6º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho:
Lucas 6,17.20-26
Naquele tempo:
17Jesus desceu da montanha com os
discípulos e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e
grande multidão de gente de toda a Judéia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e
Sidônia.
20 E, levantando os olhos para os seus
discípulos, disse: «Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de
Deus!
21 Bem-aventurados, vós que agora
tendes fome, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque
havereis de rir!
22 Bem-aventurados, sereis, quando os
homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome,
por causa do Filho do Homem!
23 Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois,
será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os antepassados
deles tratavam os profetas.
24 Mas, ai de vós, ricos, porque já
tendes vossa consolação!
25 Ai de vós, que agora tendes
fartura, porque passareis fome! Ai de vós, que agora rides, porque tereis luto
e lágrimas!
26 Ai de vós quando todos vos elogiam!
Era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas.
JOSÉ ANTONIO PAGOLA
Biblista
espanhol
LEVAR
A SÉRIO OS POBRES
Acostumados a escutar as
«bem-aventuranças» tal como aparecem no Evangelho de Mateus, torna-se
difícil aos cristãos dos países ricos [e a todos os ricos de qualquer outro
lugar] ler o texto que nos oferece Lucas. Ao que parece, este evangelista
e não poucos de seus leitores pertenciam a uma classe abastada. No entanto, longe
de suavizar a mensagem de Jesus, Lucas a apresentou de maneira mais provocativa.
Ao lado das
«bem-aventuranças» aos pobres, o evangelista recorda as «mal-aventuranças» aos
ricos: «Felizes vós, os pobres... vós que agora tendes fome... vós que agora
chorais». Porém, «Ai de vós, os ricos... os que agora estais saciados...
os que agora rides». O Evangelho não pode ser ouvido de igual modo por todos.
Enquanto, para os pobres, é uma Boa Notícia que os convida à
esperança, para os ricos é uma ameaça que os chama à conversão.
Como escutar essa mensagem em nossas comunidades cristãs?
Antes de mais nada, Jesus nos
coloca diante da realidade mais pungente que há no mundo, aquela que mais
lhe fazia sofrer, a que mais chega ao coração de Deus, a que está
mais presente diante de seus olhos. Uma realidade que, a partir dos mais ricos,
tratamos de ignorar e silenciar sempre, encobrindo de mil maneiras a injustiça
mais cruel e desumana da qual, em boa parte, também somos culpados.
Queremos continuar
alimentando o autoengano ou abrir os olhos para a realidade dos pobres? Temos vontade de verdade? Levaremos, alguma vez, a
sério essa imensa maioria dos que vivem desnutridos e sem dignidade, dos que
não têm nem voz nem poder, dos que não contam para nossa marcha ao bem-estar?
Os cristãos não descobriram,
ainda, toda a importância que podem ter os pobres na história do
cristianismo. Eles nos dão mais luz que ninguém para vermos em nossa
própria verdade, sacodem nossa consciência e nos convidam permanentemente à
conversão. Eles podem nos ajudar a configurar a Igreja do futuro de maneira
mais evangélica. Podem nos tornar mais humanos e mais capazes de
austeridade, solidariedade e generosidade.
O abismo que separa ricos e
pobres segue crescendo de maneira imparável. No futuro, cada vez será mais
impossível apresentar-se diante do mundo como Igreja de Jesus ignorando os mais
fracos e indefesos da Terra. Ou levamos a sério os pobres ou esquecemos o
Evangelho. Entre os mais ricos da Terra será cada vez mais difícil escutar a
advertência de Jesus: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro».
Será insuportável para eles!
BEM
CLARO
Jesus não possuía poder
político nem religioso para transformar a situação injusta que seu povo vivia. Tinha
somente a força de sua palavra. Os evangelistas recolheram, um depois do
outro, os gritos que Jesus foi lançando pelas aldeias da Galileia em diversas
situações. Suas bem-aventuranças ficaram gravadas para sempre em seus
seguidores.
Jesus se encontra com pessoas
empobrecidas que não podem defender suas terras dos poderosos
latifundiários e lhes diz: Felizes vós que nada tendes, porque vosso rei é
Deus. Vê a fome de mulheres e crianças desnutridas, e não pode reprimir-se:
Felizes vós que agora tendes fome, porque ficareis saciados. Vê chorar
de raiva e impotência os camponeses, quando os coletores de impostos levam
o melhor de suas colheitas e os anima: Felizes vós que agora chorais, porque
havereis de rir.
Não é tudo isso uma
zombaria? Não é cinismo? Seria,
talvez, se Jesus lhes falasse a partir de um palácio de Tiberíades ou uma vila
de Jerusalém, porém, Jesus está com eles. Não leva dinheiro, caminha
descalço e sem túnica de reserva. É um indigente a mais que lhes fala com fé
e convicção total.
Os pobres o compreendem. Não
são felizes por causa de sua pobreza. Sua miséria não é um estado invejável nem
um ideal. Jesus chama-os de felizes porque Deus está do lado deles. O
sofrimento deles não durará para sempre. Deus lhes fará justiça.
Jesus é realista. Sabe, muito
bem, que suas palavras não significam, agora mesmo, o final da fome e da
miséria dos pobres. Porém, o mundo tem que saber que eles são os filhos
prediletos de Deus, e isto confere à sua dignidade uma seriedade absoluta.
Sua vida é sagrada.
É isto que Jesus quer deixar bem claro em um mundo injusto:
* os que não
interessam a ninguém, são os que mais interessam a Deus;
* aqueles que nós
marginalizamos são os que ocupam um lugar privilegiado em seu coração;
* os que não têm
quem os defenda, têm a ele como Pai.
Quem vive acomodado na sociedade
da abundância não tem direito de pregar a ninguém as bem-aventuranças de Jesus. O que temos de fazer é escutá-las e começar a enxergar
os pobres, os famintos e os que choram, como os vê Deus. Daqui pode nascer
nossa conversão.
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.
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