VENEZUELA: o uso político da miséria!
“O que está acontecendo nas fronteiras
da Venezuela não é fornecimento de ajuda humanitária, mas o uso político dela”
Astrid Prange
Deutsche Welle
22-02-2019
Revoltante e
irresponsável. E de ambos os lados.
O que está
acontecendo nas fronteiras da Venezuela não é fornecimento
de ajuda humanitária,
mas o uso político dela.
Isso é um crime!
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Venezuelanos atravessam a fronteira com a Colômbia e se dirigem à Cúcuta na tentativa de sobreviver |
Vamos deixar uma coisa bem clara: a população da Venezuela precisa de ajuda humanitária. O número de
pessoas que luta pela simples sobrevivência aumenta a cada dia, e o
fornecimento de alimentos e medicamentos é uma catástrofe no país.
Tanto pior, portanto, que o autointitulado presidente interino Juan
Guaidó e seus apoiadores abusem da ajuda humanitária e a usem como
instrumento de poder. Aparecer do lado de pacotes de comida para bebê rende
boas imagens para a televisão, mas pouca credibilidade política.
Pior ainda
é o presidente Nicolás Maduro. O
sucessor de Hugo Chávez arruinou economicamente o país, e de forma sistemática.
Ele mandou prender os adversários políticos, tirou poder do Parlamento, que é
dominado pela oposição, e abandonou a
população à própria sorte.
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DOIS PRESIDENTES: UM ELEITO FRAUDULENTAMENTE E OUTRO AUTOPROCLAMADO Nicolás Maduro (à esquerda) e Juan Guaidó (à direita) |
Agora, a ajuda humanitária deve servir, para os dois lados,
de cobertura para o fracasso político. As
sanções contra o regime de Maduro, impostas desde 2015 pelos Estados Unidos,
não tiveram o “sucesso” esperado, ou seja, a queda do “Socialismo do Século
21”.
Elas apenas aceleraram
o declínio da Venezuela e empurraram
Maduro cada vez mais para os braços de Moscou e Pequim. Na semana passada,
Maduro falava que não havia fome na Venezuela. Agora, ele anuncia, às vésperas
do embate de 23 de fevereiro, que 300 toneladas de ajuda humanitária estão
chegando da Rússia.
A Rússia é
o principal aliado da Venezuela. Já nos tempos de Chávez, o Kremlin
enviava armas para as Forças Armadas venezuelanas. Além disso, Caracas deve 12 bilhões de dólares para
Moscou – como garantia para empréstimos, a Venezuela empenhou nada menos
que a metade das ações da Citgo, uma rede de postos de
gasolina nos Estados Unidos que pertence à estatal petrolífera PDVSA.
A Rússia
tem, com isso, dois trunfos contra o presidente Donald Trump:
1) por meio da Citgo, pode influenciar o
abastecimento de combustíveis nos Estados Unidos; e,
2) por meio da presença na Venezuela, se estabeleceu
como importante ator internacional,
ao lado da China e dos Estados Unidos, na América Latina.
O mais novo exemplo é o veto
da Rússia no Conselho de Segurança da ONU, na semana passada. À resolução
dos Estados Unidos que exigia novas eleições e ajuda humanitária, Moscou
contrapôs seu próprio projeto de resolução.
O imbróglio
deixa antever um retorno à Guerra Fria. Que ela tenha como palco
justamente a América Latina é especialmente trágico. Afinal, a confrontação
entre os Estados Unidos e a Rússia foi oficialmente encerrada apenas em 2014,
com a normalização das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba.
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PROGRAMA ALIMENTAR MUNDIAL (PAM) DAS NAÇÕES UNIDAS: avião sendo abastecido de víveres e suprimentos variados para vítimas de furacão Aeroporto de Kuala Lumpur (Malásia) |
Como a ajuda poderia ser realizada
Se houvesse um real
interesse em enviar ajuda humanitária para a população da Venezuela, agências da ONU, como o Programa Alimentar Mundial, poderiam levar alimentos para o país –
se necessário, com um mandato do Conselho de Segurança. Organizações de ajuda humanitária americanas e russas, bem como doadores de todo o mundo, poderiam
entregar suas remessas para a ONU em vez de usá-las para elevar a divisão política dentro do
país.
E ainda mais importante: o
governo da Venezuela poderia, ele mesmo, pedir ajuda à comunidade internacional.
Ajuda humanitária também poderia ser transportada a pé, por voluntários, por
outros pontos da fronteira além de Cúcuta – sem toda essa cobertura midiática.
O atual uso
político da ajuda humanitária é tudo menos humanitário. Ele faz
uma população inteira refém e transforma quem presta ajuda humanitária em
cúmplice de uma acirrada disputa política de poder. Isso é um crime.
Fonte: Deutsche
Welle – Mundo/Opinião – Sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019 – Internet:
clique aqui.
Venezuela
é uma fria
Eliane Cantanhêde
Jornalista
Impasse: o Brasil não
pode lavar as mãos nem vai usar a
força militar, mas
qual a alternativa?
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ANTÔNIO HAMILTON MOURÃO Vice-presidente da República do Brasil |
Direto e realista, como sempre, o vice-presidente Hamilton Mourão admite que “um dos cenários na Venezuela é de guerra
civil, o que pode respingar para todo lado”. Ele ressalva que, mesmo
assim, trata-se de uma questão interna
do país vizinho e cabe à ONU
interferir, não ao Brasil.
“Enquanto eles
continuarem matando uns aos outros, a gente não pode fazer nada”, disse
Mourão, que viaja ainda neste domingo para Bogotá, na Colômbia, para a reunião,
amanhã [segunda-feira], em que o Grupo
de Lima discutirá a situação de emergência na Venezuela.
Uma das grandes preocupações do governo brasileiro é com o grau de beligerância entre Venezuela e
Colômbia. Segundo Mourão, que é general de exército, “80% do dispositivo militar venezuelano é voltado para a fronteira com a
Colômbia. Na fronteira com o Brasil, tudo o que Maduro tem é uma brigada de
engenharia de selva muito capenga”.
O Grupo de Lima foi criado justamente por causa da dramática
crise venezuelana e, dos seus 14 países, só um, o México, se manteve aliado ao
inacreditável Nicolás Maduro e se recusou a reconhecer Juan Guaidó como
presidente interino. Além de Mourão, a reunião contará também com a presença de
presidentes da região e do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence. Os
dois vices discursarão.
Maduro pode ser louco, irresponsável e patético, deu um
xeque-mate na comunidade internacional e jogou a Venezuela no centro de uma
delicada questão geopolítica. Ilhado,
rejeitado por meia centena de países, ele contrapôs Estados Unidos, de um lado,
e China e Rússia, de outro. E o Brasil, como a Colômbia, foi arregimentado
por Washington para agir.
Parece
absurdo, mas as potências reagem ao colapso da Venezuela, que mata pessoas e
gera o êxodo de milhares de famílias, como questão
meramente ideológica. Os Estados Unidos tentam recuperar a velha hegemonia
na América Latina, a China e a Rússia usam o pobre país contra a grande
potência, ou contra um mundo unipolar.
A ação
brasileira, a reboque dos Estados Unidos,
combina com o discurso de campanha do presidente Jair Bolsonaro e com os
escritos do chanceler Ernesto Araújo, mas deixa setores produtivos,
exportadores e até oficiais de alta patente de cabelo em pé. Segundo um deles,
que não quis se identificar, “nós
entramos numa fria”. E explicou:
“Não faz
muito sentido essa aliança tão incondicional com os Estados Unidos.
Qualquer consequência negativa (da ação na Venezuela)
não vai recair sobre eles,
vai recair sobre nós”.
A verdade é que era impossível simplesmente lavar as mãos
diante do caos na Venezuela, mas são poucas as alternativas. As pontes
diplomáticas implodiram, uma invasão militar é fora de cogitação e não dá para
recuar. O impasse é que o Brasil tem de
fazer alguma coisa, mas não tem ideia do que fazer.
Um grande complicador, como reconhece o vice Mourão, é a falta de canais com o governo e as
instituições venezuelanas. “Estamos
sem informações fidedignas, sem ter com quem falar e em quem confiar”,
admitiu. Como já dito neste espaço, militares
brasileiros olham com desconfiança os venezuelanos, considerados muito
vulneráveis à corrupção.
Quanto mais o regime fazia água, mais oficiais iam sendo
promovidos e hoje há 1.300 generais, o
que seria cômico, não fosse trágico. Essa gente toda está pendurada na
PDVSA (a petroleira equivalente à Petrobrás), nos projetos e obras ao longo do
Rio Orinoco, em confortáveis embaixadas mundo afora.
Quem sofre
é o povo, como sempre na história. A Venezuela virou um bunker de
Maduro, enquanto Brasil, Colômbia e Chile, entre outros, quebram a cabeça para
intervir sem uso de armas. “Ninguém vai
entrar numa canoa furada”, diz Mourão, rechaçando ação militar. Ainda bem,
mas só fazer show na fronteira não vai
resolver nada. Qual a alternativa?
[Comentário
pessoal: A alternativa é a diplomática, sempre! De nada serve encurralar Nicolás Maduro
com ameaças, pois quanto mais acuado ele se sentir, mais resistirá! Será
necessário oferecer-lhe uma via de saída do poder que não lhe seja,
completamente, desfavorável, a bem do povo que sofre e morre! Em seguida, assim
que possível, deverão ocorrer eleições para todos os cargos, de presidente até
prefeitos, pois o país está passando por uma crise insolúvel de credibilidade!
Isso porque, o atual autoproclamado Presidente da Venezuela – Juan Guaidó – não
foi eleito para este cargo, na realidade!]
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