultura
clericalista é a culpada.
Por sua parte, padre Alison disse
que o sigilo exigido de muitos padres
gays pode fazer deles “incapazes de
olhar o que está acontecendo ao redor”, mesmo que nunca tenham tido um
comportamento abusivo.
“É aí que o livro é realmente útil. Ele mostra quão mentiroso o mundo do
‘não pergunte, não fale’ é, e como isso faz com que todos os envolvidos sejam
incapazes de lidar com a verdade”, ele disse. Referindo-se a padres
cujos comportamentos vão contra o que é esperado deles, padre Alison disse
“Eles apenas precisam se sentir chantageados”.
“Acontecerá quando jovens, ao entrarem no sacerdócio, sejam
capazes de ser honestos sobre quem eles são, e bispos sejam capazes de ser
honestos sobre quem eles estão ordenando”, ele disse. “No momento, nada disso é
possível”.
Traduzido
do inglês por Natália Froner dos Santos.
Acesse a versão original do artigo, clicando aqui.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 18 de
fevereiro de 2019 – Internet: clique aqui.
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