O que Jesus diria ? ? ?
O que diria hoje Jesus aos candidatos e
eleitores brasileiros?
JUAN ARIAS
Jornalista
Os políticos que hoje buscam apoio
de pastores e padres poderiam
se enquadrar no perfil dos “falsos
profetas”
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"Cristo retirando os vendilhões do Templo" - Pintor: El Greco Pintura a óleo em tela de 1600 - National Portrait Gallery - Londres |
Mais
de 80% dos brasileiros que irão em outubro às urnas são de fé cristã, entre
católicos e evangélicos. Os ateus quase não existem neste país. Os candidatos às eleições presidenciais ou
são de origem cristã ou fingem, pois todos eles procuram igualmente neste
momento as bênçãos de bispos e pastores, prostrando-se em templos e
catedrais, já que um punhado de votos bem vale uma missa.
Mas
esses mesmos políticos que procuram proteção sob os altares talvez não
gostassem de escutar algumas frases, duras como pedras, pronunciadas há quase
2.000 anos por Jesus Cristo contra “os falsos profetas”, de quem dizia: “Vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por
dentro são lobos arrebatadores”. Como reconhecê-los? Não só por suas
promessas que podem ser vazias ou repletas de hipocrisia, mas por seus feitos.
“Pelos seus frutos os conhecereis.
Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos?” (Mt 7,16)
O
cristianismo primitivo se inspirava nas atitudes que haviam guiado a pregação
do Mestre, sobretudo em sua insistência contra o farisaísmo, a hipocrisia e os
que enganam as pessoas simples. Jesus
gostava do sim ou do não. “Oxalá
fosses frio ou quente! Mas, como és
morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te”, recorda o Apocalipse (3,15).
Se
analisássemos essas afirmações taxativas das Escrituras e as aplicássemos a
muitos dos candidatos que se dirigem às pessoas em busca de seu voto, veríamos
que continuam atuais. Continuam vigentes
os disfarces, por exemplo, de
candidatos que cresceram e prosperaram na velha guarda do conservadorismo, do
patrimonialismo, do caciquismo, e hoje se apresentam disfarçados de “políticos
renovados”, de novos redentores. Acaso os
espinheiros podem dar uvas?
Candidatos
que se apresentam como os paladinos da moral e dos bons costumes e não têm
vergonha de confessar que o dinheiro do
auxílio-moradia do qual desfrutaram durante anos em Brasília sem dele
precisar foi usado “para comer gente”, eufemismo para pagar prostitutas.
Candidatos
incapazes de serem frios ou quentes para conseguirem agradar a todos, e que
acabam provocando vômito, na gráfica expressão da Escritura. Candidatos que,
como canta Gilberto Gil, com palavras
dizem sim e com os fatos dizem não. Melhor os que são capazes de confessar
que ninguém tem a pedra filosofal para resolver todos os problemas acumulados
em anos de governos incompetentes ou ambiciosos, e que não oferecem mais do que
acreditam que poderão realizar.
Os representantes das
igrejas católicas e evangélicas deveriam estar atentos ao oferecerem acolhida e
apoio em seus templos, às vezes no anonimato da noite, àqueles políticos que em vez de irem
se inspirar na fonte dos Livros Sagrados comparecem como mercadores de votos. Para eles há também
uma passagem dura do Evangelho: quando Jesus, ao entrar no Templo de Jerusalém
e ver os vendedores fazendo comércio com os fiéis pobres, depois de ter jogado
as mesas no chão os repreendeu e lhes disse: “Minha casa é uma casa de oração, mas vós fizestes dela um covil de
ladrões” (Mt 21,12ss). Os estudiosos das escrituras, tanto católicos como
protestantes, concordam que foi aquele
gesto contra o comércio do sagrado a gota d’água que levou as autoridades do Templo,
em conivência com as autoridades civis romanas, a acabarem com a vida do
profeta incômodo.
Às
massas de cristãos que vão aos templos e escutarão neste período de seus
pastores religiosos os chamados para votar nos políticos, a essas massas de
gente pobre sempre à espera de um milagre que redima suas penas, a elas é
preciso recordar que nessa Bíblia que está nas mãos de seus guias espirituais
há uma passagem do profeta Ezequiel,
dirigida aos governantes e que hoje
parece de uma pungente atualidade. Sobre eles, diz:
«Vós
não fortaleceis as ovelhas fracas; a doente, não a tratais; a ferida, não a
curais;
a
transviada, não a reconduzis; a perdida, não a procurais;
a
todas tratais com violência e dureza.
Assim,
por falta de pastor, e em sua dispersão foram expostas
a
tornarem-se presa de todas as feras.» (Ez 34,4ss)
O
Brasil precisa com urgência encontrar alguém capaz de sentir o clamor dos que
procuram quem possa reconciliar o país, que seja guia sobretudo dos que sofrem o abandono, dos mais expostos
aos perigos de serem devorados por uma política capaz de olhar só para o
próprio umbigo, esquecendo-se do que realmente esta sociedade, embora irada e
dividida, parece estar procurando em vão.
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