Suicídio de Jovens
Os enigmas do suicídio, maior causa de morte
de adolescentes no Brasil
Nirlando
Beirão
O suicídio, pela sua própria
natureza da surpresa e imprevisibilidade, acaba punindo emocionalmente a todo
entorno que envolve os que se vitimam
O
suicídio é o assunto do momento, um fenômeno suficientemente trágico e complexo
para ser, ainda que com alguma procedência, relacionado apenas e tão somente ao
deprimente quadro da conjuntura nacional.
A
impressão, nada equivocada, é a de que é
um fenômeno que vem em surtos. De repente, é como se os casos se multiplicassem, mas o provável é que,
independentemente das estatísticas, certos dramas tenham o condão de despertar
mais as atenções e as consciências. Em
especial quando, num assombro de incoerência, as vítimas são jovens na flor da
idade.
No
espaço de menos de duas semanas, dois adolescentes do Colégio Bandeirantes, em São Paulo, se mataram. Há notícias de que
outro secundarista do mesmo Bandeirantes havia, um ano atrás, intentado contra
a própria vida – nas dependências da escola. Sobreviveu.
O Bandeirantes é um colégio de elite,
frequentado pela classe média abonada e sempre muito bem situado nos rankings
do desempenho acadêmico. Os episódios seguidos não pareciam fazer sentido.
A
escola respondeu com transparência e responsabilidade, recrutando o know-how de
psicólogos e educadores, a fim de lidar com a comoção dos alunos e professores.
Os espaços de conversa e reflexão foram estendidos aos pais.
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COLÉGIO BANDEIRANTES - São Paulo (SP) |
Temas
tabus como a depressão, seus sintomas e suas eventuais consequências
vieram à tona – ainda que em pelo menos um dos dois casos esteja supostamente
uma súbita desilusão amorosa.
O
Bandeirantes aceitou até mesmo o desafio de investigar a tentação alheia de atribuir
ao colégio um rigor pedagógico excessivo, que de fato o currículo cobra, mas
que está longe de preencher todo o espectro de situações apresentadas pela
tragédia.
A última estatística do Ministério da Saúde
digna de crédito, de 2015, apurou 722
mortes entre adolescentes de 15 a 19 anos – sendo o suicídio a segunda
maior causa de morte entre os jovens.
De
todo modo, o Ministério da Saúde passou
a tratar o suicídio adolescente como uma epidemia, um sinistro problema de
saúde pública, digno de atenção e prevenção. Embora enevoadas pelo
preconceito e por evasivas, as estatísticas denunciam que nos últimos quatro anos o número de casos no Brasil aumentou 12%.
O
suicídio, pela sua própria natureza da surpresa e imprevisibilidade, acaba
punindo emocionalmente a todo entorno que envolve os que se vitimam. Sempre ficará para a família, os amigos ou
os colegas – como se percebe agora no Bandeirantes – o amargo sabor da culpa mesclado à impotência.
A
ilusão de que, um gesto afetuoso, uma palavra prévia e uma maior precaução
poderiam ter redimido o potencial suicida de sua fatal intenção. Nem sempre, porém, o grau de angústia é
perceptível mesmo aos mais chegados.
Os
frequentes episódios de colegiais norte-americanos que saem atirando em seus
colegas e professores para depois se matarem apresentam protagonistas até então
descritos como meramente tímidos, quando não “uns amores de pessoas”.
O
fantasma do bullying costuma aparecer
em episódios como esses, em que a
vingança intimamente fermentada desencadeia uma violência contra os outros,
antes de se voltar para si mesmo.
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COLÉGIO GOYASES - Goiânia - GO |
Em
outubro passado, um garoto de 14 anos tentou reproduzir conscientemente, no Colégio Goyases, em Goiânia [GO], o massacre de Columbine, nos Estados
Unidos, quando dois alunos mataram 12 colegas e um professor e feriram outros
15 antes de se matarem.
O
assassino de Goiânia, que usou uma pistola da mãe PM, citou também a chacina de
Realengo, no Rio, onde um ex-aluno perturbado invadiu uma escola pública e
fuzilou 12 colegas entre 13 e 16 anos que nada tinham a ver com suas
alucinações. O assassino de Realengo se
matou. O de Goiânia, não.
Dificuldade
maior para os educadores e os psicoterapeutas está em outra modalidade de
suicídio, aquele provocado por um impulso
momentâneo.
O adolescente
costuma ter o surpreendente pendor de, em sua insegurança visceral, converter
uma dificuldade aparentemente miúda num oceano de problemas. Acuado, atormentado, pode buscar a mais irremediável das saídas.
É a típica situação em que, se a vítima pudesse se arrepender a posteriori,
certamente se arrependeria.
O suicídio é contagioso – essa sua característica
tóxica assusta igualmente aqueles que estão vizinhos a ele. O drama de Champignon,
guitarrista da banda Charlie Brown Júnior, é emblemático. Ele se matou aos 35
anos apenas seis meses depois da morte, por overdose de cocaína, do vocalista e
band leader Chorão.
Em
maio, outro músico ligado à banda, Peu Sousa, se enforcara com um
cinto. Champignon lamentou, na época: “Só
mesmo quem perdeu a fé na vida faz uma coisa dessas”.
Na
noite de 8 de setembro de 2013, Champignon levantou-se intempestivamente da
mesa de jantar, foi ao quarto e deu um tiro na cabeça. Sua mulher, Claudia,
estava grávida. Ela não percebera uma única sombra que pudesse obscurecer a
felicidade do casal.
O pop rock tem, aliás, uma
vocação epidêmica para o suicídio, premeditado ou acidental: Sid Vicious e Kurt Cobain
encabeçam uma longa lista.
Até
o século XIX, a morte autoinfligida estava catalogada entre as anomalias
produzidas nos abismos da psique humana. Típico de poetas românticos
descabelados. De repente, o francês Émile
Durkheim, um dos fundadores de uma disciplina chamada Sociologia, conseguiu
estabelecer, numa obra pioneira, de 1897, as possíveis conexões do suicídio com as peculiaridades da vida social:
educação, etnia, emprego etc.
A
sanção de loucura individual, quase sempre de fundo religioso, perdia espaço
para a interpretação de malaise [mal-estar]
coletiva. Outro francês, Albert Camus,
iria além. A frase inaugural de O Mito de
Sísifo reza: “Só há um problema
filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não
ser vivida é responder a uma questão fundamental de filosofia”.
No
quesito contágio, a Golden Gate Bridge,
que sobrevoa o canal que leva da Baía de São Francisco ao Pacífico, é
imbatível. É uma ponte linda de morrer. Mas tem gente que toma isso ao pé da
letra. Muita gente.
Tanto
que em seus 2,7 quilômetros de elegância arquitetônica, inaugurada em 1937, há
uma dezena daqueles telefones de emergência do tipo CVC para quem, movido pela
atração letal daquela esfuziante paisagem, se sinta atraído pelo ideal de se
matar em grande estilo. Só perde, em atração fatal, para a ponte sobre o Rio Yang-tsé, .
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PONTE SOBRE O RIO YANG-TSÉ - China Esta ponte é o local de onde mais pessoas se matam no mundo! |
Os
suicídios na Golden Gate costumam vir em ondas. Tanto que, em 2013, quando o
recorde de mortes num ano estava para ser batido, a imprensa decidiu parar de
divulgar as estatísticas. O vão livre de 67 metros nem sempre se traduz num voo
fatal.
Há
os que miraculosamente se salvam e ficam para contar a história. Na crônica das
tragédias, a primeira tentativa anotada ocorreu um par de dias após a
inauguração. O indigitado lançou-se e caiu sobre uma barcaça que por ali
passava. Quebrou as duas pernas.
Em
1977, quando o número de suicidas na Golden Gate chegou a 40, a cidade de São
Francisco envolveu-se num apaixonado debate sobre se devia ou não envolver a
estrutura metálica com uma tela que dissuadisse os candidatos à morte
espetacular.
Boa
parte da liberal São Francisco alegava que, afinal, matar-se é um direito como
qualquer outro. Outro grupo – que foi derrotado – defendia severas medidas
antissuicidas. Nesse grupo pró-vida pontificou um cavalheiro de nome Jim Jones. Paradoxalmente, esse mesmo
Sr. Jones induziu mais de 900 acólitos de sua seita, Templo dos Povos, a cometer, em Jonestown, na Guiana, o maior suicídio coletivo da história desde a
batalha das Termópilas (480 a.C.).
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ANA BEATRIZ BRANDÃO |
Entrevista:
Como sobreviver à dor?
No
Brasil, felizmente, a resposta sangrenta ao bullying é bem menos frequente do
que nos Estados Unidos, embora o problema seja igualmente preocupante. Aos 18
anos de idade, Ana Beatriz Brandão
conseguiu transformar os abusos que sofreu dos colegas numa lição de vida e em
copiosa literatura.
Tem
mais de 20 livros publicados, o último deles, A Garota das Sapatilhas Brancas, com foco no tema e com direito a
figurar no rol dos best sellers. Ana
Beatriz escreve ficção com base numa realidade que leva adolescentes
vulneráveis ao gesto extremo. A escrita é que a salvou de ter o mesmo
destino.
CartaCapital:
Bullying é, em que proporção, fator
de suicídio de adolescentes?
Ana Beatriz
Brandão: Pode
ser um fator, sim. O bullying machuca emocionalmente a
vítima. Dá uma sensação de que estamos sozinhos, de que ninguém gosta da gente,
de que o mundo seria melhor se nós não existíssemos. E sem ajuda é muito
difícil de suportar. Uma coisa que meus pais sempre me diziam era que um dia
tudo aquilo iria passar. E com a ajuda de todos que me amavam, passou. Procuro
retratar os dois lados da moeda, quem sofre bullying
e quem pratica, e mostrar que todos nessa equação saem perdendo.
CC:
Você, sob tensão extrema, chegou a pensar em tirar a vida?
ABB: Acho que todo mundo, em
algum momento de extremo sofrimento e estresse, tenha pensado nisso um dia. Mas
o mais importante é o que fazer com esse pensamento. Por isso eu reforço a importância de não aguentar tudo sozinho.
Sempre que pensava que estava sozinha, que sentia que não aguentaria mais, eu tinha no apoio das pessoas que me amavam
o suporte para enfrentar os problemas. E os livros, naquela época, me
ajudaram muito também. Livros são a
chance de nos desconectarmos por alguns momentos do que estamos passando.
Além de mostrar que todos têm problemas e que podem superá-los.
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