Um ministro despreparado para o Brasil!
Em carta aberta, professor da UFMG
rebate Vélez:
«sem preparo ou dignidade»
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RICARDO VÉLEZ RODRIGUEZ Ministro da Educação |
Senhor Ministro,
Tomei conhecimento por diversos meios de comunicação que V.
Exa. se referiu a brasileiros como sendo “canibais”,
que roubam objetos de hotel e assentos salva-vidas de aviões. Senti-me
pessoalmente ofendido com a fala de V. Exa. e imagino que a grande maioria dos
brasileiros que tomaram conhecimento do fato estão igualmente indignados.
Sei que V. Exa. não
nasceu no Brasil e muito me preocupa
imaginar que os brasileiros que conheceu o tenham feito ter uma impressão tão
negativa de nós. Preocupa-me ainda mais pensar que para compor sua equipe no Ministério da Educação V. Exa. tenha
convidado os brasileiros que o fizeram ter essa imagem do nosso Povo. Ao
que parece, além de não conhecer os
brasileiros honestos que viajam a trabalho ou a lazer, V. Exa. não teve oportunidade de conversar e dar a devida atenção a
brasileiros que jamais andarão de avião e nem se hospedarão em hotéis, por não
terem recurso para isso. Garanto-lhe, Senhor Ministro, que são pessoas
maravilhosas! V. Exa. deveria conhecê-las e trabalhar arduamente para dar a elas educação gratuita e de qualidade,
garantir a elas o direito de estudar
numa Universidade, ao invés de dizer que o ensino
superior deve ser para uma “elite”.
V. Exa. acha que tem o
direito de dizer quem faz ou deve fazer parte da
“elite” intelectual
deste País?
Se se dedicasse a conhecer de verdade os brasileiros,
conversando também com as pessoas mais pobres, V. Exa. iria se surpreender e se
encantar com nosso Povo, iria descobrir que há pessoas não alfabetizadas que são muito mais inteligentes do que
Ministros de Estado. Não confunda,
Senhor Ministro, “escolaridade” ou “poder econômico” com “inteligência”.
Fiz essa introdução, Senhor Ministro, antes de dizer que sou
servidor público, professor universitário concursado, e que isso muito me
orgulha. Como servidor, cabe-me ensinar a V. Exa., caso ainda não saiba, que
temos o Código de Ética Profissional do
Servidor Público Federal, Decreto n. 1171 de 22 de junho de 1994. No
referido Decreto é citado que
“(…)
Tratar mal uma pessoa que paga seus tributos direta ou indiretamente significa
causar-lhe dano moral (…)”. No mesmo Decreto consta como um dos deveres fundamentais do servidor público:
(…)
ser cortês, ter urbanidade, disponibilidade e atenção, respeitando a capacidade
e as limitações individuais de todos os usuários do serviço público, sem
qualquer espécie de preconceito ou distinção de raça, sexo, nacionalidade, cor,
idade, religião, cunho político e posição social, abstendo-se, dessa forma, de
causar-lhes dano moral(…).
Na minha
modesta avaliação, V. Exa. está causando dano moral a todos nós brasileiros e demonstrando não ter nem preparo nem dignidade para
assumir o nobilíssimo cargo de Ministro de Estado da Educação. Não o
conheço, Senhor Ministro, mas caso seja do tipo de pessoa que tem arroubos
autoritários, cabe-me citar mais um dos
deveres fundamentais do servidor público, citado no Decreto n. 1171, que é
Escrevo, portanto, sem nenhum temor, pois estou agindo em
defesa do Povo brasileiro que foi ofendido por V. Exa. Cabe a mim essa atitude
como servidor público. É esse Povo de
quem V. Exa. tem uma imagem tão deturpada que paga nossos salários, é a ele que
devemos dar satisfação, é para ele que devemos trabalhar, é dele que
devemos cuidar.
É sempre
tempo de aprender, Senhor Ministro. Desejo que V. Exa. tenha
humildade para aprender algo ao ler esta carta escrita por um servidor público
vinculado ao Ministério da Educação. Espero também que outros servidores
públicos a leiam e que não se intimidem por superiores hierárquicos que não
honram o cargo que ocupam.
Atenciosamente,
Valter
Lúcio de Pádua
Universidade Federal de Minas Gerais
Professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental
Belo Horizonte, 3 de fevereiro de 2019.
Fonte: Blog
da Cidadania – Quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019 – Internet: clique aqui.
Grupo de escolas divulga carta crítica
ao
ministro da Educação
Clara Cerioni
Quatro instituições
de ensino pedem que Ricardo Vélez Rodriguez
não permita que «o
país entre numa rota de retrocesso»
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RICARDO VÉLEZ RODRIGUEZ Colombiano atual Ministro da Educação do Brasil |
Um grupo de escolas de elite, de São Paulo, Rio de Janeiro e
Minas Gerais, divulgou uma carta endereçada ao ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, pedindo atenção
especial à educação e para que ele não permita que “o país entre numa rota de
retrocesso”. [Note-se bem que não são escolas públicas
que criticam o ministro! Mas escolas de elite e para a elite! Lá também se ensina
marxismo??? (risos)]
Divulgado na última quarta-feira (2 de janeiro de 2019), o
documento é assinado pelas instituições Escola
Barão Vermelho (BH), Colégio
Mangabeiras Parque (BH), Escola
Parque (RJ), Escola da Vila (SP)
e Escola Viva (SP), que integram o
grupo de educação construtivista Critique.
Todas trabalham a educação com viés construtivista e são
consideradas colégio de elite, com mensalidades que giram em torno de 4 mil
reais.
Na carta, o grupo
critica as afirmações do chefe do MEC de que as escolas e os professores estão
infiltrados ensinando “ideologia de gênero” e “doutrinação marxista”. “Isso
soa como um discurso anacrônico que remete aos anos da
guerra fria no século 20. E é, mais uma vez, um deslocamento da questão realmente grave que é:
a da dificuldade de tornar as crianças e jovens
brasileiros aprendizes eficientes e preparados para os desafios do mundo atual”,
diz o texto.
Para os educadores, o
problema das escolas não são “ideologias de esquerda em sala de aula, mas a incapacidade
do sistema de conseguir que os alunos aprendam”. [Somente gente cega por ideologias não vê isso!!!]
O grupo cita a desvalorização
da figura do professor como uma das justificativas para o descrédito do
sistema. “Antes podemos nos lembrar da
ausência de apreço que se tem, no Brasil, pela escola e a pouca valorização que
se dá ao professor, à sua ação e formação”, escreve.
A carta cita um dos artigos de Vélez Rodriguez, intitulado
“Um roteiro para o MEC” (que não está mais disponível online) em que ele afirma
que se preocupa com “uma estrutura armada
para desmontar valores tradicionais da nossa sociedade, (…) da família, da
religião, da cidadania, em suma, do patriotismo”.
“Asseguramos
que o que existe, de fato, é a dificuldade de aprender dos alunos. Para tanto, os
professores não necessitam de vigilância, mas de formação
e de valorização”, reforça o texto das escolas.
Sobre as críticas ao Enem,
feitas tanto pelo ministro da Educação quanto pelo presidente eleito, Jair
Bolsonaro, o grupo afirma que “a prova
não é elaborada por pessoas mal-intencionadas que desejam prejudicar jovens”.
“A prova é construída por professores que tentam ligar o
conhecimento a diversos contextos, que é o que se busca hoje na educação
escolar. Quando Vossa Excelência diz que a ‘prova tem que avaliar realmente os
conhecimentos. O aluno não pode ter medo de levar pau’ não é claro como Vossa
Excelência significa o conhecimento. Para
nós, conhecer é conseguir aplicar o conhecimento em diversas situações, é
estabelecer relações entre os saberes, é saber usar na vida o que se aprendeu”,
afirma.
Pelo extenso currículo e biografia do ministro, as escolas
afirmam que “com tanto lastro
intelectual, é difícil acreditar que V. Excia considere a Escola sem Partido “providência fundamental”.
Para eles, quem defende o projeto é:
“um grupo de amadores, que carece de saberes básicos
sobre educação, e que divulga fantasias sobre influência de partidos políticos
sobre estudantes”.
Leia a carta na íntegra:
«Senhor Ministro da Educação,
Nossa longa e ampla
experiência na escola nos impele ao dever de contribuir para a atual discussão
sobre a educação escolar brasileira. Precisamos começar por esclarecer que o
problema de nossas escolas não são ideologias de esquerda em sala de aula, mas
a incapacidade do sistema de conseguir que os alunos aprendam. São muitas e
complexas as razões que trouxeram a Educação Básica aos péssimos resultados que
se repetem há alguns anos. Mas, certamente, entre as muitas principais delas,
não estão ideologias de esquerda. Antes podemos nos lembrar da ausência de
apreço que se tem, no Brasil, pela escola e a pouca valorização que se dá ao
professor, à sua ação e formação. Para citar apenas duas bastante relevantes.
A insistência em enfatizar
problemas ideológicos serve apenas para desviar o foco do problema real e
prejudica o aprimoramento da educação escolar, tão essencial para que o país se
torne viável. A Educação Básica é um
problema nacional importante e grave demais para que se reduza a acusações a
pretensas maquinações de esquerda.
Considerar que a escola ensina e a família e a igreja
promovem a educação moral é uma opinião desatualizada, pois o
desenvolvimento moral é inseparável do desenvolvimento intelectual, e a
educação das crianças não se limita a memorizar informações e fatos. O conhecimento existe em um contexto, numa
abordagem que, necessariamente, envolve o desenvolvimento emocional, social,
intelectual, moral e físico do aluno.
Confundir educação moral
– que temos como objetivo construir a autonomia do sujeito – com moral religiosa obscurece o
conhecimento e relega a aprendizagem a uma pedagogia transmissiva obsoleta.
Aguardamos de Vossa Excelência
um projeto coerente, fundamentado, lógico e sensato para enfrentar as dificuldades
da nossa educação escolar que precisa cumprir sua função de garantir que as
novas gerações compreendam e contribuam para o aperfeiçoamento da sociedade.
Não concordamos que – num país em que muitos alunos não
chegam a aprender a ler – se tenha como meta principal vigiar professores e
criar Conselhos de Ética, nas escolas, para “zelarem pela “reta” educação moral
dos alunos”. Excelência, escola é lugar
de falar de alfabetização, comunicação, pensamento lógico, científico,
humanidades, moral, tudo o que fundamenta o acervo cultural da humanidade. O pensamento moral implica transformação
interna do sujeito, que se constrói discutindo ações e conhecimentos, e não com
punição e obediência.
No texto “Um roteiro para o
MEC”, Vossa Excelência se preocupa com “uma estrutura armada para desmontar
valores tradicionais da nossa sociedade, (…) da família, da religião, da
cidadania, em suma, do patriotismo”. Asseguramos que o que existe, de fato, é a
dificuldade de aprender dos alunos. Para tanto, os professores não necessitam
de vigilância, mas de formação e de valorização.
Alertamos que a Escola sem Partido, que Vossa
Excelência considera “uma providência
fundamental”, não está atualizada com as pedagogias contemporâneas,
discutidas e estudadas em todos os países do mundo que se preocupam com formar
gerações que consigam interpretar a realidade, em sua complexidade, para lidar
com as transformações radicais decorrentes do mundo digital.
A acusação de que supostas
‘educação de gênero’ e ‘ideologia marxista’ estão infiltradas na escola soa
como um discurso anacrônico que remete aos anos da guerra fria no século 20. E
é, mais uma vez, um deslocamento da questão realmente grave que é a da
dificuldade de tornar as crianças e jovens brasileiros aprendizes eficientes e
preparados para os desafios do mundo atual.
O Brasil precisa se educar
para o novo mundo, criado pelas novas tecnologias, com questões demasiadamente
desafiadoras para a humanidade. Não há
tempo a perder com convicções vetustas [= antigas, antiquadas] que parecem
ignorar que a humanidade foi capaz de levar o homem à Lua, que é capaz de
manipular genes, descobrir curas para doenças, inventar máquinas que facilitam
a vida, tudo isso porque a espécie humana é dotada de mentes curiosas,
criadoras e inventivas. Essa capacidade
de pensar, discutir, refletir e trocar conhecimento trouxe a humanidade até
aqui. Cercear essa capacidade é preocupante e, mais ainda, se nossa
educação básica é sabidamente ruim, com
menos discussão, troca e reflexão certamente não vai melhorar.
Quanto ao exame do Enem, Senhor Ministro, a prova não é elaborada por pessoas
mal-intencionadas que desejam prejudicar jovens. Não, pelo contrário, a prova é construída por professores que
tentam ligar o conhecimento a diversos contextos, que é o que se busca hoje
na educação escolar. Quando Vossa Excelência diz que a “prova tem que avaliar
realmente os conhecimentos. O aluno não pode ter medo de levar pau” não é claro como Vossa Excelência significa
o conhecimento. Para nós, conhecer é conseguir aplicar o conhecimento em diversas
situações, é estabelecer relações entre os saberes, é saber usar na vida o que
se aprendeu. Não consideramos que
conhecimento são conteúdos memorizados e descontextualizados. Quanto ao
receio de o aluno de ser reprovado deve-se à má qualidade da educação escolar e não a intenções perversas de
quem corrige as provas.
Senhor Ministro, sua biografia
informa que é autor de mais de 30 obras e professor emérito da Escola de
Comando do Estado Maior do Exército. Também é mestre em pensamento brasileiro
pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ); doutor em
pensamento luso-brasileiro pela Universidade Gama Filho; e pós-doutor pelo
Centro de Pesquisas Políticas Raymond Aron. Com tanto lastro intelectual, é
difícil acreditar que V. Excia considere a Escola sem Partido “providência
fundamental”. Afinal, é um grupo de amadores, que carece de saberes básicos
sobre educação, e que divulga fantasias sobre influência de partidos políticos
sobre estudantes dentro de escolas de Ensino Fundamental e Médio. Com tanto embasamento cultural, esperamos
que Vossa Excelência não aceite esses ataques ao conhecimento.
Concordamos com sua opinião de
que “doutrinação não é boa para o aluno, nos primeiros anos, no ensino básico,
fundamental”, mas vamos mais longe: doutrinação
não é boa nunca. O que forma a consciência cidadã é a discussão e a dúvida, o que
é muito diferente de reprimir a expressão e incentivar a denúncia, ação
altamente deseducativa do ponto de vista moral.
Falar sobre gênero, senhor
ministro, é falar de um conceito moral muito mais amplo, que abrange ideais de
respeito e aceitação do outro, essenciais para o convívio. Todos têm a liberdade de ser como são, sem moldes determinados.
Isso é respeitar o indivíduo, sem regulamentação do que ele é por decreto,
numa interpretação oposta à que Vossa Excelência manifestou numa entrevista.
Saber que planeja melhorar as
condições do ensino, nas escolas municipais, para “resgatar a qualidade do
nosso ensino” é alvissareiro, porém ficou faltando esclarecer como isso será
proposto e realizado.
Como educadores que dedicaram
sua vida profissional à escola, pedimos
que Vossa Excelência não permita que o país entre numa rota de retrocesso, a
partir da instituição escolar. Para assegurar
a laicidade da educação, como prevista na constituição brasileira, pedimos
que não deixe que a exploração da
credulidade dos despossuídos, por meio da religião, se imiscua no processo da
educação escolar. O conhecimento e a cultura são patrimônio de um país. A
arte atravessa a História da Humanidade e é expressão de civilização, que não
pode ser demonizada.
E, com sua formação, Vossa
Excelência sabe que criacionismo e darwinismo não são histórias
equivalentes para serem objeto de opção. Crença
e conhecimento são coisas muito diferentes. Uma é fé, e outra é ciência.
Até aqui, senhor ministro, suas declarações deixaram a
desejar. Ainda aguardamos um plano criterioso que assegure a aprendizagem que vai
preparar nossas crianças e jovens para enfrentarem, entre outros muitos
desafios, o aquecimento global, as mudanças climáticas, as questões éticas da
manipulação genética, da inteligência artificial, e os muitos problemas ainda
desconhecidos, mas que sabemos que virão com a transformação cada vez mais
rápida da realidade.
Grupo Critique»
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