Um país sem ética!
O Brasil onde se zomba da ética se coloca
às portas da ditadura
Juan Arias
Jornalista
O emblemático caso de Lula está
revelando que o conceito de ética
está desmoronando a ponto de não se
saber mais onde
começa a verdade e a mentira
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ROGÉRIO FAVRETO Juiz do Tribunal Regional Federal da 4ª Região - Porto Alegre (RS) |
O
caso Lula e os últimos acontecimentos em torno da tentativa de libertá-lo da
prisão a qualquer preço estão revelando algo mais profundo e grave: que, no Brasil, o espúrio conúbio entre política
e justiça está jogando por terra o sentido sagrado da ética, que em suas
origens supõe o reconhecimento entre “o
bem e o mal”, como já advertia o filósofo Aristóteles. E quando um povo confunde os limites entre o
bem comum e o pessoal, quando zomba da ética, coloca-se às portas da ditadura.
Se
instituições como a política e a Justiça são concebidas por seus
responsáveis como uma confraria de
interesses pessoais, à custa das pessoas, é inevitável que surja a tentação
de soluções autoritárias para impor e decidir o que é bom e o que é mau, à
margem do que a sociedade possa pensar.
E
esse é um perigo real hoje no Brasil, onde o emblemático caso de Lula, com tudo
o que arrasta de paixões e interesses e que pode condicionar o presente e o
futuro do país, está revelando que o conceito
de ética está desmoronando a ponto de não se saber mais onde começa a
verdade e a mentira, a liberdade e a tirania.
Quando
uma sociedade percebe que os principais
responsáveis nacionais por lutar pelo princípio da ética – vista como o sal
que impede que a democracia apodreça – são
os primeiros a pisoteá-la e ajoelhá-la perante seus interesses, não há nada
de estranho que ela acabe envenenada, dividida, incrédula e tentada a tomar a justiça nas suas próprias
mãos. Nesse ponto, a explosão de violência é inevitável.
Quando
magistrados, juízes e políticos (preciso dar nomes?) usam seu poder a favor ou
contra os que consideram ser “deles”, em detrimento do princípio de que ela
deve ser igual para todos; quando os que
nomeiam os cargos consideram normal que os nomeados sejam gratos a esses
padrinhos ou ao seu partido, mesmo que à custa de usar dois pesos e duas
medidas; quando observamos esse conluio político judicial à custa da
sociedade e até da Constituição, não é de estranhar que as pessoas nas ruas
vejam isso como um grotesco espetáculo que não corresponde ao peso e à
importância de uma sociedade como a brasileira.
Que
Lula seja julgado como qualquer outro cidadão, nem com maior nem com menor
rigor, já que a lei é igual para todos. Mas que a sociedade sinta de forma
palpável que esse rigor da lei serve também com os outros personagens da
política. Do contrário, não é de estranhar que acabe convencida de que existem réus de estimação e réus para serem perseguidos.
E quando uma sociedade se
sente traída e burlada, não é difícil que caia na tentação de jogar a ética na
sarjeta para fazer justiça com as próprias mãos. Pudemos ver isso nos
últimos dias, depois da loucura judicial da ordem de domingo do juiz Rogério Favreto de tirar Lula da
prisão, e tudo o que isso desencadeou no mundo político e judicial. Um episódio que serve para pôr sobre a mesa
a irritação nacional contra as diversas instituições. O eco que isso
produziu entre cidadãos de ambos os lados do espectro político foi
significativo e aterrador.
a) Por parte da esquerda, os tuítes violentos
lançados à sombra do anonimato das redes, como os que diziam: “Eu queria libertar Lula com as minhas mãos,
e com as mesmas matar Moro”, ou “Gente,
é preciso mandar matar o Moro”.
b) E pela direita, a divulgação do celular
do juiz Favreto, que também culminaram em ameaças de morte a ele e à sua
família, e até o tuíte do general Paulo Chagas, que, com a cara descoberta,
incita à violência contra o juiz que mandou soltar a Lula: “Gauchada!!! O nome dele é Rogerio Favreto. É
um desembargador petralha, está de plantão no TRF.4. Será fácil encontrá-lo
para manifestar-lhe, com a veemência cabível, a nossa opinião sobre ele e a sua
irresponsabilidade. Ele é mais um apaixonado pelo ladrão maior. Conversem com
ele”.
Alguém poderá estranhar que
a sociedade se sinta em guerra? Dividida em lados, como quem a governa, quando vê
que aqueles em quem deveria confiar para que a deusa da justiça não seja
estuprada a colocam aos pés de seus piores interesses?
Até
nas guerras, nos campos de batalha, existem entre inimigos certas regras e
pausas em que os soldados enfrentados param para conversar e até se confraternizar.
Na guerra do Brasil, não parece haver nem momentos de pausa para refletir. Existirá alguém com autoridade e moralidade
capaz de erguer a bandeira branca da paz, ou os políticos continuarão
aproveitando o descontrole que criaram para continuar pescando nas águas
revoltas?
Quando
na Espanha, há mais de 40 anos, faleceu o ditador militar Franco, o país,
ferido com mais de um milhão de mortos vítimas da guerra civil, estava partido
em dois. O então futuro rei Juan Carlos, perante o cadáver do ditador,
prometeu: “Serei o rei de todos os espanhóis”. Ali começou a difícil e ainda
inacabada reconciliação nacional.
Quando
em um país perde-se a medida para distinguir o bem do mal, onde a Justiça pode ter muitas caras e a ética aparece doente e
desprezada, a democracia corre perigo de morte e abrem-se as portas dos fantasmas
autoritários.
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