A Igreja rumo à implosão?
Uma análise, um alerta para nós, no Brasil, também!
Revista «JESUS» - Setembro de 2022
Entrevista com Danièle
Hervieu-Léger
Socióloga francesa especializada em religião e catolicismo – Ex-presidente da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris
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DANIÈLE HERVIEU-LÉGER |
Entre
escândalos, divisões, visões diferentes do que deve ser a Igreja e a sua missão
Há mais de quarenta anos, para quem quiser entender como está mudando o mundo católico e quais são as correntes que o atravessam, Danièle Hervieu-Léger é o ponto de referência obrigatório. Socióloga, ex-presidente da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris, traduziu os resultados de suas análises aprofundadas em imagens de grande eficácia (o peregrino e o convertido, religião em migalhas, fé à la carte...). Como também faz no último livro chamado Vers l’implosion? Entretiens sur le présent et avenir du catholicisme (Rumo à implosão? Conversas sobre o presente e o futuro do catolicismo, em tradução livre, Seuil, 2022), no qual aborda, em diálogo com Jean-Louis Schlegel, a crise e as emoções da novidade do catolicismo francês abalado pelos escândalos.
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No momento, há, somente, edição em francês |
Eis a entrevista.
O relatório da Comissão Sauvé (Ciase) sobre os abusos
sexuais teve o efeito de um terremoto para a Igreja na França. E parece ter
acelerado a implosão do catolicismo, já em curso há várias décadas. Quais são
os principais motivos da crise?
Danièle Hervieu-Léger:
O relatório da Ciase mostrou claramente o fracasso da instituição diante dos
abusos sexuais e dos crimes cometidos por padres. Sua publicação, por si só
explosiva, ocorre em um momento crucial da história da Igreja na França: a
Igreja deve, de fato, tomar ciência de seu status, agora, minoritário em uma
sociedade plural do ponto de vista religioso, onde o número de pessoas que
se declaram “sem religião” supera aquele dos crentes.
Para uma instituição que por séculos ocupou uma posição
hegemônica no cenário religioso, social e cultural, mesmo após sua expulsão do
cenário político, trata-se de um trauma notável, que acentua dramaticamente
as divisões entre os próprios católicos:
* entre aqueles que
pedem uma nova atitude da Igreja em relação ao mundo e aqueles que defendem o
papel da Igreja como “contracultura” diante das evoluções da sociedade;
* entre aqueles que
não conseguem imaginar um futuro para a Igreja senão através do fortalecimento
do sistema de poder vertical, clerical e patriarcal que constitui sua espinha
dorsal, e
* aqueles que pedem
uma Igreja “horizontal”, inclusiva e comunitária, que dê amplo espaço à
iniciativa autônoma dos leigos...
Essa divergência é mais complexa do que a clássica oposição
política entre “progressistas” e “conservadores”:
o que se opõem são visões do cristianismo que já não se comunicam
mais entre si.
De fato, a Igreja da França está aos pedaços.
Você refuta a tese do historiador Guillaume Cuchet, que em um livro recente (Le catholicisme
a-t-il encore de l’avenir en France?, Seuil, 2021 – tradução livre: O
catolicismo ainda tem futuro na França?) atribui a culpa pelo colapso ao
Concílio Vaticano II: uma tese que, no entanto, encontra amplo eco não só nos
círculos tradicionalistas, mas também nas chamadas franjas “moderadas”. Por que
essa leitura lhe parece enganosa?
Hervieu-Léger: Parece-me
principalmente incompleta. O livro de Guillaume Cuchet destaca um fato
estabelecido, ou seja, o colapso da prática religiosa e o colapso da autoridade
social e moral da Igreja na virada dos anos 1960 e 1970, no imediato período
pós-conciliar. Não tenho nada a contestar. Mas ao focar no Concílio como
gatilho, Cuchet subestima, na minha opinião, dois aspectos.
1º) o declínio da prática
no longo prazo: uma tendência que já podia ser observada no final da
Segunda Guerra Mundial (e antes mesmo). O mesmo vale para a demografia
clerical: na França, desde 1959, menos padres vêm sendo ordenados do que
aqueles que morrem! O encolhimento do clero não está ligado ao próprio
Concílio, embora muitos padres tenham questionado seu sacerdócio após o
Vaticano II.
2º) A segunda dimensão que falta no livro de Cuchet é o contexto cultural específico dos anos 1960 e 1970: aquele de uma revolução do indivíduo que afirma sua própria autonomia pessoal, uma revolução que diz respeito à transmissão do depósito de cultura e de experiências em todas as instituições (não só na Igreja) e que coloca a instituição católica num contraste cultural estridente com o ambiente ao seu redor. As reformas conciliares puderam acelerar o processo, em particular tornando os fiéis mais cientes, graças ao uso das línguas nacionais na liturgia, da incongruência de uma linguagem religiosa antiquada em relação à cultura contemporânea. Mas essas reformas – aguardadas por muitos, é preciso lembrar – não causaram em si a hemorragia dos fiéis.
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Não há edição em português, somente em francês |
Em um livro de 2003 (Catholicisme, la fin d'un monde,
Bayard – tradução livre: Catolicismo, o final de um mundo) você cunhou e
contribuiu para a difusão do neologismo “exculturação”, o oposto, pode-se
dizer, de “inculturação”. Quase vinte anos depois, em que ponto estamos?
Hervieu-Léger: Com
esse neologismo quis indicar o processo de deslocamento da matriz católica
da cultura francesa, que por muito tempo permitiu que a Igreja se dirigisse
a todos, para além da secularização das instituições e das mentalidades. Desde
a década de 1970, a Igreja perdeu o apoio daquele tecido cultural comum
que lhe permitia manter uma posição dominante no cenário religioso e social,
apesar da diminuição do número de fiéis.
Cinquenta anos depois, essa “exculturação” é completa e definitiva. A Igreja só pode falar aos seus próprios fiéis, e nem sequer é certo que estes a escutem, especialmente sobre as questões de moral sexual, que consideram pertencer apenas à esfera da consciência pessoal.
Neste contexto, quais são as condições para uma
verdadeira reforma da Igreja universal? Quais são as armadilhas a evitar de
forma prioritária?
Hervieu-Léger: Como
socióloga, evito traçar uma perspectiva para a Igreja do futuro! Mas minha
hipótese é que a doença do catolicismo é a do sistema romano, estruturado
entre o Concílio de Trento e o século XIX para enfrentar a investida da
Reforma e depois da modernidade política.
Qualquer reforma hoje exige a “desconstrução” desse sistema, que se
baseia inteiramente na autoridade sagrada do sacerdote.
Resta saber até que ponto tal “desconstrução” possa ser realizada sem comprometer a estabilidade de todo o edifício.
Traduzido do italiano por Luisa Rabolini.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 6 de setembro de 2022 – Internet: clique aqui (Acesso em: 10/09/2022 – às 10h30).
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