Cuidado com os ressentidos!
O poder da ideologia do ressentimento
Marcos Guterman
Jornalista, doutor em História pela USP,
é autor do livro “Nazistas entre nós” (Ed. Contexto)
A mesma ideologia que originou o nazismo e parece estar
na base
de movimentos reacionários posteriores
O problema da ideologia voltou com vigor ao centro dos debates, em
especial por força da ascensão, em
várias partes do mundo, inclusive no Brasil, de populistas
que se dizem combatentes da ideologia de
esquerda. Para esses líderes, o esquerdismo, em suas diversas
manifestações, teria dominado o pensamento nacional e convertido especialmente
a juventude, por meio de lavagem cerebral, em instrumento de seus desígnios
deletérios, contrários aos valores tradicionais da família e da religião. Além
disso, segundo esses neopopulistas, a
esquerda submeteu os países que comandou a interesses estranhos aos da pátria,
teleguiados por ideólogos do comunismo internacional, vistos como
essencialmente corruptos e imorais.
Conforme esse discurso, toda e qualquer ameaça à paz, à
prosperidade e aos bons costumes só pode ser de esquerda – razão pela qual
até mesmo o nazismo, símbolo do mal absoluto, foi recentemente classificado
como “de esquerda” pelo presidente Jair Bolsonaro, um desses novos líderes
populistas.
É ocioso discutir se o nazismo era de “esquerda” ou de “direita”, porque
há farta documentação a comprovar que de “esquerda” o nazismo definitivamente
não tinha nada. O relevante, no caso, é a facilidade com que o presidente
da República e seus seguidores mais radicais desconsideram evidências
históricas em favor de suas crenças
pessoais, com vista a conferir sentido ao discurso segundo o qual onde está
o “mal” só pode estar a esquerda. É uma
narrativa duplamente confortável:
a) fornece
lógica em meio ao caos de informações e
b) atribui a responsabilidade por todos os males e
padecimentos sempre ao “outro” – no caso brasileiro, o “comunista” ou o “petista”; em outras partes do mundo, os imigrantes e os muçulmanos;
no passado (e ainda no presente), os judeus.
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FRITZ STERN (1926-2016): historiador alemão radicado nos Estados Unidos |
Esse mecanismo mental, guardadas as distinções geográficas e históricas, está na essência da ideologia que
desembocou no nazismo, e talvez seja útil revisitar aquele sistema de
pensamento se quisermos ter algumas pistas para entender o momento atual.
O historiador alemão Fritz Stern, o principal estudioso da
ideologia germânica que está na origem do nazismo, definiu ideologia política como algo que desperta a “febre da paixão” e
o “senso de pertencimento afetivo” em relação ao sistema de ideias a partir
do qual seus integrantes leem o mundo (The Politics of Cultural Despair: a
Study in the Rise of Germany Ideology, 1961). A verdadeira ideologia, afirma Stern, é “uma força espiritual, um impulso”, que expressa “aquilo pelo que
vale a pena viver”. Nesse sentido, o historiador destaca a validade do
conceito do filósofo francês Alfred
Fouillée sobre as “ideias-força”,
aquelas que unem “a imaginação à vontade” e “a visão antecipada das coisas com
sua execução”.
Em outras palavras, a IDEOLOGIA, na sua feição radical,
é o elo de comunidades cujos membros acreditam de forma
inabalável
em sua visão de mundo – de tal maneira que
hostilizam
violentamente o contraditório, tratado como ameaça a essa visão –
e se consideram autorizados pela História a executar o plano
que
julgam capaz de antecipar o futuro glorioso projetado pela
ideologia.
Todo aquele
que se interpuser no caminho dessa realização
é
considerado inimigo mortal.
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ARTHUR MOELLER VAN DEN BRUCK (1876-1925): historiador e escritor alemão, ficou conhecido pelo seu livro "Das Dritte Reich" (O Terceiro Reich) que promovia o nacionalismo alemão |
Duas gerações antes da chegada de Adolf Hitler ao poder na Alemanha, em
1933, ideólogos como Paul Lagarde, Julius Langbehn e Moeller van den Bruck investiram
na disseminação de ideias-força que rejeitavam profundamente a sociedade
moderna e nutriam brutal ressentimento contra a democracia liberal e
seus valores mais caros. Não à toa, os três ideólogos citados eram
violentamente antissemitas – eles viam
os judeus como corpos estranhos ao organismo nacional alemão, como
“bacilos” capazes de infectar o espírito germânico, provocando o dissenso e a
desunião graças às liberdades proporcionadas pela democracia.
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PAUL ANTON DE LAGARDE (1827-1891): teólogo e orientalista alemão |
O importante a respeito desses
ideólogos não é propriamente sua produção intelectual, carente de qualquer
substância concreta, eivada de misticismo e fortemente contrária à razão, e sim
sua capacidade de representar as
angústias de uma parte significativa da sociedade alemã, vocalizando seu ressentimento em relação:
* à modernidade,
* à democracia
e
* à atividade
política e parlamentar – vista por muitos alemães como capturada por
interesses estranhos aos da “comunidade nacional”.
Podemos chamar a ideologia
produzida a partir dessa matriz de “ideologia
do ressentimento”, base do que viria
a ser a “revolução conservadora” que varreria a Europa nas primeiras
décadas do século 20, destruindo a
democracia e estigmatizando o
pensamento liberal e progressista em vários países. Em 1927, o filósofo
francês Julien Benda, no livro A Traição dos Intelectuais, alertou que
o autoritarismo e o desprezo pelo espírito livre tinham maior poder de sedução
sobre as “almas simples” do que as ideias do humanismo e do liberalismo.
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AUGUST JULIUS LANGBEHN (1851-1907): filósofo e historiador da arte alemão |
[Comentário pessoal: aquilo que estes dois últimos parágrafos
descrevem, parece ser notícias dos dias atuais! De fato, não podemos
menosprezar nem ignorar que várias ideias que estão circulando no Brasil e no mundo,
atualmente, sejam o embrião de regimes autoritários, contra as conquistas
sociais, entre elas, a liberdade de pensamento e o direito de manifestação. Tais
ideias não se preocupam, minimamente, com os mais pobres, excluídos e “perdedores”
da sociedade atual!]
Naquele momento, Benda já denunciava a ascensão de um
movimento contra os judeus, a democracia e o socialismo, capitaneado por
intelectuais interessados no “jogo das paixões políticas”. E advertia: “Nossa era, de fato, é a era da organização
intelectual dos ódios políticos”. O historiador Fritz Stern considera então que a “era atual” (ele falava dos anos
1960) estava igualmente marcada pela “organização política dos ódios culturais
e dos ressentimentos pessoais”.
Dando um salto no tempo para os dias atuais, observa-se a permanência não
de uma ideologia propriamente nazista, mas da ideologia do
ressentimento, a mesma que originou o nazismo e parece estar na
base de boa parte dos movimentos reacionários posteriores – que nutrem
nostalgia pelo passado idealizado e cujos remédios
que oferecem para a “decadência moral” das democracias são a violência, a
intolerância e a renúncia à razão.
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