Por que os generais temem o Sínodo Pan-Amazônico
MARCELO BARROS
Monge
beneditino e biblista
O governo brasileiro manifesta preocupações e contrariedades
em relação ao próximo Sínodo dos Bispos em Roma sobre a região Pan-Amazônica (conferir,
clicando aqui).
Em artigo esclarecedor e contundente, Roberto
Malvezzi, publicado nesse blog [acima], explica o que é um Sínodo (caminhar
juntos) e como a Rede Eclesial Pan-Amazônica
(REPAM), em diálogo com o Vaticano e com os bispos locais dos oito países da região pan-amazônica tem
preparado o Sínodo.
De fato, desde que, depois do Concílio Vaticano II, o papa
Paulo VI restabeleceu a tradição do Sínodo dos Bispos, vinda do primeiro
milênio e a atualizou para a Igreja Católica do século XX, já tivemos mais de 35 sessões do Sínodo. Nessa perspectiva, é
importante saber o que se pode esperar do Sínodo sobre a Amazônia.
Não é de
forma alguma a primeira vez que, nessas últimas décadas, a Igreja Católica, em
Roma, realiza um sínodo sobre uma região particular do mundo. Já
tivemos duas assembleias extraordinárias do Sínodo
sobre a África (1994 e 2009). Na preparação do Jubileu do ano 2000, o papa
João Paulo II convocou e organizou assembleias especiais sobre a Europa (1999), assim como assembleias
para a Oceania (1997), Ásia (1998) e América (1997). Além disso, houve uma assembleia extraordinária do
Sínodo dos Bispos sobre o Oriente Médio
(2010). Assim, além das 25 assembleias
ordinárias do Sínodo que aconteceram desde 1969, dez foram extraordinárias e
delas, várias sobre regiões específicas.
É possível que o Sínodo da Amazônia traga algumas novidades.
Em geral, nas assembleias anteriores aqui citadas, os bispos sempre procuraram
se situar na realidade do continente ou da região que é o tema do Sínodo. No
entanto, o tema central e o foco de tudo tem sido a Igreja e sua missão. Assim,
as exortações pós-sinodais dos papas
em geral têm como título: A Igreja na
África, a Igreja na Ásia, a Igreja na Oceania etc. E por causa da
herança ou subsistência do que se poderia chamar de “eclesiologia de
Cristandade” , (isso é, uma Igreja que se olha como anterior e independente da
realidade, com uma missão que vem de fora e entra mais como do alto para
baixo), a impressão é que, em geral, a análise da realidade é sempre mais
genérica do que contextual, feita em linguagem cuidadosa que diz as coisas sem
dizer exatamente (diplomacia necessária a uma Igreja que se coloca a partir de uma
posição de poder e de mando).
Dessa vez,
o Sínodo tem como tema “A Amazônia, novos caminhos
para a Igreja e para uma ecologia integral”.
Há uma mudança no enfoque – o tema é a realidade e dessa realidade se reflete sobre a missão da
Igreja e se busca reconstruir uma Ecologia integral. E há ao menos uma
tentativa de que a Igreja (bispos, clero e povo) se coloque como serviço e a
partir de baixo e não de cima. Isso significa, parta da:
* comunhão com os mais pobres,
* escute o grito da Terra e dos povos da Amazônia,
* ameaçados em sua vida e oprimidos pela tragédia que é
o agronegócio, as madeireiras e as mineradoras, assim
como as formas depredadoras do capitalismo
nas cidades amazonenses e suas periferias.
Nessa visão, a Ecologia Integral não é um tema a parte ou
além da missão da Igreja. Se bem compreendida, a Ecologia integral é a própria missão
de uma Igreja servidora da
libertação da humanidade, da mãe Terra e de cada pessoa em sua integralidade,
como já, em 1968, afirmava a Conferência
dos Bispos Latino-Americanos em Medellín (5,15).
Se essa perspectiva ou mudança de ângulo de abordagem for
realmente respeitada e desenvolvida, o governo brasileiro pode ter razões de se
preocupar. E, embora somente no Brasil essa preocupação tenha sido explicitada,
provavelmente outros governos dos países da região devem ter as mesmas
preocupações.
Isso significa apenas que eles têm consciência clara de que as políticas que impõem à região pan-amazônica
vão no sentido contrário à perspectiva de uma Ecologia integral, como o
papa Francisco desenvolve na encíclica Laudato Si’ e como as discussões
preparatórias a esse Sínodo, vindas das consultas às bases dos diversos povos e
grupos da Amazônia, propõem.
É claro que Bolsonaro e seus ministros não precisam se
preocupar se a orientação espiritual do Sínodo fosse na perspectiva que fez com
que, em 2018, não poucos bispos, padres e movimentos católicos votassem na
extrema-direita. No entanto, a perspectiva não é essa. É de uma Igreja em saída no qual o Sínodo dos
Bispos tem sido preparado por ampla consulta de todos os setores e categorias
da Amazônia e lá em Roma com os bispos
estarão índios, ribeirinhos, missionários populares e mulheres da Amazônia,
de tal forma que o Sínodo dos Bispos
possa se ampliar cada vez mais como Sínodo
de todos os organismos vivos do Povo de Deus.
Na tradição litúrgica católica, na festa da Epifania, o
ofício de vésperas contém um hino antigo no qual se canta: “Hostis Herodes impie, Christum venire quid
times? Non eripit mortalia, qui regna dat caelestia”. (Na atual Liturgia
das Horas está traduzido assim: “Por
que, Herodes, temes, chegar o rei que é Deus? Não rouba aos reis da terra, quem
reinos dá nos céus”). Provavelmente, quem compôs esse hino não lia muito o
cântico de Maria (o Magnificat) ou o cantava pulando o verso que diz: “Derruba os poderosos de seus tronos e
eleva os humildes”.
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MARCELO BARROS Autor deste artigo |
O quarto evangelho conta que o sumo-sacerdote Caifás, inimigo de Jesus, profetizou que ele, Jesus,
deveria morrer não só pelo povo, mas para “reunir na unidade os filhos e filhas
de Deus dispersos pelo mundo” (Jo 11,52). Quem sabe, hoje, os Caifases atuais,
que se chamem com outros nomes e tenham patentes militares e estão no governo
brasileiro estejam profetizando que esse
Sínodo retomará o espírito de Medellín e provocará uma virada da nossa
Igreja e de outras Igrejas no caminho do serviço libertador da mãe Terra e dos
povos da Amazônia?
Do irmão Marcelo Barros
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