Extinguindo o Planeta & eliminando vidas!
A técnica na
sofisticada marcha da humanidade
em direção ao
precipício
Márcio Seligmann-Silva
Professor titular de Teoria Literária do Instituto de Estudos da
Linguagem da Unicamp
Modelo
de desenvolvimento conduz a sacrifício da vida e
destruição
da natureza, escreve autor
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MÁRCIO SELIGMANN-SILVA |
De certo modo, a história
da técnica se confunde com a história da humanidade. Tornamo-nos humanos na
medida em que nos separamos da natureza: ao menos esse é o nosso mito
originário “ocidental”. Prometeu presenteou a humanidade com o fogo, ou
seja, com o saber técnico, e foi castigado por isso. Zeus não o perdoou
por tornar os humanos inteligentes como os deuses.
Já em outro veio poderoso
dessa tradição, no Antigo Testamento, quando, no Gênesis, Deus nos
expulsou do Paraíso, condenou-nos ao trabalho duro e a suar para podermos
garantir o nosso sustento. Segundo o relato, Ele nos deu vestes, os primeiros
produtos de uma técnica ainda divina. O homem trabalhador é o homem que vai
depender cada vez mais de técnicas.
Por outro lado, é notório que
desde o início do século 19, com a Revolução Industrial, a técnica
sofreu uma abrupta mudança em sua natureza. De meio de garantir a
sobrevivência humana na face da Terra, ela foi acoplada a um projeto
capitalista que em pouco tempo — 200 anos diante dos mais de 5 bilhões de
anos da Terra e de dezenas de milênios de existência do que podemos chamar de
humanidade — transformou o planeta a tal ponto que ele não só está
irreconhecível, como à beira de um colapso.
Desde seu nascimento, essa
técnica moderna dividiu as opiniões entre entusiastas e críticos. Dentre estes
últimos, havia tanto uma corrente conservadora como uma de tendência
transformadora, que percebia na técnica capitalista apenas uma perversão
dos verdadeiros e revolucionários potenciais da técnica.
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JOHANN WOLFGANG VON GOETHE (1749-1832) Estadista, cientista e escritor alemão |
Na primeira categoria, Goethe,
em 1825, ou seja, de dentro de uma Alemanha ainda fragmentada em pequenos
Estados e predominantemente agrícola, queixava-se em carta a seu amigo Zelter:
“Riqueza e rapidez, eis o que o mundo admira e o que
todo o mundo quer. Ferrovias, correio expresso, navios a vapor, e todas as
possíveis facilidades de comunicação são as coisas que o mundo culto deseja a
fim de se sofisticar e assim permanecer na mediocridade”. Incrível a
atualidade dessas palavras, de quase 200 atrás.
No final de sua obra máxima,
o “Fausto”, Goethe imagina justamente esse moderno homem empreendedor,
desapropriando e atropelando os mais frágeis economicamente para abrir terreno
para a agricultura, conquistando terras à água por meio de um dique. Ele
não deixa, porém, de destacar o tema da arrogância dessa empreitada e do seu
risco: “Cá dentro é um paraíso a terra nossa;/ Que suba lá fora a maré
furiosa,/ E se, violenta, tentar abrir brecha,/ Em comum esforço acorre o povo
e a fecha”.
O capitalismo e sua
técnica já eram vistos pelo velho Goethe, portanto, como ambíguos portadores de
belas invenções e de altos riscos.
Represas estavam na origem da riqueza e do terror. Também aqui encontramos uma
macabra contemporaneidade. Diques e represas são marcos decisivos na história
da técnica, símbolos da domesticação da natureza e de sua força.
Pouco mais de um século
depois, Walter Benjamin, que admirava e citava essas passagens de Goethe
mencionadas aqui, lapidou a máxima nas suas famosas teses “Sobre o Conceito
da História”, de 1939: “Nunca houve um documento da cultura que não
fosse simultaneamente um documento da barbárie”.
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WALTER BENEDIX SCHÖNFLIES BENJAMIN (1892-1940) foi um ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão |
Não há, portanto, nenhum
motivo para que nos surpreendamos diante das catástrofes tecnológicas: elas
fazem parte do programa e, devido à rápida velocidade do avanço da técnica
predatória, devem ser cada vez mais aniquiladoras e frequentes. A menos, é
claro, que a humanidade — ou aqueles que decidem por ela — desperte para a necessidade
de puxar um freio nesse percurso em direção ao abismo.
Para Benjamin, essa
técnica moderna, que denominou de “primeira técnica”, tem como fim o
sacrifício da vida, a destruição, o controle e a dominação da natureza que leva
à sua asfixia. A vanguarda dessa técnica, não por acaso, é a indústria
armamentista. Ela leva a uma política da morte, tanatopolítica, à nossa autoaniquilação.
Nas palavras de Benjamin: “Para que falar de progresso a um mundo que afunda
na rigidez cadavérica? (...) Deve-se fundar o conceito de progresso na
ideia da catástrofe”.
Nessa mencionada linhagem de
crítica positiva, ele sonhou com uma “segunda técnica”, emancipadora,
calcada em um jogo com a natureza e que nos libertaria das penas do trabalho.
Em sua visão, a fotografia e o cinema seriam os exemplos principais: duas
técnicas que alargam o nosso campo de ação, nos empoderam, ao invés de
destruírem as naturezas interna (tornando o homem alienado) e externa (acabando
com a nossa “casa”): “A técnica não é dominação da natureza: é dominação da
relação entre natureza e humanidade”.
Benjamin criticou o conceito
utilitarista da social-democracia de um Josef Dietzgen, que via no
trabalho apenas um meio de conquista e submissão da natureza: “Já estão
visíveis, nessa concepção, os traços tecnocráticos que mais tarde vão aflorar
no fascismo”.
Ou seja, essa concepção
capitalista (e mesmo a social-democrata) do trabalho associa-se à “primeira
técnica” e tem a sua figura máxima no fascismo. Esse raciocínio de
Benjamin também se revela acurado e profético. Como anotou em 1948 Robert
Antelme, que lutou na resistência à ocupação nazista na França: “Quando
o pobre torna-se proletário, o rico torna-se SS”.
Aparentemente, a marcha incontornável da humanidade em direção
ao precipício
(em regimes capitalistas puros, nos de capitalismo de Estado e nos
que tentaram, de modo infeliz, a ditadura dos partidos comunistas)
não pode ser alterada sem um levante de uma população que,
lamentavelmente,
parece cada vez mais fascinada pelo mundo da técnica e dos gadgets.
Como no mito dos lemingues
que se suicidam no mar, nossa espécie supostamente racional faria algo
semelhante por meios mais “sofisticados”.
Benjamin, novamente, criticando o modelo de progresso incorporado inclusive
pelo marxismo, anotou: “Marx afirma que as revoluções são as locomotivas da
história do mundo. Mas talvez isso seja totalmente diferente. Talvez as
revoluções sejam o freio de emergência da humanidade que viaja neste trem”. Se
não soubermos responder ao Kairós, ao tempo oportuno, para ceder a esse
reflexo de puxar o freio, poderá ser tarde demais.
A chamada “força do mercado”,
esse “quarto poder” que efetivamente manda e desmanda no mundo, está calcada
nesse modelo de técnica predadora sem o qual as indústrias (e suas ações
no mercado) não existiriam.
O capitalismo se alimenta da Terra,
mas desconsidera que esta mesma Terra
é finita e está sendo exaurida.
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HANS JONAS (1903-1993) filósofo alemão de origem judia |
O filósofo Hans Jonas
dedicou os últimos anos de sua longa vida (1903-1993) à construção de uma nova
ética da responsabilidade à altura desses desafios contemporâneos. Ele
afirmava que “não temos o direito de hipotecar a existência das gerações
futuras por conta de nosso comodismo” e propôs uma virada.
Ao invés de construir um
modelo calcado no presente, com o objetivo do viver bem e da felicidade
conectados ao aqui e agora, estabeleceu o desafio de construir uma ética do
futuro: da destruição da casa-Terra, ele deduz o imperativo de salvar essa
morada para garantir a possibilidade de vida futura.
Em vez de apostar no modelo liberal do progresso infinito a qualquer
custo ou de acreditar na promessa revolucionária que traria de um golpe o
“paraíso sobre a Terra”, ele aposta em um “summum bonum” moderado, modesto, o
único possível para a nossa sobrevivência. Fala de um “princípio de moderação”, reconhecendo que a conta
deveria ser paga pelos que mais possuem.
Hoje, podemos dizer que esse
futuro que ele desenhava, ou seja, esse tempo já sem muito tempo de sobrevida,
tornou-se o nosso tempo. Sua “heurística do medo” — a saber, uma pedagogia da
humanidade que se transformaria a partir do confronto com a visão medonha de
seu fim muito próximo — soa ainda poderosa, mas um tanto inocente, mesmo
reconhecendo que suas ideias influenciaram protocolos como o Acordo de Paris,
de 2015.
Observando a sequência de
crimes socioambientais, parece que essa heurística não está rendendo frutos. Não
aprendemos com as catástrofes, e isso nos levará, caso não alteremos nosso
curso, à catástrofe final. Ou seja, a emoção do medo do Armagedom está
sendo vencida pela razão instrumental e sua promessa (distópica) de transformar
a natureza em mercadoria.
A questão é:
quem vai estar aqui para consumir quando apenas
50 bilionários tiverem a mesma riqueza que 6 bilhões de habitantes
da Terra
e, pior, quando a Terra estiver chapinhando no cafarnaum
a que nos leva esse modelo de progresso?
Diretora da Oxfam
Internacional, Winnie Byanyima tem repetido que os 26 bilionários
mais ricos do mundo possuem o mesmo que os 3,8 bilhões de habitantes mais
pobres dessa bola azul. A entropia [= desordem, caos] ecológica e a
social caminham de mãos dadas e devem ser combatidas juntas.
Um lamentável e terrível
exemplo da situação em que nos encontramos em termos dessa submissão a um
determinado modelo liberal associado a uma técnica espoliadora e destrutiva é
justamente o que acaba de ocorrer com o rompimento da barragem da empresa Vale
em Brumadinho (MG).
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BRUMADINHO (MG) tomada por um mar de lama que ceifou vidas humanas, a natureza, os peixes e animais |
Apenas a arrogância
fáustica, a hybris que cega, o sentimento de onipotência podem
justificar que essa barragem (como tantas outras) tenha sido construída logo
acima de uma área urbana e das instalações dos funcionários da empresa. Novamente a situação de risco associada a esse tipo
de tecnologia ficou exposta. Os alarmes que não soaram reproduzem o silêncio da
humanidade diante das repetidas manifestações da violência da técnica.
O cerne do capitalismo é o
lucro e isso explica, nesse caso e em outros,
tudo de modo simples e direto. O
crime de Brumadinho deve ultrapassar 300 vítimas fatais diretas, fora a
destruição de toda uma região habitada também por pescadores, ribeirinhos e
indígenas pataxó que dependiam diretamente do rio Paraopeba para a sua sobrevivência.
Se pensarmos nos inúmeros atingidos, apenas no Brasil, por barragens (de
mineradoras e de hidroelétricas), fica claro que não se trata apenas de uma
questão de “barragem a montante”.
O caso dos índios juruna
da Volta Grande do Xingu é paradigmático: essa população que vivia (apesar
das pressões do agronegócio e da proximidade da rodovia Transamazônica) em
harmonia com o seu meio e de modo feliz viu o seu rio — fonte de sua vida,
água, alimentos, transporte, rituais, lazer etc. — baixar a um nível que a
transformou, da noite para o dia, em uma população empobrecida e dependente de
ajuda.
Detalhe: a queda do nível do
rio foi decorrência da instalação e do funcionamento, desde 2015, a poucos
quilômetros de sua aldeia, da hidrelétrica de Belo Monte, a terceira
maior do mundo.
Esse fato possibilitou que
uma mineradora canadense, a gigante Belo Sun, tente agora implementar
na mesma região o que será a maior mineração de ouro a céu aberto do Brasil,
com direito a uma barragem de rejeito ao lado do rio Xingu. Sintomaticamente,
uma grande operação técnica abre caminho para outra.
O ISA (Instituto
Socioambiental) tem alertado em muitas ocasiões que, das 63 espécies
endêmicas de peixes conhecidas da bacia do rio Xingu, 26 podem ser encontradas
apenas na Volta Grande. Com apenas 20% da vazão, elas e uma riqueza de
animais e plantas incalculável estão sob risco, para não dizer condenadas à
extinção.
O atual modelo de política
deste governo, aplicado aos indígenas, implica uma continuidade da ideologia colonial que via no Brasil e na sua
população autóctone mera fonte de obtenção de riqueza: a terra é reduzida à
categoria de commodity e os habitantes são reduzidos a trabalho escravo
ou mal remunerado e (eventualmente) a consumidores de produtos baratos.
A negação da diferença, a anulação do “outro”,
a ideia de que “o índio quer vir para a cidade,
quer trabalhar e ter seu carro”
significam uma continuação do genocídio indígena.
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ÍNDIOS BLOQUEIAM A RODOVIA TRANSAMAZÔNICA (Maio de 2017) protestando contra políticas anti-indigenistas durante o governo de Michel Temer |
Durante a ditadura militar (1964-1985), esse mesmo tipo de
ideologia era propagada. A partir da
Doutrina de Segurança Nacional, baseada na ideia de integridade do território e
do povo e de proteção contra as ameaças e agressões — base que, portanto,
influencia bastante o governo hoje —, a população indígena era vista como
“estrangeira” que deveria ou ser forçada a abandonar a sua cultura
(produzindo o etnicídio) ou ser exterminada (perpetrando o genocídio).
A princípio, concebia-se a
região amazônica como deserta de pessoas, ou seja, negava-se a existência de
uma pungente e riquíssima cultura plural, milenar e exemplar. O Estatuto do
Índio (lei nº 6.001/1973) permitiu a exploração de madeira em terras
indígenas bem como a remoção de suas populações para liberar áreas para a
mineração ou outras obras públicas.
Vários e abalizados estudos
mostram que as terras indígenas são as mais capazes de preservar a natureza.
Essa preservação vai no sentido oposto ao da entropia a que leva nosso atual
modelo econômico-tecnológico. Os indígenas são, como mostrou recentemente a
antropóloga Manuela Carneiro da Cunha em um artigo na revista piauí
(“Povos da megadiversidade”), portadores da diversidade que está no
cerne do seu mundo.
No Brasil existem 305 etnias
que falam ao todo 274 línguas — que país no mundo possui riqueza cultural
igual? São responsáveis pelas “terras pretas”, locais de fantástica
fertilidade, herança de milênios de práticas técnicas indígenas, e pela
agrodiversidade, sem a qual não pode haver segurança alimentar, deixando a
humanidade à mercê de pragas e da fome.
Cito a antropóloga: “No Alto
Rio Negro há mais de cem variedades de mandioca; nos caiapós, 56 variedades de
batata-doce; nos canelas, 52 de favas; nos kawaiwetes, 27 de amendoim; nos
wajãpis, 17 de algodão; nos baniuas, 78 de pimento”. Já o agronegócio com
suas monoculturas, como se sabe, via “primeira técnica”, tende a reduzir a
biodiversidade a um mínimo.
Voltando ao modelo da
“segunda técnica”, podemos dizer que também as técnicas indígenas são lúdicas e
visam não uma dominação da natureza, mas um jogar com ela. Na cosmovisão
indígena não existe esse traçado entre natureza e cultura, mas, antes, uma
série de transformações e mutações que conectam deuses, humanos, animais,
vegetais e minerais. Não há espaço em seu panteão para um deus Prometeu da
técnica na forma de profeta do deus capital.
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"DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS" Trabalho artístico de Lais Myrrha - 32ª Bienal de São Paulo (2016) |
A artista mineira Lais
Myrrha transmitiu essa ideia de modo muito delicado e preciso em seu
trabalho “Dois Pesos e Duas Medidas”, que ocupava o vão central da
Bienal de São Paulo de 2016. Essa obra consiste em dois enormes pilares em
forma de totens: um construído com material presente nas construções indígenas
(barro, palha, cipó, madeira) e outro com técnica “ocidental” de alvenaria
(tijolo, cimento, ferragens, PVC, vidro).
O título é importantíssimo,
como costuma acontecer em obras conceituais: por que desprezamos a tecnologia
indígena, que dura já milênios e nunca destruiu de modo irreversível um
centímetro da Terra, e, por outro lado, veneramos a nossa técnica prometeica
ocidental, que em 200 anos praticamente asfixiou a Terra, mudou seu clima e
instaurou uma nova era geológica, o Antropoceno?
Hans Jonas notou que o sonho da civilização, ou seja, de domesticação
da natureza, nascera do medo dessa mesma natureza e da ideia de sua conquista
como um ato heroico. Hoje as coisas estão invertidas. Nós somos o perigo
para a natureza. As marés que nos destroem (de água ou de lama) são respostas
dessa natureza ferida.
Como escreve Jonas: “A
euforia do sonho fáustico se dissipou e nós despertamos sob a luz diurna e fria
do medo”. A resposta a esse medo, no entanto, não deve ser o pânico, mas a ativação
de uma nova ética que inclui pela primeira vez a natureza e não se limita a
ser apenas intersubjetiva.
Afinal, o ser humano é, antes
de mais nada, capaz de responder pelos seus atos. Se somos essencialmente seres
capazes de assumir responsabilidade, aparentemente uma parte de nossa
humanidade está sendo negada quando crimes socioambientais — ou seja, contra a
população e a natureza — como esses ocorridos no Brasil são assimilados sem que
ninguém seja responsabilizado.
Temos que reestabelecer a lei
da multiplicidade que até hoje garantiu a reprodução da vida sobre a Terra. Os
perigos da (primeira) técnica não podem ser ocultados sob a luz brilhante do
fascínio por suas conquistas.
Entenda-se:
não se trata de uma cruzada obscurantista contra a
técnica,
muito menos contra as ciências, muito pelo contrário.
A própria ciência de ponta aporta os dados
incontornáveis
quanto à necessidade de mudarmos de rumo.
Temos poder demais, não de menos — e, por outro lado,
também
temos a liberdade de escolher um novo rumo.
Ou pelo menos: temos a liberdade de poder lutar por
essa liberdade.
A responsabilidade não
poderia existir sem o “a priori” da liberdade. O poder tecnológico pode ser
transformado em potência que nos permitirá frear nossa “locomotiva”, evitando
outras Bhopal, Chernobyl, Fukushima, Samarco, Vale, o césio 137 em Goiânia, o
derrame de óleo do Exxon Valdez, o aquecimento global etc.
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USINA NUCLEAR DE FUKUSHIMA - JAPÃO (2011) Um tsunami provocado por um terremoto de 9 graus na escala Richter danificou a usina |
No entanto, a dificuldade da
ética do futuro, proposta por Hans Jonas,
é que a compaixão se dá com relação aos que estão próximos. O filósofo afirma: “A
caridade começa em casa”. Exigir
compaixão para com os pósteros demanda um nível de abstração e de altruísmo
raros. Daí ser mais efetiva uma heurística do medo voltada para os perigos
do presente e que inscreva a história das nossas catástrofes, em oposição a uma
falsa história triunfal autocomplacente.
Um amigo e contemporâneo de
Hans Jonas, Günther Anders (o
primeiro marido de Hannah Arendt e primo de Walter Benjamin), pensou de modo
claro essa necessidade de termos diante
dos olhos as catástrofes do passado e do presente, como meio de uma educação
moral da humanidade.
Ele afirmava que é
necessário, seguindo-se um imperativo da memória, dar-se uma “nota de
eternidade” a cada choque. Anders tinha consciência de que vivemos em um estado de emergência no que tange a nosso
(des)equilíbrio ecológico, que exige atitudes firmes.
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DAVI KOPENAWA (nascido em 1956 - 63 anos) Xamã dos Yanomani |
Concluo citando as generosas
palavras que compõem o último trecho do poderoso relato que Davi Kopenawa fez ao antropólogo Bruce Albert, publicado no livro que
precisamente leva o título de “A Queda do
Céu - Palavras de um Xamã Yanomami”: “Os xapiri [espíritos] se esforçam
para defender os brancos tanto quanto a nós. Se o sol escurecer e a terra ficar
toda alagada, eles não vão poder mais ficar empoleirados em seus prédios nem
correr no peito do céu sentados em seus aviões! Se Omoari, o ser do tempo seco,
se instalar de vez perto deles, eles só terão fios de água para beber e assim
vão morrer de sede. É bem possível que isso aconteça mesmo! No entanto, os
xapiri continuam lutando com valentia para nos defender a todos, por mais
numerosos que sejamos. Fazem isso porque os
humanos lhes parecem sós e desamparados. Nós somos mortais e essa fraqueza lhes
causa pesar”.
Ao invés da autoimagem
arrogante do “homo faber” prometeico
e poderoso, que levou a um modelo de desenvolvimento que privilegia a poucos e
destrói o chão em que vivemos, essa figura de nossa fragilidade me parece muito
mais empoderadora para enfrentarmos os enormes desafios que temos diante de
nós.
Ela poderá estar na base de
um “princípio de moderação” que seria capaz de nos garantir uma maior
sobrevivência sobre esta esfera azul e, sobretudo, um “viver em comum” mais
ético.
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