Eleições 2018 – tudo velho, tudo na mesma!
João Domingos
Não há novidade entre os candidatos.
Os “novos” preferiram ficar fora
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A velha polarização entre candidatos do PT versus PSDB poderá ser repetir, novamente, nestas eleições de 2018 - Será o "sujo falando do mal lavado!" |
As
convenções partidárias mal começaram, o
candidato favorito está preso e inelegível [por
enquanto...], a novela da definição dos vices encontra-se em sua fase
mais aguda. Mas, diante do quadro que se apresenta neste instante na política
brasileira, pode-se dizer que a
tendência da disputa presidencial é um repeteco da final PT versus PSDB.
Arriscar
a previsão com base em quê? Em pelo menos três dados atuais. O primeiro deles é
que Geraldo Alckmin conseguiu reunir
em torno de si o conjunto partidário dos sonhos de qualquer candidato que pense
em ganhar competitividade. Os partidos
que compõem o Centrão juntaram-se a PSD, PTB, PV, PPS e ao PSDB de Alckmin.
Juntos, eles vão garantir cerca de 42,5%
do tempo de propaganda na TV para o tucano.
Pelo
tempo de propaganda que Alckmin terá, é possível dizer – com risco de erro, é
claro, pois nem a política nem a cabeça do eleitor são ciência exata – que o candidato tucano tem certa vantagem sobre
os concorrentes. De acordo com projeção do Estadão Dados:
* Alckmin terá nos 35 dias de propaganda nada menos do que 318
inserções de 30 segundos cada, ou 9 por dia, na programação normal das
emissoras abertas;
* o candidato do PT contará com 122 inserções, 3,5 por dia;
* Ciro Gomes, 40 inserções, 1,1 por dia;
* Marina Silva (Rede), 20 inserções, 0,6 por dia;
* Álvaro Dias (Podemos), 18 inserções, 0,5 por dia; e
* Jair Bolsonaro (PSL), 14 inserções, 0,4 por dia,
para
ficar nos candidatos mais bem situados nas pesquisas.
As inserções são muito mais
importantes do que o horário eleitoral propriamente dito. Elas entram durante a programação normal. No horário eleitoral às vezes
o eleitor vai fazer um lanche.
Pesquisa
do Ibope identificou a TV como fonte de informação de cerca de 70%
dos brasileiros. Não há como negar a importância dela na campanha. Leve-se
em conta ainda que o Brasil tem cerca de 206 milhões de habitantes. Destes, 130
milhões (63% da população, segundo a última Pnad) pertencem às classes C, D e
E, em que também está o maior acesso à TV aberta. É um público gigantesco e decisivo.
O
segundo dado a ser destacado é que todas
as pesquisas feitas nos últimos meses mostram Lula na frente. No Nordeste, em quase todos os Estados, o
petista alcança mais do que 50% dos
votos. Como o PT conseguiu êxito em sua estratégia de manter o nome de Lula
vivo, e identificado ao partido, se ele não puder ser candidato, o que é quase
certo, não há dúvidas de que transferirá
muitos votos para o herdeiro. Não se pode esquecer ainda que o PT terá 3,5 inserções por dia na TV,
mesmo que não faça aliança com nenhum outro partido, e que a militância petista
costuma arrastar votos atrás de si, principalmente na reta final da campanha.
O
terceiro ponto que chama a atenção é que Jair
Bolsonaro, que aparece na frente nos cenários sem Lula, está no mesmo
patamar, em torno de 20% das intenções de voto, desde o início do ano. Sem
tempo de TV, com um mote de campanha que parece já ter conquistado o eleitor
que deveria conquistar, não há nenhum
indicativo hoje de que o candidato do PSL possa mudar esse quadro.
Deve
ser observado ainda que, mesmo com o
País virado de cabeça para baixo com o impeachment
de Dilma Rousseff e por operações como a Lava Jato, que levaram políticos e
empresários poderosos para a cadeia – um deles, Lula –, nenhum novo apareceu na política brasileira.
Os esperados candidatos outsiders [fora
esquema] não vingaram. Os que apareceram – Luciano Huck, Joaquim Barbosa,
Roberto Justus – preferiram ouvir o conselho de suas famílias e evitar a
política.
Desse
modo, a eleição de 2018 está sendo feita
com o que se tinha, o antigo. Então, só para lembrar que neste ano teve
Copa do Mundo, a decisão poderá ser de novo o velho Fla x Flu da política.
Fonte: O Estado de S. Paulo
– Política
– Sábado, 28 de julho de 2018 – 03h00 (Horário de Brasília – DF) – Internet:
clique aqui.
E o candidato de Lula?
Haddad, o
educador
Demétrio
Magnoli
Doutor
em geografia humana pela USP
O que é um Bolsonaro desarmado perto
de um Ortega armado?
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FERNANDO HADDAD - PT/SP |
Calculadamente,
Fernando Haddad posiciona-se para
assumir a condição de avatar de Lula na campanha presidencial. Na
entrevista concedida à Folha de S. Paulo
(23/7), celebra o líder onipresente (“as pessoas sentem Lula”) e fala da
economia como se nada de especialmente relevante tivesse acontecido no governo
Dilma.
Mas,
sobretudo, critica Alckmin por ter o
aval do centrão (“o que tem de mais
fisiológico no país, um atraso”), exibe
o PT como farol da “modernidade” e afirma
que os empresários “precisam ser educados para a democracia”. Arrogância é
pouco. O potencial avatar envereda pelo caminho do autoritarismo, vestindo-o
com uma fantasia iluminista.
O centrão, certamente fisiológico e atrasado,
ofereceu sustentação aos dois mandatos de Lula e, até as vésperas do impeachment, ao governo Dilma.
[Que
moral o PT tem para falar de aliança com o Centrão?]
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GERALDO ALCKMIN - no centro, ao microfone recebe apoio o tal "Centrão", conjunto de partidos menores, mas muito influentes no Congresso Foto: Ailton de Freitas / O Globo |
Lula e seu candidato a
prefeito paulistano, um certo Haddad, peregrinaram à Canossa de Maluf, trocando a humilhante foto do abraço pelo
apoio eleitoral. Antes de “educar” os empresários, Haddad precisa educar-nos a todos
na arte de apagar a história recente.
“Modernidade”
versus “atraso”. A polaridade inspirou a primeira sociologia brasileira, até
que se compreendessem os mecanismos
pelos quais o atraso se moderniza e, por essa via, se reitera. A história
do PT ilustra, melhor que tudo, o processo.
De um Lula a outro, no
trajeto de São Bernardo ao Planalto, o Brasil aprendeu com quantos mensalões se faz uma maioria parlamentar e com quantos petrolões se assina um
pacto com as empreiteiras. Haddad precisa reeducar-se a si mesmo fora do
pensamento dualista.
O
apoio de parcela do empresariado a Bolsonaro provoca a santa indignação de
Haddad. Mas qual é a surpresa na informação de que não poucos empresários
transitam de um amor louco pelo lulismo
para uma arrebatadora paixão pelo
bolsonarismo?
O mesmo empresário que escolhia vendar seus próprios olhos para
capturar as rendas fáceis presenteadas pelo BNDES de Mantega[1] está disposto a conservar sua cegueira política voluntária para coletar as 30 moedas
que a farra ultraliberal de Paulo Guedes[2]
promete distribuir.
Não
sei qual seria o método pedagógico de Haddad para “educar” os empresários, mas
nenhum é mais eficaz do que o utilizado pelo governo Lula, “o mais responsável
de todos os governos da história”, com figuras como Marcelo Odebrecht e Eike
Batista.
De
fato, o “Estado mínimo” de Bolsonaro e
seu guru econômico[3] não
combinam com a democracia. Os eleitores bolsonaristas, empresários ou
outros, talvez não compreendam isso — ou, talvez, simplesmente não gostem da
democracia.
Mas
a ambição de um partido de “educar” a
sociedade expõe sua alma autoritária. Mussolini
queria educar os italianos. Fidel Castro almejava
educar os cubanos. Pol Pot resolveu educar os
cambojanos. Já os partidos democráticos nutrem esperanças mais modestas: como
admitem que não são portadores da verdade histórica, e que podem estar errados,
desejam apenas persuadir os eleitores.
“Devem
ser educados para a democracia.” Haddad
usa a palavra “democracia” para expressar sua repulsa a Bolsonaro. Nisso, tem
razão. Mas o que é um Bolsonaro desarmado diante de um Ortega armado?
Nosso
“clown” da extrema direita [Bolsonaro] mata imaginariamente seus adversários,
sonhando restaurar a ditadura que perdeu os dentes quando ele não passava de um
mero cadete. Já Ortega[4], a
quem o PT oferece o mesmo apoio incondicional que presta a Maduro, mata
realmente, dia sim e dia também, sustentando seu poder à base de selvagem
repressão.
A
jornalista Catia Seabra esqueceu-se
de confrontar Haddad com perguntas sobre a Nicarágua ou a Venezuela. Deixou-me
curioso. Por que o partido que
representa a “modernidade” e fala em nome da “democracia” defende fanaticamente
os governos Ortega e Maduro?
Por
que Haddad não se ocupa, antes de tudo, em educar
o próprio PT? Quem educa o educador?
NOTAS
[1] – Guido Mantega foi ministro da Fazenda
(2006-2011) e ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão do Governo Lula (1
de janeiro de 2003
até 18 de novembro de 2004). Foi o ministro
da Fazenda no primeiro Governo Dilma Rousseff (2011-2015), sucedido no cargo
pelo ex-secretário do tesouro. É formado em economia pela Universidade de São
Paulo, com doutorado e especialização em sociologia. Foi professor de economia
no curso de mestrado e doutorado da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, de 1982 a 1987. É professor licenciado da Escola de Administração de
Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas. Foi assessor de Paul Singer
na Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo durante a administração da
prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Como ex-membro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), teve o
prefácio de seu primeiro livro, Acumulação
Monopolista e Crise no Brasil, assinado por Fernando Henrique Cardoso. Seu
livro com José Márcio Rego Conversas com
Economistas Brasileiros II teve prefácio do economista Luiz Gonzaga
Belluzzo.
[2] – Paulo Guedes é um dos fundadores do Banco Pactual e também fundador e sócio
majoritário do grupo BR Investimentos,
hoje parte da Bozano Investimentos.
Economista com Doutorado em economia pela Universidade de Chicago, considerada
uma referência do pensamento econômico liberal, Guedes também já foi integrante
do conselho de administração de diversas companhias, como PDG Realty, Localiza e Anima Educação. Guedes também fundou o Instituto Millenium, um 'think tank' que
dissemina o pensamento econômico liberal, e foi professor de macroeconomia na
PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), na FGV (Fundação
Getúlio Vargas) e no IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e também já
foi sócio majoritário do Ibmec (atualmente
chamado de Insper). Está altamente cotado para ser o Ministro da Fazenda de um
pretenso governo de Bolsonaro.
[3] – O
economista Paulo Guedes, conferir a
nota anterior.
[4] – Daniel Ortega foi presidente da
Nicarágua entre 1985 e 1990 e voltou ao cargo em 2006, tendo sido reeleito em
2011 e 2016. É membro da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) desde
1962. No país, não há limite de mandatos. Atualmente, ainda como Presidente da
Nicarágua, conduz uma violenta e sanguinária perseguição aos seus opositores,
estudantes, Igreja Católica e outras forças da sociedade civil.
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