Papa Francisco aos padres e religiosos
“Não aos religiosos carreiristas, a
castidade sem ternura é coisa de solteirão”
Salvatore Cernuzio
Vatican
Insider
07-05-2019
O papa conclui sua jornada no norte da Macedônia
com um encontro com os religiosos do clero de Skopje.
Os sacerdotes do rito bizantino com suas esposas e filhos
estavam presentes: “Seu testemunho tem aquele aroma
evangélico
das primeiras comunidades”
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PAPA FRANCISCO na Catedral do Sagrado Coração de Jesus, em Skopje, Macedônia do Norte |
Escuta-se o choro de algumas
crianças na catedral do Sagrado Coração
de Jesus em Skopje, onde o Papa
se encontra com padres, religiosos e consagrados na Macedônia do Norte. São os filhos dos sacerdotes do rito bizantino
presentes no encontro com o Papa junto com suas esposas. Entre eles está o padre Goce Kostov, da Eparquia de Strumica
- Skopje, que oferece seu testemunho junto com sua esposa Gabriela: “Como
sacerdote, Deus me deu a graça de poder viver a paternidade do corpo, na minha família e, ao mesmo tempo, a paternidade espiritual, na minha
paróquia. Sinto que estas duas coisas sejam complementares e se completem”,
relata. “Sou muito grato ao Senhor pela
minha família que me ajuda no trabalho pastoral, nas relações com as
pessoas, com os jovens, com as crianças. Sem
eles eu seria muito mais pobre”.
Papa Francisco não entra no mérito
da questão dos sacerdotes casados, mas agradece
várias vezes o Padre Goce, sua esposa e os filhos Filip, Blagoj, Luca, Ivan por compartilharem as alegrias e preocupações do “ministério”
e da “vida familiar”. E também “o segredo para prosseguir em frente nos
momentos difíceis que tiveram que atravessar”, como a morte de uma menina com
apenas 14 dias de vida. “Vocês foram
corajosos na vida ... A união matrimonial na vida ministerial ajudou vocês a
prosseguir como família”, ele disse de improviso.
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PADRE GOCE KOSTOV, juntamente com toda a sua família, dirige algumas palavras ao Papa Francisco |
“O vosso testemunho tem aquele ‘aroma evangélico’ das primeiras
comunidades”, continua ele. “O espaço vital de uma família podia ser
transformado em uma igreja doméstica, junto com a Eucaristia - quantas vezes
você celebrou a Eucaristia em sua casa - pela presença de Cristo sentado à
mesma mesa”. Assim, disse o Pontífice:
“Vocês dão um testemunho vivo de como a fé não nos afasta do mundo,
mas nos
introduz mais profundamente nele.
Não a partir daquilo que gostaríamos que fosse,
não como ‘perfeitos’ ou imaculados,
mas na precariedade de
nossas vidas, das nossas famílias
ungidas todos os dias na confiança
do amor incondicional que Deus tem por nós”.
Confiança que leva ao “desenvolvimento
de algumas dimensões que são tão importantes quanto esquecidas na sociedade
desgastada por relacionamentos frenéticos e superficiais: as dimensões da ternura, da paciência e da compaixão para com os outros”.
É precisamente sobre a ternura que o Papa
se deteve mais, afastando-se por alguns instantes do discurso escrito para
alertar as consagradas presentes que “quando
não se vive na família, quando não há necessidade de acariciar os próprios
filhos” - sejam eles de carne ou espirituais – corre-se “o perigo de que o coração se torne um pouco
solteirão”.
Disso deriva “o perigo de que o voto de castidade, das freiras ou dos padres
celibatários se converta em voto de tipo ‘solteirão’”. “Como podem causar
mal uma freira solteirona ou um padre solteirão!”, exclamou Francisco. Que “graça”,
em vez disso, ter visto a enorme ternura das Missionárias da Caridade, hoje
pela manhã, no Memorial de Madre Teresa, no cuidado dos pobres. “Por favor: ternura! Nunca repreender! Água
benta, nunca vinagre!”, exortou Bergoglio em meio aos aplausos. “Sempre com
aquela doçura do Evangelho que faz acariciar as almas. Não perder a ternura ministerial e da consagração religiosa”.
O segredo está em sentir-se parte de uma família: “Sempre gosto
de pensar em cada família como um ‘ícone da família de Nazaré’, com seu
cotidiano feito de fadigas e até pesadelos, como quando teve que sofrer a
incompreensível violência de Herodes, experiência que se repete tragicamente
ainda hoje em muitas famílias de
refugiados miseráveis e famintos”, afirmou Bergoglio.
Ele retornou aos testemunhos
ouvidos após a saudação do bispo de Skopje, Kiro Stojanov, de uma freira e de um padre latino: “Vocês
mencionaram o fato de serem poucos e do risco de ceder a algum complexo de
inferioridade. Em muitas situações sentimos a necessidade de fechar as contas:
começamos a olhar para quantos somos ... e somos poucos; os meios que temos ...
e são poucos; então vemos o número de casas e obras para sustentar ... e são
muitas ... Poderíamos continuar a enumerar as múltiplas realidades em que
vivenciamos a precariedade dos recursos que temos à disposição para implementar
o mandato missionário que nos foi confiado. Quando isso acontece parece que o
saldo do balanço fique ‘no vermelho’”.
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KIRO STOJANOV Bispo de Skopje - Macedônia do Norte |
“É verdade, o Senhor nos disse: se
você quer construir uma torre, calcule as despesas”, mas “o fato de fechar as
contas” - advertiu o papa – “pode nos levar à tentação de olhar demais para nós
próprios” curvados “sobre nossas realidades e misérias”. Precisamos “fechar as
contas” então, apenas quando “isso puder nos ajudar a descobrir e nos aproximar
de tantas vidas e situações que todos os dias sentem a dificuldade de fazer
face às despesas: famílias que não conseguem continuar, pessoas idosas e sozinhas,
doentes forçados a estar na cama, jovens entristecidos e sem futuro, pessoas pobres que nos lembram o que somos:
uma Igreja de mendigos necessitados da Misericórdia do Senhor”.
“Só é lícito ‘fazer as contas’, -
reafirmou o Papa - se isso nos leva a nos tornarmos solidários, atentos,
compreensivos e solícitos em nos aproximarmos das fadigas e precariedade em que
vivem submersos muitos dos nossos irmãos necessitados de uma unção que os
levante e cure na sua esperança”.
Nesse sentido, uma referência a Madre Teresa e seu trabalho
não podem faltar: “Suas palavras estão certas: ‘O que eu não preciso, pesa em mim’. Vamos deixar todos os fardos que nos separam da missão e impedem que o
cheiro da misericórdia chegue ao rosto de nossos irmãos. Não nos privemos do
melhor da nossa missão”, afirmou o Papa. “Certamente muitas vezes cultivamos
fantasias sem limites pensando que as coisas seriam diferentes se fôssemos
fortes, poderosos e influentes. Mas não será que o segredo de nossa força,
poder e influência, e até mesmo da juventude, esteja em outro lugar e não no
fato de que ‘as contas fechem’?”
Finalmente, o Papa Bergoglio se
referiu ao testemunho de Davor,
sacerdote latino, que mencionava à
tentação do carreirismo no ministério do sacerdócio:
“Quando o carreirismo entra na vida sacerdotal,
o coração
se torna duro, ácido e se perde a ternura.
O carreirista ou a carreirista perderam a capacidade de acariciar”,
observou o Papa novamente de improviso.
O antídoto, dizia o padre macedônio do norte, “era retornar à primeira
vocação”. Sim, este é precisamente o ponto, assegurou o Pontífice: “Para nos renovar muitas vezes devemos
voltar atrás e encontrar o Senhor. Retomar
a memória do primeiro chamado. Lembrar a beleza daquele encontro com Jesus
que nos chamou e a partir daquele encontro retomar as forças para seguir em
frente”. “Nunca perder a memória do
primeiro chamado: é um sacramento”, lembrou o bispo de Roma. “É verdade que
as dificuldades, as obras apostólicas ‘desgastam’ a vida e podemos perder a
ilusão ... Também podemos perder a vontade de rezar. Se você está se sentindo
assim, pare! Volte atrás e se encontre
com o Senhor do primeiro chamado. Essa memória vai te salvar”.
Finalmente, Francisco brincou sobre
uma criança que gritava durante seu discurso: “Aqui está um homem livre: chora quando quer”. E parabenizou o
tradutor, “sacerdote e pai de família”, que escolheu fazer este serviço: “Traduza
isso, vai lhe causar um pouco de vergonha ...”. Finalmente, entre os aplausos e
um canto mariano, o Pontífice abençoou a primeira pedra do Santuário de São
Paulo. Depois deixou a catedral e dirigiu-se ao aeroporto de Skopje, de onde
partiu para a Macedônia do Norte, concluindo
assim sua vigésima nona viagem apostólica.
Traduzido
do italiano por Luisa Rabolini.
Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
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