O que a Igreja deve fazer diante dos abusos?
Entrevista com Valentina Alazraki,
convidada a falar no Vaticano sobre
“a proteção dos menores na Igreja”
Elena Llorente
Página/12
23-02-2019
Convidar uma mulher
para falar sobre as feridas da Igreja
é convidar a Igreja a
falar de si mesma sobre suas feridas
![]() |
VALENTINA ALAZRAKI Jornalista e escritora mexicana que trabalha cobrindo notícias do Vaticano |
Ser mulher na Igreja, ter um papel importante, nunca foi
fácil. E as mulheres que trabalham para o Vaticano reconhecem isso. Algumas
coisas começaram a mudar com o Papa Francisco. E neste encontro internacional sobre abusos sexuais, “A proteção dos menores na Igreja”, que está acontecendo no
Vaticano, três mulheres foram convidadas a expor suas reflexões sobre o tema.
Uma europeia, uma africana e uma latino-americana. “Convidar uma mulher para
que fale não é entrar na modalidade do feminismo eclesiástico (...). Não. Convidar uma mulher para falar sobre as
feridas da Igreja é convidar a Igreja a falar de si mesma sobre suas feridas
(…) Porque a Igreja é mulher, esposa e mãe”, disse ontem à tarde o Papa
Francisco depois que falou a primeira mulher no encontro, a professora Linda
Ghisoni. E depois acrescentou: “Trata-se
de integrar em nosso pensamento a mulher como figura da Igreja”.
Valentina
Alazraki, jornalista e escritora mexicana, correspondente de Noticieros Televisa na Santa Sé, é a
latino-americana que interveio na conferência que conta com a participação de 190 bispos, cardeais,
freiras e prelados de todo o mundo. Autora de vários livros como Em nome do amor, A luz eterna, Viagem ao
coração da fé, México sempre fiel,
entre outros, Alazraki, que conversou com Página
12, vive na Itália desde 1974 e é
possivelmente a jornalista mulher que fez mais viagens com os pontífices dos
últimos decênios: 100 das 104 viagens apostólicas de João Paulo II, todas
as de Bento XVI e todas as de Francisco.
Eis a entrevista.
O que você pensa acerca do que está acontecendo no
Vaticano sobre o tema dos abusos?
Valentina
Alazraki: O que me
parece importante é que, pela primeira vez, estão reunidos bispos de todo o
mundo para tratar deste tema. Porque, depois de ter falado com bispos de
diferentes países, tive a impressão de que a sensibilidade a respeito deste
tema é muito diferente, muito variada. Há países onde os bispos tomaram
consciência do problema e estão tratando de resolvê-lo. E há nações onde ainda
hoje os bispos dizem que não é um problema de seu país. Surgiram centenas de casos em alguns países e, em outros, a Igreja nem
sequer assume o problema. Creio que esta diversidade cria graves problemas.
Não acredito que num passe de mágica sairão desta reunião no Vaticano crendo
que o problema existe em todos os lados. O
primeiro passo é que assumam que se trata de um problema global. Se não
explodiu é porque não se falou, porque as vítimas não tiveram a coragem de sair
para denunciar.
Quais são os pontos que você considera imprescindíveis
para um futuro plano de trabalho da Igreja neste âmbito?
Valentina
Alazraki:
Cada país é diferente. O Vaticano tem normas já elaboradas, mas que não
se aplicam ou se aplicam mal. Por isso é
necessário o vade-mécum do qual o Papa Francisco falou no primeiro dia do
encontro. Assim todos entenderão qual é o procedimento que deve ser
seguido. É preciso que se esclareça além de um ponto vital, que é a colaboração com as autoridades civis.
É necessário deixar bem claro qual é a
responsabilidade do bispo perante a justiça civil. O outro tema é a relação
com as vítimas. Se as vítimas não são a prioridade, não saberão como enfrentar
o problema. As vítimas não são inimigas da Igreja.
![]() |
MARCIAL MACIEL - sacerdote mexicano, fundador dos "Legionários de Cristo" cumprimenta o Papa João Paulo II |
Qual é a situação do México em matéria de abusos sexuais?
Valentina
Alazraki:
No México o grande problema foi Marcial
Maciel (fundador dos Legionários de
Cristo, acusado de pederastia e
de ter tido duas mulheres e filhos e
obrigado pelo Vaticano a se retirar para uma vida de oração em 2006. Morreu
logo depois). Depois dele vieram à tona casos isolados. O presidente da
conferência episcopal mexicana, que se chama Rogelio Cabrera, e que está em Roma, disse que houve 152 sacerdotes afastados do sacerdócio. Mas não se conhecem
os nomes. Esta é a ponta do iceberg. Talvez ainda não apareceram todos os
casos. Não se sabe nem sequer quantos são porque cada diocese tem sua
jurisdição. Uma diocese não sabe nada sobre o que aconteceu na outra, mesmo que
pertençam à mesma conferência episcopal. E este é um problema porque cada bispo se resolve diretamente com o
Vaticano. Por isso no México se está pedindo que a conferência episcopal
tenha uma maior autonomia com relação ao Vaticano. Esta é outra coisa que teria
que ser resolvida para poder fazer um mapa da situação em um determinado país.
Depois de todos esses anos de seu trabalho no Vaticano,
ficou sabendo de muitas denúncias?
Valentina
Alazraki:
Não tenho provas de que foram muitas ou poucas. Somente conheci os casos
grandes. Mas não tenho elementos para dizer que por trás deles houve outros
casos. De qualquer maneira, na Igreja existe um sistema, e no Vaticano também,
de cima para baixo, que faz pensar que talvez houvesse mais casos de
encobrimento. Mas isto é só uma teoria.
Para você, qual é a medida imediata que o Vaticano
deveria tomar?
Valentina
Alazraki:
Há várias, mas a transparência é
uma delas. Nesta crise um dos problemas que temos visto é o da comunicação.
Quando não há transparência, as pessoas pensam que todas as acusações são
reais, mesmo que não estejam provadas. A credibilidade da Igreja não só tem
sido posta em questão pelos abusos e pelos encobrimentos dos abusos, como
também pela falta de transparência no
momento de comunicar os fatos. Quando se prefere o silêncio, as pessoas
pensam que alguém está escondendo algo. Também o quanto antes deve ser
esclarecida a relação com a justiça civil.
Traduzido do espanhol por Graziela Wolfart. Acesse a versão
original do artigo, clicando aqui.
Comentários
Postar um comentário