Conclusão do encontro sobre abusos na Igreja
Francisco encerra encontro no Vaticano
com promessa de que a Igreja irá
“enfrentar com decisão” os abusos
Joshua J. McElwee
National Catholic Reporter
24-02-2019
O Papa Francisco
encerrou sua cúpula com 190 bispos católicos
sobre os abusos
sexuais do clero, no dia 24 de fevereiro,
com uma promessa de
que a Igreja irá
“enfrentar com
decisão” o abuso de menores
![]() |
PAPA FRANCISCO preside a missa conclusiva do encontro com os bispos presidentes das conferências episcopais de todo o mundo - Vaticano, 24 de fevereiro de 2019 |
Mas também alertou que a instituição global deve evitar “as polêmicas
ideológicas e as políticas jornalísticas” que, segundo ele, exploram os
escândalos.
Em um longo discurso de encerramento do primeiro encontro
desse tipo, com os chefes das Conferências Episcopais do mundo inteiro, o pontífice condenou os abusos na Igreja e
fez referências à sua prevalência em outras áreas da sociedade, advertindo
contra o fato de a comunidade de fé ser muito radical em sua resposta.
Em um ponto no discurso de meia hora, o papa chamou os clérigos que abusam de crianças de “instrumentos de
Satanás” e declarou abertamente que tal comportamento criminoso “contrasta
com a sua [da Igreja] autoridade moral e a sua credibilidade ética”.
Em outro ponto, Francisco disse que, ao responder aos abusos,
a Igreja deve evitar o que ele chamou de
“extremo” do “justicialismo, provocado pela sensação de culpa pelos erros
passados e pela pressão do mundo midiático”.
“O objetivo da Igreja será o de escutar, tutelar, proteger
e cuidar dos menores abusados, explorados e esquecidos, onde quer que estejam”,
prometeu o papa.
Francisco, então, continuou: “A Igreja, para alcançar tal objetivo, deve se colocar acima de todas as
polêmicas ideológicas e as políticas jornalísticas que muitas vezes
instrumentalizam, por vários interesses, os próprios dramas vividos pelos
pequenos”.
Durante a cúpula de
quatro dias, o papa e os prelados concentraram suas discussões sobre três temas principais:
1. a responsabilidade,
2. a prestação de
contas e
3. a transparência.
Eles também ouviram testemunhos de sobreviventes de abuso e
também escutaram um dos sobreviventes tocar violino para eles em uma noite de liturgia penitencial no dia 23
de fevereiro.
![]() |
"Impressionante decepção" diante do resultado do encontro no Vaticano |
Sobreviventes de abusos e seus defensores rapidamente
criticaram o discurso de encerramento de Francisco por ter sido curto em
detalhes específicos sobre como a Igreja irá combater o abuso sexual.
Anne
Barrett Doyle, codiretora do site de rastreamento de abusos BishopAccountability.org, chamou o discurso de “uma impressionante decepção”. Ela
acrescentou: “Nós precisávamos que ele
oferecesse um plano ousado e decisivo. Ao contrário, ele nos deu uma
retórica defensiva e reciclada”.
Medidas
Em um briefing no
fim do dia 24 de fevereiro, o padre jesuíta Federico Lombardi anunciou quatro medidas que serão postas em prática
após a conclusão da cúpula.
Lombardi, que moderou a cúpula, disse que uma dessas medidas
seria a combinação de um novo motu proprio e de uma nova lei para “fortalecer a prevenção e a
luta contra os abusos” dentro da cidade-estado do Vaticano.
O jesuíta disse que a Congregação
para a Doutrina da Fé também publicará
um novo Vademecum, ou manual, para
“ajudar os bispos de todo o mundo a entender claramente os seus deveres e tarefas”
em relação ao combate aos abusos.
Francisco falou no dia 24 de fevereiro após a missa de
encerramento da cúpula no Palácio Apostólico. A homilia da missa foi proferida
pelo arcebispo australiano Mark Coleridge, que refletiu sobre como os prelados católicos
usaram mal o poder que lhes foi confiado.
“Mostramos muito pouca misericórdia e, portanto, receberemos
o mesmo, porque a medida que damos será
a medida que receberemos em troca”, disse Coleridge, presidente da
Conferência dos Bispos da Austrália. “Nós
não ficaremos impunes”.
![]() |
PAPA FRANCISCO discursa na missa conclusiva do encontro dos presidentes das conferências episcopais Domingo, 24 de fevereiro de 2019 |
Discurso do papa
Antes de abordar diretamente o abuso de crianças por membros
da Igreja em seu discurso posterior, Francisco passou os primeiros minutos de
seu discurso discutindo o impacto sociológico mais amplo do abuso. Citando um
estudo do Unicef de 2017 sobre os abusos em 28 países, ele observou que 9 em cada 10 meninas vitimizadas foram
abusadas por “uma pessoa conhecida ou próxima da família”.
O papa, então, falou de casos
de abuso cibernético e daquilo que ele chamou de “chaga da pornografia”, que ele disse ser “um fenômeno em constante
crescimento”, e do turismo sexual,
citando estatísticas da Organização Mundial do Turismo de 2017, segundo a qual três milhões de pessoas viajam a cada ano
em busca de relações sexuais com um menor.
“Estamos, portanto, diante de um problema universal e transversal, que infelizmente se encontra em
quase toda a parte”, disse Francisco. “Devemos ser claros: a universalidade de tal chaga, embora confirme a sua gravidade nas
nossas sociedades, não diminui a sua monstruosidade dentro da Igreja.”
Chegando ao abuso na Igreja, o pontífice disse que “não há explicações suficientes” para os
padres que agrediram crianças.
“Devemos reconhecer com humildade e coragem que estamos diante do mistério do mal, que
se enfurece contra os mais vulneráveis”, disse o papa.
“É por isso que, na Igreja, atualmente, aumentou a
consciência de ter que não só tentar conter os abusos gravíssimos com medidas
disciplinares e processos civis e canônicos, mas também enfrentar com decisão o
fenômeno, tanto dentro quanto fora da Igreja”, continuou.
O papa disse que, na raiva das pessoas pelo abuso, “a Igreja
vê o reflexo da ira de Deus, traído e esbofeteado por esses desonestos
consagrados”.
![]() |
CHARLES SCICLUNA arcebispo maltês, sub-secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé, encarregado dos casos de abuso contra menores |
Estratégias contra a violência
Francisco encerrou seu discurso com uma referência à iniciativa INSPIRE, da Organização Mundial da Saúde, que
propõe sete estratégias para acabar com a violência contra as crianças e, em
seguida, apresentou oito pontos que ele
afirma que a Igreja se concentrará a partir de agora para desenvolver o seu
“itinerário legislativo” sobre os abusos.
1º) O primeiro desses pontos foi uma
promessa de que as crianças serão
protegidas e de que ocorrerá uma
mudança de mentalidade “para combater
a atitude defensivo-reativa em salvaguarda da instituição, em benefício de uma
busca sincera e decidida do bem da comunidade, dando prioridade às vítimas de
abuso em todos os sentidos”.
2º e 3º) O segundo e
terceiro pontos foram um compromisso com
a “seriedade impecável” em casos de abuso e com uma “verdadeira purificação” na Igreja.
4º e 5º) O quarto e
quinto pontos consideraram a formação
dos padres e o “reforço e
verificação” das várias diretrizes de salvaguarda das Conferências
Episcopais.
“Nenhum abuso jamais deve ser encoberto, como era habitual
no passado, ou subestimado,
pois o encobrimento dos abusos favorece a disseminação do
mal e acrescenta mais
um nível de escândalo", disse Francisco.
6º) O sexto ponto referiu-se ao acompanhamento daqueles que sofreram abusos.
7º e 8º) O sétimo, ao abuso no mundo digital, e o oitavo, ao turismo sexual.
No sétimo ponto, Francisco propôs que as normas da Igreja
sobre pornografia infantil devem ser alteradas para elevar o limiar de idade
dos menores que aparecem em imagens pornográficas para acima dos 14 anos
atuais.
No briefing
posterior, no dia 24 de fevereiro, dois dos organizadores da cúpula sugeriram
uma nova mudança que Francisco pode estar levando em consideração: livrar-se do uso do sigilo pontifício, ou
confidencialidade, em casos de abuso.
O cardeal indiano Oswald
Gracias disse que essa é uma reforma para a qual a Igreja “certamente deve
olhar”. O arcebispo maltês Charles
Scicluna disse: “Não há nenhuma
necessidade dessa lei desproporcional, especialmente em relação a casos de
abuso sexual”.
Scicluna, que também é secretário-adjunto da Congregação
doutrinal, disse que, com a cúpula, a
Igreja foi clara para os bispos sobre como ela espera que eles lidem com casos
de abuso.
“Agora é um ponto muito
claro na política da Igreja que o abuso de menores é um crime hediondo, mas o
acobertamento também é”, disse o arcebispo. “Não há como voltar atrás.
Durante décadas, estávamos nos concentrando no crime. Mas também percebemos que
encobrir é igualmente hediondo.”
![]() |
IR. VERONICA OPENIBO Superiora das Irmãs do Santo Menino Jesus |
Discursos francos e diretos
A sessão final da cúpula sobre os abusos, no dia 23 de
fevereiro, foi marcada por discursos
francos e diretos aos prelados reunidos. As oradoras foram a Ir. Veronica Openibo, religiosa
nigeriana das Irmãs do Santo Menino Jesus, e da jornalista mexicana Valentina Alazraki, que cobriu o
Vaticano por cerca de 40 anos.
Openibo, superiora
da sua congregação e membro do conselho executivo da União Internacional das
Superioras Gerais, com sede em Roma, criticou
os padres que apoiavam seus coirmãos acusados em vez das vítimas e expressou
sérias preocupações sobre as atuais práticas de formação.
A irmã criticou eloquentemente o que chamou de uma cultura da “mediocridade, hipocrisia e
complacência”, que, segundo ela, levou a Igreja a “um lugar vergonhoso e
escandaloso”.
![]() |
VALENTINA ALAZRAKI Jornalista mexicana que cobre o Vaticano |
Alazraki, que fez
150 viagens ao exterior com os papas desde João Paulo II, disse que os
profissionais da sua área podem ajudar os bispos a erradicar as “maçãs podres e a vencer a resistência para separá-las das
saudáveis”.
Ela também fez uma promessa.
“Se vocês não se decidirem de maneira radical a estar do lado
das crianças, das mães, das famílias, da sociedade civil, vocês têm razão em
ter medo de nós, porque nós,
jornalistas, que queremos o bem comum, seremos os seus piores inimigos”,
disse ela aos prelados.
Traduzido do inglês por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original do artigo, clicando aqui.
Comentários
Postar um comentário