Como será o nosso futuro?
Soluções para o século 21
Conversa com Domenico De Masi
Sociólogo italiano – Ex-Professor
das Universidades de Nápoles e «La Sapienza» - Roma
Carlos Eduardo Entini
“O desemprego é uma construção social”, afirma Domenico
de Masi,
e acrescenta:
“O trabalho deve ser redistribuído, como deve ser a
riqueza”
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DOMENICO DE MASI |
O sociólogo italiano Domenico De Masi já nos propôs o ócio criativo e agora, em seu último
livro, propõe uma revolução, sem
pólvora, sem sangue. Mas com novos entendimentos. O principal deles é que vivemos em um sociedade pós-industrial
na qual o trabalho é menos necessário para se produzir riqueza e é mais
intelectual do que braçal. Consequentemente há o aumento do tempo livre. Portanto, o desemprego, que veio para ficar, é uma questão estrutural e deve
ser encarado de outra forma: o trabalho “deve
ser redistribuído, como deve ser a riqueza”, explicou De Masi na conversa
que teve com o jornal O Estado de S.
Paulo quando visitou São Paulo este mês. Se assim fosse, prossegue o
sociólogo, nascido na comuna de Rotello há 81 anos, todos os desempregados
estariam ocupados imediatamente.
Parece tudo tão simples, certo?
Pois para De Masi é assim que tem
que ser, porque “o papel do intelectual
é transformar as coisas complexas em coisas simples”. É esse o esforço do
livro Uma Simples Revolução,
recém-lançado no Brasil. Em 81 capítulos, De Masi trata de uma miríade de
assuntos, mas sempre com o mesmo objetivo: dar ao leitor um panorama de onde
estamos e como aqui chegamos. Segundo o autor, o momento em que vivemos não é o
melhor mundo possível, mas certamente o melhor até hoje.
Além da redistribuição do trabalho reduzindo a carga horária, a simples
revolução viria com o trabalho à
distância, a maior presença de
mulheres no mercado e de investimentos em todas “as tecnologias possíveis para libertar o homem do trabalho, sempre
produzindo mais riquezas”. E, por outro lado, entender que o ócio é produção. Exercê-lo, explica
De Masi, é fazer três coisas ao mesmo tempo: trabalho, produzindo
riquezas; estudo, produzindo conhecimento e divertimento, produzindo bem-estar.
Leia trechos da conversa:
I. Ensino superior
O problema hoje no mundo não é o
PIB, mas a taxa de diplomados. Por exemplo, na Califórnia existem 66%; na
Itália, 23%. Portanto a Itália é um país subdesenvolvido em relação à
Califórnia. O problema hoje é como ter
maior número de formados, porque a láurea hoje é como a quinta série de 100
anos atrás. Na sociedade pós-industrial é o título mínimo. Porque o diploma
não serve só para trabalhar, serve para entender o telejornal, a política,
saber como educar os filhos, entender a vida do cidadão.
II. Ócio criativo
A causa da globalização é sobretudo
a causa do progresso tecnológico. Conseguimos
produzir sempre mais, trabalhando sempre menos. Na Itália, em 1891, éramos
30 milhões e trabalhamos 70 milhões de horas. Em 2018, 61 milhões trabalharam
40 milhões de horas. E produzimos 20 vezes mais. Isso é o que em economia se
chama jobless growth (crescimento sem trabalho). O primeiro
problema: aumenta o tempo livre. Os nossos bisavós, trisavós viviam 300 mil
horas e trabalhavam 150 mil. Hoje
vivemos 700 mil e trabalhamos, no máximo, 80 mil. Essa é uma situação rara,
não se tem o que fazer. Aumenta o tempo de ócio e ele se torna produção. Nós
produzimos enquanto estamos no ócio. Por exemplo, se eu assisto à TV, há um
aumento de audiência e cresce a publicidade. Nosso ócio agora é produção. O segundo problema é como mudar o trabalho. Na época de
Marx, em Manchester, 94% dos trabalhadores eram operários braçais. Hoje, são
33%. Portanto, não somente foi reduzida a quantidade de trabalho, mas o que
permaneceu é predominantemente intelectual. O trabalho intelectual, diferentemente do braçal, se caracteriza em
trabalhar, aprender e se divertir. Esse é o ócio criativo.

III. Trabalho de
desempregado
Um desempregado trabalha mais do
que um empregado. Porque para conseguir comer à noite deve fazer mil coisas
para ter o mínimo de comida. O
desempregado é o trabalhador mais intenso que existe. Ninguém trabalha como
os desempregados, eles fazem os
trabalhos que nós evitamos, carregam malas, são babás, lavam pratos. Porém
os desocupados não têm um lobby, esse é o problema.
IV. Desemprego
O desemprego é uma construção
social. Podemos ter todos os
desempregados ocupados imediatamente. Por exemplo, um alemão trabalha 1.400
horas ao ano, em média. A ocupação é de 79%. O desemprego é de 3,8%. Na Itália
trabalhamos 1.800 horas ao ano, veja que loucura! Os italianos trabalham 400
horas a mais que os alemães! E temos 58% de ocupação e 11% de desemprego. Se na
Itália trabalhássemos 1.400 horas não existiria nenhum desempregado. O desemprego é uma construção social, não é
uma fatalidade. Na Alemanha, com 1.400 horas, se produz 20% a mais que na
Itália e, portanto, paga-se salários 20% maiores. E isso [redução das horas
trabalhadas] incentiva a produtividade e ela se incentiva a si mesma. Hoje na
Itália, finalmente, apresentamos um projeto de lei, do qual também participei,
sobre a redução do trabalho para 34 horas semanais. Mas na Alemanha, desde 1 de janeiro deste ano, os metalúrgicos trabalham 28
horas e tiveram um aumento de 4,2% no salário. Isso porque a Alemanha
entendeu quando menos se trabalha, mais se produz.
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Metalúrgicos em uma fábrica alemã |
V. Empresas
A empresa é a instituição mais
atrasada que existe no mundo. São mais evoluídos o exército e a Igreja do que a
empresa. A empresa ficou com a
mentalidade de Taylor e Ford em quase todo o mundo. Por exemplo, o papel da
mulher nas empresas é ainda um papel de subordinada, enquanto na sociedade o
papel da mulher é muito mais paritário. Não é ainda totalmente paritário, mas
tem mais paridade na família e na sociedade do que na empresa. Outro exemplo é
o trabalho à distância. A maioria dos
trabalhadores é formada por intelectuais. Os trabalhadores físicos não
podem ir para casa, porque se trabalham na linha de montagem devem ir à
fábrica. Os trabalhadores intelectuais
trabalham com a informação e graças à internet se recebe informação em qualquer
lugar. Portanto, é totalmente inútil que um jornalista vá à redação para
trabalhar. Pode trabalhar de casa. É totalmente inútil que milhares de pessoas
saiam de manhã de casa, andem quilômetros, gastem gasolina, gastem dinheiro,
poluam, tenham acidentes mortais para fazer no escritório aquilo que poderiam
fazer em casa. Portanto, toda a
organização do trabalho das empresas é ainda feita sob a base da fábrica, da
linha de montagem que não existe mais. O resultado qual é? São Paulo, o
maior manicômio do mundo. Porque as pessoas saem de casa de manhã para outro
lugar. E todos poderiam trabalhar de casa, do bar ou de onde quiserem. O trabalho à distância é a revolução mais
simples. Como é a situação de São Paulo hoje? Metade da cidade é vazia de
dia, nesse momento existem milhares de apartamentos vazios porque os moradores
estão no escritório. E metade da cidade é vazia à noite. Portanto é um
manicômio onde os loucos se movem de uma parte a outra sem saber o porquê.
VI. “Síndrome de Clinton”
Os chefes, de qualquer nível, não
querem mudar [para o trabalho a distância]. Eu chamo ‘Síndrome de Clinton’.
Quem que não queria a estagiária longe da Casa Branca? Clinton. Cada chefe quer os dependentes abaixo de si.
Entretanto existem países inteiros que
vivem sob o trabalho à distância, como Holanda e Suécia. Na Itália, 5%
trabalham à distância. Se em São Paulo
10% trabalhassem à distância, não existiriam problemas de tráfego. Não
custaria nada e todos estariam mais felizes.
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WARREN BUFFETT - megainvestidor norte-americano |
VII. Redistribuição do
trabalho
Os desocupados devem lutar pela redução de horário de trabalho. Não
existe nenhuma outra solução para o desemprego. O trabalho deve ser redistribuído como deve ser a riqueza. Não é
possível que no Brasil existam ricos e pessoas que morram de fome. Não é possível que no mundo existam 8
pessoas que tenham a riqueza da metade da humanidade. Uma disparidade que
nunca existiu no mundo, um homem só que tem a riqueza de 10 estados. Warren
Buffett tem sozinho a riqueza do Canadá. Lutem
pela distribuição de trabalho, que dela também vem também a distribuição da
riqueza. Reduzam o horário de trabalho, porque isso aumenta a
produtividade. Empregados, aceitem a redução de horário de trabalho. Primeiro
porque isso não reduzirá o salário. Segundo, porque aumentará o tempo livre.
Terceiro, aumentando o tempo livre,
aumentará a felicidade.
VIII. Índios e o homem pós-moderno
Como eram as vidas dos índios? Dissemos que pelo jobless growth se trabalhará sempre
menos e haverá sempre mais bem-estar. Essa
era a situação dos índios, sobretudo dos índios nas zonas quentes do Brasil.
Eles não tinham necessidade de roupas, de trabalhar para comer, bastava pescar
ou caçar. Portanto eles eram como o novo homem pós-moderno, tinham que
trabalhar pouco, como um metalúrgico alemão que trabalha 28 horas semanais. Eu
creio que um índio trabalhava ainda menos semanalmente. O que fazia um índio no resto do tempo? Eles se dedicavam acima de tudo
à contemplação da natureza, porque eles dizem que existem três níveis na
natureza: a floresta, que é a
divindade, depois os animais e o homem. E eles tinham uma contínua
contemplação da relação entre esses três. Depois
tinham o problema de conservar a cultura de sua tribo, ou seja, contar aos
outros, aquilo que hoje é um romance, as coisas que aconteceram antes, os
mitos. A mais importante expressão era a
estética. Qualquer parte do corpo era pintada, qualquer item que carregavam
era belíssimo, qualquer presente que se fazia devia ser perfeito, porque a estética era a alma do ser humano.
Como a estética era sublime, não podia ser feita num muro, numa folha, deveria
ser feita sobre o corpo da pessoa amada e deveria morrer junto ao corpo. Essa é
uma visão de vida que eu espero que se torne a visão pós-industrial. O maior
tempo livre pode significar drogas, violência, porém pode se transformar nisso que
podemos aprender com os índios.
L I V R O
Título:
Uma simples revolução: trabalho, ócio e
criatividade – Novos rumos para uma sociedade perdida
Autor:
Domenico de Masi
Tradução:
Yadyr Figueiredo
Editora:
Sextante
Páginas:
368
Preço
de capa: R$ 54,90
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