Agora, entendo o Brasil!
A pauta do Brasil é rediscutir o Estado brasileiro
&
2019, a crise que agrupará todas as crises
Entrevista
com Rudá Ricci*
Cientista
Social e Político
Patricia
Fachin e Ricardo Machado
Os principais temas da vida
política, social e econômica brasileira
analisados por um dos melhores
cientistas políticos da atualidade
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RUDÁ RICCI |
Elaborar
um projeto de Estado é a principal
pauta política a ser discutida no Brasil daqui para frente, defende o cientista
político Rudá Ricci na entrevista a seguir, concedida pessoalmente à IHU On-Line na semana passada, no
Instituto Humanitas Unisinos - IHU, no Campus Unisinos Porto Alegre (RS).
Na
avaliação dele, “no Brasil nós nunca
tivemos uma noção muito clara do papel do Estado”, e com exceção do governo
Getúlio Vargas, do embate entre direita e esquerda nos anos 60 e do regime
militar, nunca se discutiu a República
no país. “O que estou tentando dizer é que, fora aqueles três períodos, não
discutimos mais o Estado brasileiro, discutimos a desconstrução do Estado
brasileiro e das políticas de proteção social”, resume. E adverte: “O Brasil é
um dos países que tem o menor número de funcionários públicos por mil
habitantes no mundo, um país que tem pouquíssimos cargos comissionados — 16% do
total dos servidores públicos são comissionados; isso é nada. Mas em
contrapartida existe uma elite no
funcionalismo público, principalmente no Judiciário, que comanda a República
brasileira junto com os deputados federais e que recebe como o topo da elite
brasileira. Esses estão incluídos no 1% dos mais ricos do Brasil; isso é
inadmissível em um país com alta desigualdade como o nosso.
O
fato é que precisamos rediscutir o
Estado brasileiro:
* onde ele está,
* quais funcionários
precisamos ter,
* quais os serviços que
necessitamos, e
* parar com a terceirização,
porque nenhum país consegue se
desenvolver sem uma inteligência pública.
Nós
estamos destruindo a inteligência pública e jogando-a para as consultorias,
para empresas que são trampolim na carreira individual das pessoas que prestam
consultoria para o Estado”.
Confira
a entrevista.
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VARGUISMO |
IHU On-Line —
Quais são os temas centrais que deveriam estar em pauta da discussão eleitoral
deste ano, pensando um projeto de país para o Brasil?
Rudá Ricci — A questão central, mas que,
evidentemente, acredito que não entrará na pauta política pela polarização
ideológica, é o projeto de Estado.
No Brasil nós nunca tivemos uma noção muito clara do papel do Estado. Mas o
Varguismo, o Getulismo, o embate da esquerda e da direita nos anos 1960 e o
regime militar foram os três grandes períodos em que tivemos uma discussão
sobre a República. A reflexão da Constituinte
de 1987 foi muito fechada em cúpulas de organizações sociais e de
representações de classe, e contou com a participação de algumas organizações
religiosas — principalmente católicas — e juristas, mas ela não chegou a
dominar o debate nacional, de fato, nos “grotões”.
Mas
nesses três períodos que citei tivemos uma discussão muito importante sobre o
Estado, porque isso mexia demais com a vida das pessoas. Discutiu-se a implantação da Carteira de Trabalho, criou-se a
Consolidação das Leis do Trabalho - CLT. Mais tarde, nos anos 1960,
criou-se a possibilidade da representação
de sindicatos no meio rural, que era tardia e só nasceu em 1961. No regime militar se discutiu sobre o papel do Estado, a relação dele com as
empresas, as empresas estratégicas. Em seguida tivemos um governo como o de
[José] Sarney, que foi muito frágil e que fez a política de governo pelos
“escaninhos” do Legislativo e com muitas ameaças de parte a parte. Por exemplo,
o General Leônidas [Pires Gonçalves] na época criou ameaças com deputados que
presidiam Comissões Técnicas da Constituinte para impor o papel do Exército
como garantidor da segurança interna. Sarney fez uma série de intervenções:
lembro que quando fiz parte da implantação do Plano Nacional de Reforma
Agrária, ele fez intervenções por meio de alguns políticos para mudar
completamente a lei e o percurso das políticas públicas.
A
partir daí se tem a ascensão de uma visão ultraliberal que vem com [Fernando]
Collor. Itamar [Franco] foi um interregno nessa história, mas, depois, com Fernando Henrique Cardoso se retomou um
discurso de destruição do Estado Nacional. Posteriormente, com Lula e
Dilma, apesar da imagem de eles terem conseguido, de fato, alterar duas
questões centrais, como o diálogo com as forças políticas sociais organizadas
no Brasil para tentar reorganizar as políticas públicas — ou pelo menos
convencer — e as políticas sociais de aumento da renda, ocorreram situações, na
política, de muito retrocesso. Destruímos,
dentro do PT, todas aquelas inovações que se chamavam, até certo tempo, de
“modo petista de governar”:
* o Orçamento Participativo,
* os Conselhos de Gestão
Pública,
* a forma de gerir com
transparência,
* a inversão de prioridades,
* as estruturas de controle
de políticas públicas e não só conselhos, como a criação de comitês dos
beneficiários de uma política para eles fiscalizarem a execução e a metodologia
no emprego daquelas políticas, equipes avançadas de atendimento, com o Estado
indo ao cidadão, como é o caso do Programa de Saúde da Família - PSF, entre
outras.
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Consumismo na "Black Friday" - São Paulo - SP |
CLASSE
C
Nós
fomos retrocedendo no governo Lula,
porque esse era um governo altamente
centralizador e que induzia tanto o empresariado a fazer investimentos,
como o consumo das classes trabalhadoras. Não
se teve nesse período a emergência da Classe C. O conceito de Classe C é um
conceito mercadológico de consumo; Classe
C de Consumo é o conceito certo.
A classe trabalhadora aumentou sua renda média, mas continuava, do ponto de
vista sociológico, classe trabalhadora; não era, digamos, uma classe
proprietária. O fato é que essa indução
do consumo gerou um conservadorismo
popular muito forte porque não fez a inclusão pelo direito. A inclusão
foi feita pelo consumo e quando isso acontece é possível perceber que o prestígio pessoal se dá por aquilo que é
consumido, ou seja, aquilo que se mostra para o vizinho ou a família no
Natal, como a compra de um carro novo.
Desta
forma, a pessoa tenta garantir o status
que recebeu e por isso ingressa em cursos noturnos universitários para
conseguir ter um título, fazer um concurso e continuar progredindo. Isso gerou
um conservadorismo e um hedonismo popular
que não conhecíamos até então e, a partir daí, um ultraindividualismo que toma parte do país. Com o governo Dilma
Rousseff isso piorou.
O
que estou tentando dizer é que, fora
aqueles três períodos, não
discutimos mais o Estado brasileiro, discutimos a desconstrução do Estado
brasileiro e das políticas de proteção social. Este é o grande tema no
Brasil: para que serve o Estado?
O
Brasil é um dos países que tem o menor número de funcionários públicos por mil
habitantes no mundo, um país que tem pouquíssimos cargos comissionados — 16% do
total dos servidores públicos são comissionados; isso é nada.
Mas em contrapartida existe uma elite no funcionalismo público,
principalmente no Judiciário, que
comanda a República brasileira junto com os deputados federais e que recebe
como o topo da elite brasileira. Esses estão incluídos no 1% dos mais ricos
do Brasil; isso é inadmissível em um país com alta desigualdade como o nosso. O
fato é que precisamos rediscutir o Estado brasileiro, onde ele está, quais funcionários
precisamos ter, quais os serviços que necessitamos, e parar com a
terceirização, porque nenhum país consegue se desenvolver sem uma inteligência
pública. Nós estamos destruindo a inteligência
pública e jogando-a para as consultorias, para empresas que são trampolim
na carreira individual das pessoas que prestam consultoria para o Estado.
IHU On-Line —
O senhor está fazendo uma leitura crítica do tipo de intervenção estatal feito
especialmente nos governos petistas. Entretanto, à época parecia haver um apoio
grande de muitas instituições e intelectuais às políticas de Estado adotadas
pelo governo Lula em várias áreas, como na área de educação, com os
financiamentos favorecidos pelo Estado para o ingresso de estudantes nas
universidades, na área de habitação com a formulação do Programa Minha Casa
Minha Vida, na criação do Bolsa Família, na própria ideia de novo
desenvolvimentismo, tendo o Estado como indutor de muitos investimentos
econômicos, inclusive escolhendo quem seriam as empresas tidas como “campeões
nacionais”, como foi o caso das empresas alimentícias etc. Que leitura faz,
retrospectivamente, de como esse modelo estatal lulista foi compreendido
à época? Durante o lulismo era feita essa leitura crítica acerca do modo como
os governos petistas estavam estruturando o Estado ou não? Por que as críticas
que o senhor aponta hoje eram tímidas naquela época?
Rudá Ricci — Existe uma diferença entre ter uma concepção de Estado e de Nação
e ter uma concepção do papel do Estado
para desenvolver certas políticas; é diferente. Uma questão é estrutural, isto é, nosso
país se desenvolve a partir de que estruturas públicas? No Brasil o empresariado é absolutamente
dependente do Estado brasileiro; não que em outros países ele seja muito
autônomo, mas aqui é absolutamente dependente. Por exemplo, a imprensa
brasileira não existe sem o Estado: ela não sobrevive da venda de produtos. A
própria Rede Globo só existe porque foi criada pelo Estado militar com
financiamento público e com uma intervenção junto à maior rede de televisão e
telecomunicações dos Estados Unidos à época, que fez consultoria no Brasil
porque o governo militar queria uma rede de comunicação de integração nacional.
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PREFEITOS EM BRASÍLIA (DF) RECEBIDOS POR DEPUTADOS E SENADORES A "romaria" de prefeitos é algo comum aos gabinetes da capital federal |
Política
pública sem concepção estrutural de Estado
Nós não tínhamos exatamente,
no governo Lula, uma concepção estrutural do Estado e de organização da
sociedade;
tinha-se uma ideia de como se poderia fazer um arranjo, um pacto
desenvolvimentista. Tratava-se de uma visão mais conjuntural, de momento, em
função da entrada de recursos externos que estava ocorrendo naquele momento, em
especial da China. Eu fazia parte da executiva nacional do Fórum Brasil de
Orçamento e nós tivemos algumas conversas com membros do governo federal e com
ministros, porque estávamos muitos
preocupados com a forma como o orçamento público federal estava sendo enxugado
dos recursos e investimentos dos municípios por meio da inanição do Fundo de
Participação dos Municípios - FPM, e
concentrando na União entre 65% e 70% dos recursos públicos. O Fundo de
Participação dos Municípios alimenta 80% das cidades brasileiras; sem ele, os
municípios entram em colapso. Mas o FPM
foi enxugado durante o governo Lula, porque a maior fonte de recurso passou a
ser o Imposto de Produtos Industriais - IPI. O IPI foi zerado no governo
Lula para gerar emprego na indústria metalúrgica, e não foi apenas por causa
disso, foi algo deliberado do governo. Conversamos muito com representantes do
governo à época e o que se dizia era o seguinte: precisamos induzir os
municípios a fazer convênios com as agências federais do Estado para que
consigamos implantar programas de infraestrutura e políticas sociais no país
inteiro. Nós ficamos horrorizados. Sabe
qual foi a consequência disso? Sabe o que acontece hoje nos municípios? Vamos a
qualquer prefeitura e ela está destruída: não existem mais pensadores e
formuladores de políticas porque, por
mais de uma década, técnicos foram contratados pela prefeitura para que
pudessem entrar nos programas da internet do governo federal para conseguir
políticas públicas para o município, mas só isso não bastava.
Por
esse motivo que surgiu o Eduardo Cunha, porque os deputados federais, durante as gestões lulistas, passaram a ter um
papel fundamental na negociação entre prefeito e ministério, e com isso ele ganhava do prefeito, mesmo sendo de
partido adversário, um cabo eleitoral. É a partir disso que nasce o reinado
dos deputados federais em todos os
partidos políticos do país hoje. Quem manda são os deputados federais e não
mais os militantes de base, os professores, os funcionários públicos.
Do
ponto de vista de uma discussão sobre o Estado Nacional e o desenvolvimento
estratégico e estrutural, o governo Lula não avançou em quase nada, pelo
contrário, em algumas políticas
públicas, como EDUCAÇÃO, foi um atraso estrondoso no Brasil.
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BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS Sociólogo português |
IHU On-Line —
Como essa desestruturação do Estado gera impactos na democracia como modelo
político?
Rudá Ricci — O que um autor recente
chama de “democracia monitória”, de monitoramento, alguns autores chamam de
“democracia deliberativa”, mas acredito que essa concepção de “democracia
monitória” tem um avanço, que é a ideia de que a sociedade civil continua
exercendo sua cidadania e o controle sobre as políticas de Estado depois do
período eleitoral. Então, ter câmaras de negociação temáticas cria uma
politização da sociedade civil e cria também uma ideia que o Boaventura de Sousa Santos deu muito
tempo atrás — foi poética, mas acredito ser interessante e vou explicar por que
—, de construir um Estado como um
novíssimo movimento social. Essa ideia do Estado como um movimento social é
a ideia de a sociedade civil, com suas
diferenças e disputas, ingressar no Estado. Isso é o inverso da noção
liberal do Estado ou a radicalização de uma visão liberal mais politizada do
Estado. Trata-se de ter o Estado sob o
domínio da sociedade civil, com ela sendo cada vez mais politizada —
poderia dizer até que isso parece muito com a lógica marxista clássica de ir
diluindo a estrutura de Estado na medida em que a sociedade vai se
auto-organizando. Isso tem a ver com a discussão sobre a política no século
XXI, porque as redes sociais conformam essa possibilidade de insinuação sobre
as estruturas públicas e de autogestão.
Desde
a origem, antes da internet surgir, na época em que se falava de cibernética,
era feita uma discussão — que continua até hoje — entre a ideia dessas estruturas da informática serem uma espécie de Big
Brother controlando a todos nós e a ideia da autogestão e do autocontrole.
O fenômeno da internet e dos computadores pessoais, nos anos 1990, foi dominado
por ex-hippies — [Steve] Jobs era de uma comunidade hippie que chegou a falar
da antipolítica. Então, essa tensão dentro das redes sociais sempre ocorreu e,
talvez, aí esteja um desenho novo que Boaventura chamava de “Estado como
novíssimo movimento social”. É uma
hiperpolitização da sociedade controlando cada vez mais os Estados, as
decisões, a fiscalização, o planejamento e a avaliação dos serviços públicos.
A democracia avançaria um pouco mais nesse sentido que, de certa maneira, foi
apontado pelo PT nos anos 1980 e 1990, mas do qual o partido recuou na metade
dos anos 1990 e passou a ter uma visão mais empresarial da política, mais
tecnicista e focalizada, portanto, mais pós-moderna. É isto que tem de relação
direta hoje, no século XXI, entre democracia e uma visão de Estado: é um Estado
mais poroso, disputado e mais contratualista.
IHU On-Line —
Nessa perspectiva que o senhor aponta, o que seria um projeto de Estado para o
Brasil? Alguns sociólogos defendem que o Estado deveria se preocupar com a
questão social relacionada à educação e à segurança, sem ser ele próprio um
promotor do crescimento econômico, enquanto outros argumentam que o Estado deve
ter um papel central como motor de desenvolvimento da economia. Que linhas
centrais deveriam estar presentes numa visão de Estado para o Brasil?
Rudá Ricci — Na área em que a população
decidir. Quem decide isso? Os tecnocratas? Os liberais? Os empresários? Um
intelectual como Jessé [de Souza]? É uma
contradição teórica: como alguém diz que o Estado tem que ser democrático e tem
que fazer isso sem consultar a população? O problema é que o Brasil é formado por elites, e mesmo aqueles autores que criticam a
elitização do Brasil se consideram uma elite e não consultam ninguém, eles
falam o que o Estado tem que ter.
Estamos
tendo um debate hoje na, sociologia brasileira, de vaidades, ou seja, não se criticam exatamente teorias, se
criticam pessoas. Eu estou falando do caminho inverso, de um projeto
coletivo. Vamos lembrar que lá na origem
o conceito de cidadania se divide entre o conceito dos gregos da antiguidade e dos romanos: os romanos priorizavam a concepção de direito
civil e os gregos priorizavam a concepção de direito coletivo. Estou
nesta fatia dos gregos que vai dar em socialistas etc. Além disso, temos a
franja muito interessante de diálogo com autores que se dizem liberais, mas que
têm uma concepção coletiva, como é o caso de Amartya Sen, economista e prêmio Nobel de 1990.
O
que quero saber é: quem decide qual é a política de Estado? Qual elite? De qual
universidade? De qual empresa? Nós
perdemos a noção de democracia e de Estado no Brasil. Estado é um contrato, não é uma coisa, é um contrato da sociedade dizendo “é isso que nós queremos”.
E o que as pesquisas indicam, que talvez
fosse um caminho, é que o problema no Brasil é segurança e saúde, não é
corrupção.
FERNANDO HADDAD (PT-SP) Foi Ministro da Educação de 29/07/2005 a 24/01/2012 |
IHU On-Line —
Uma agenda estatal coletiva iria por esta via, ou seja, investiria inicialmente
em saúde e segurança?
Rudá Ricci — Se eu for pensar política
pública, talvez, mas a questão é a seguinte: ao saber qual é o problema a ser
resolvido, eu quero saber como se faz para resolvê-lo, e nós não discutimos o
método. Como é possível perceber, estou
defendendo uma concepção de democracia radicalizada e citei autores no
campo de esquerda e vou ficar fazendo a crítica no campo de esquerda mais
recente.
Vejamos,
por exemplo, a política de educação de
[Fernando] Haddad: foi o maior atraso da política educacional do final do
regime militar até hoje, porque ele transformou aluno em número. A ideia de
ter um sistema de avaliação externa que
forma um ranking — embora tenham dito que não seria um ranking, todos
sabiam que era —, é um artificialismo,
porque o principal fator de desempenho
escolar no Brasil hoje, segundo várias pesquisas do IBGE, é a MÃE. Nesse
sentido, as realidades são muito distintas, porque existe aquele estudante que
tem uma mãe com baixa qualificação, que trabalha o dia inteiro e está sozinha,
e um estudante de uma família que tem uma mãe com alta qualificação e que tem
tempo para lidar com ele e dá muito carinho. Então, dadas essas realidades, não pode ter ranking em educação. Isso
Paulo Freire e Anísio Teixeira já tinham nos ensinado, e não estou citando os
dois à toa, porque o país com a melhor educação pública do mundo, a Finlândia,
está apoiada em Paulo Freire e Anísio Teixeira.
O fato é que se faz uma
reforma curricular sem discuti-la com a sociedade. É esse Estado que sou
contra, porque ele impõe o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica - Ideb
e todas as escolas começam a trabalhar o currículo embutido nas questões do
Ideb sem nunca ter discutido se as questões são corretas. O Estado impõe o Exame Nacional do Ensino Médio - Enem primeiro nas universidades
federais e depois vai expandindo para as públicas, que são, normalmente, muito
concorridas, e com isso os cursinhos pré-vestibular começam a fazer a
preparação para o Enem. O mesmo acontece com o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes - Enade: se formos para o interiorzão deste país, veremos que muitas faculdades particulares fazem
cursinho para o Enade. Ou seja, isso
é reforma curricular? Algum de nós da área da educação foi consultado sobre
isso? Nenhum de nós.
No
governo Dilma começaram a discutir a Base
Nacional Comum Curricular - BNCC.
Segundo a legislação federal, é obrigado a ter consulta. A consulta foi feita e cerca de dois milhões de pessoas enviaram
propostas de mudança da primeira versão. O que aconteceu no período final do governo Dilma? O governo
começou a negociar com forças políticas do Congresso — os evangélicos — para tentar segurar Dilma no governo, e alteraram a BNCC. Depois disso, vários
coordenadores pediram demissão. Em seguida ela caiu e a situação piorou ainda
mais com o governo Temer. Ou seja, isso
é projeto de Estado? Isso é projeto privatista, é projeto de um
intelectual, no caso o Haddad, que decidiu o que é bom para o país em termos de
educação. Temos que acabar com isso. Este
país tem 200 milhões de habitantes e não é possível que seja formado por alguns
iluminados. [Sejam à direita ou à esquerda da
política nacional!]
O
conceito de Estado é um conceito democrático de Estado. Evidentemente que temos
de ter alguns projetos de desenvolvimento, não tenho dúvida nenhuma, como a
questão da matriz energética e o acesso às novas tecnologias, que são
fundamentais e isso é papel do Estado. Além disso, pesquisa e ensino são
fundamentais no país, assim como a manutenção e a transparência do Sistema
Único de Saúde - SUS. Entretanto, é
preciso uma discussão pública para se decidir um projeto de Estado, e não um
projeto de governo. O que nós temos
no Brasil é projeto de governo, e não projeto de Estado, portanto, não é democrático. Essa é minha
crítica maior.
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MANIFESTAÇÃO NA AVENIDA PAULISTA - SÃO PAULO (SP) 20 de junho de 2013 |
IHU On-Line —
Qual sua avaliação de Junho de 2013, cinco anos depois? Alguns avaliam que o
espírito de Junho gerou outras mobilizações no país, como a recente greve dos
caminhoneiros. Outros avaliam que aquelas manifestações representaram a
insatisfação da população com o governo. Junho foi o último grito das ruas não
escutado por Dilma e pelo PT?
Rudá Ricci — Em primeiro lugar, está
ocorrendo um embate de interpretações sobre Junho de 2013. Vou usar o termo
pós-moderno “narrativas” sobre 2013,
porque agora na universidade tem que se falar que tudo é “narrativa”: se
falarmos “café”, vão perguntar qual é a “narrativa” de café que se quer [risos]. Essa ideia de narrativa é uma
visão antropológica da política, não é uma visão nossa, histórica, da
sociologia da ciência e da política. Mas esse
termo “colou” porque tem gente financiando isso: as fundações norte-americanas
financiam essa visão pós-moderna da narrativa. De todo modo, está ocorrendo
uma disputa sobre o que foi Junho de 2013, como nós tivemos sobre 1930. Boris Fausto, que veio do Partidão, o
Partido Comunista, dizia que tínhamos feito uma revolução em 1930, porque ele
estava dentro da visão etapista da Terceira Internacional Comunista. A ideia
era mais ou menos a seguinte: nós tínhamos resquícios feudais no país e era
preciso fazer uma revolução burguesa para instalar o capitalismo no Brasil. Nós
nunca tivemos resquícios feudais no Brasil, mas eles achavam que sim. Com isso,
Getúlio Vargas, quando domina a visão agrária-exportadora e impõe a
industrialização, teria feito uma revolução. O livro “Revolução de 30”, de Boris Fausto, foi, durante muito tempo, a
referência para entender 1930. E essa foi uma visão que veio pela esquerda, não
é uma visão de direita.
Nos
anos 1980 alguns autores, como Edgar
Salvadori de Decca, principalmente de São Paulo e Rio de Janeiro, começaram
a questionar essa visão, dizendo que não
tivemos revolução nenhuma no país, nem mudanças estruturais. O que tivemos foi um rearranjo, um
embate das classes dominantes dentro de uma visão de país em desenvolvimento. 2013 é a mesmíssima coisa. Estou
dizendo que é a mesmíssima coisa porque é
um debate sobre interpretação do que aconteceu na esquerda – a direita não
participa desse debate, nem autores liberais e funcionalistas. É a esquerda que
está debatendo, de novo, o que aconteceu.
Narrativas
de Junho de 2013
A primeira narrativa – uma interpretação que vem do campo lulista – acredita que ali
houve um artificialismo, financiado e promovido por agências norte-americanas e
pelo empresariado brasileiro de direita, para quebrar a hegemonia do PT. Esse
tipo de interpretação é, primeiro, paulista e, segundo, muito apressada. Trata-se de uma interpretação para não ter
que admitir que o governo Dilma e o lulismo já tinham perdido as ruas.
Trata-se de uma forma muito carregada emocionalmente, impactante e que
facilita, na medida em que emociona e comove muitos militantes. O que
aconteceu, afinal, foi não ter que refletir sobre os erros. Isso foi muito
parecido com o que aconteceu em 1930 e depois de 1930, quando os comunistas
entram no governo de Getúlio Vargas e no Estado Novo.
A outra possibilidade de interpretação do que aconteceu
em 2013 é quase uma resposta geracional.
Existem muitas pesquisas, das universidades públicas em especial, entre elas a
UFBA, a UFMG e a USP, mostrando que 2013
foi uma manifestação da juventude que tinha no máximo até 35 anos, e uma fatia
razoável era universitária. Os jovens que tinham 20 anos naquele momento
estavam com 10 anos quando o PT assumiu o poder. Logo, só viram governos
petistas. Se a juventude quer um espaço no mundo dos adultos, evidentemente que
tudo aquilo que ocorria no mundo dos adultos tinha relação com o governo que
era dominante, que dominava a política. Obviamente que tudo aquilo que a juventude não gostava, que era coisa de velho, era
coisa do governo do PT, porque afinal era quem estava no poder, isto é, era a
elite. Então, em primeiro lugar, precisamos entender que ali havia uma
revolta geracional, que era mais do que natural. Eu fui adolescente e ficava
irritado com o meu pai, com o Partido Comunista, porque acreditava que era uma
coisa de velho; essa é a primeira questão.
A
segunda questão é que temos uma sociedade formada por comunidades e coletivos
muito fechados, ao contrário do que as teorias iniciais sugeriam, de que estava
se criando uma rede mundial. Na verdade, a
internet e as redes sociais criaram comunidades muito autocentradas. O que
Durkheim chamou de “solidariedade
mecânica”, outros autores chamam de “espelhamento”,
ou seja, só nos reunimos na internet com pessoas que pensam como nós. Se a
pessoa começa a xingar, a excluímos em dois segundos. Não queremos saber de
conversar.
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MANIFESTAÇÃO NO CENTRO DO RIO DE JANEIRO (RJ) 20 de junho de 2013 |
Políticas
focalizadas X Políticas sociais
De
2003 a 2005, na primeira gestão do
governo Lula, estava se desenhando qual seria a política nacional
estratégica dele. Houve um debate dentro do governo e do PT muito forte, que presenciei
de longe, mas fui acompanhando – no livro que escrevi sobre o lulismo trabalho
um pouco mais essa questão –, acerca de um texto escrito por professores
economistas liberais do Rio de Janeiro, da PUC-Rio e da FGV do Rio, que se
chamava “Agenda perdida”. Esse
texto, entre outras coisas, sugeria
políticas focalizadas, e não políticas universais para a área social.
Lembro muito bem que Maria da Conceição
Tavares ficou horrorizada com isso, porque dizia que “política de esquerda é política universal”. Mas eles, como bons
liberais e professores de microeconomia, argumentaram que não tínhamos que ter
políticas amplas porque não se tinha dinheiro para isso e que o importante era
fazer uma política equitativa. Ganhou
essa versão e, ao ganhar, eles ingressaram quase todos no Ministério da
Fazenda sob a batuta de [Antonio] Palocci.
Esse embate continuou até a saída de Frei Betto e de quase todos os
colaboradores vinculados à Igreja católica e à Teologia da Libertação, como é o
caso de Ivo Poletto. Frei Betto e Ivo
Poletto fizeram uma crítica duríssima a Palocci e a essa visão liberal que
destruía as políticas mais avançadas e estruturais junto às populações
tradicionais e ao controle das políticas públicas. Além disso, eles criticaram a criação do Bolsa Família,
especialmente porque o controle do
programa deixou de ser dos beneficiários nos municípios e passou a ser dos
prefeitos. A partir da criação das políticas focalizadas, a estrutura
política de gestão do governo Lula de 2005 até 2010 passou a ser fragmentada
por áreas de serviço público ou demandas sociais. Esse aspecto dividiu o
movimento social.
Fragmentação
dos movimentos sociais
O
que é importante entendermos é que essa
fragmentação, de certa maneira, criou o que alguns autores chamam de
mesocorporativismo. Isto é, tem-se uma visão específica, particular,
corporativa de uma demanda social vinculada a uma estrutura pública de
discussão e elaboração daquela política pública de resposta. Isso alterou os
movimentos sociais dos anos 1980 em duas situações muito nítidas.
A
primeira é que eles não conversavam mais
entre si, especializaram-se internamente, tanto que os fóruns nacionais foram
acabando. O fórum do orçamento, do qual eu fazia parte, foi se esvaziando,
porque o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST fazia parte do fórum, mas
como tinha as suas preocupações com o Incra, não colocava mais ninguém a
participar do fórum.
Assim,
a intersetorialidade sumiu das
discussões dos movimentos sociais. Isso significa que eles deixaram de discutir o projeto nacional e passaram a discutir
políticas específicas, temáticas. Ou seja, os movimentos sociais começaram
a ficar com o mesmo desenho da estrutura burocrática pública do Estado
brasileiro. Eles foram engolidos pelo
Estado, quando queríamos que os movimentos sociais reorganizassem o Estado
brasileiro, criassem canais comunicantes entre eles e o interior do Estado.
Esse é um problema grave.
A
segunda é que os movimentos sociais
foram retirados da rua e colocados nas arenas federais superiores. Além disso,
as grandes lideranças de referência
passaram a ser técnicos. Nesse período ocorreu uma mudança fortíssima no
perfil dos líderes dos movimentos sociais: inicialmente as lideranças eram mais
carismáticas, tinham o poder da oratória, eram mais irônicas, e passaram para
lideranças que falavam mais difícil, faziam um discurso acadêmico, às vezes
jurídico; várias delas fizeram faculdade de Direito ou Economia e estavam cada vez mais distantes da base e
da linguagem da base. Essa autonomização dos movimentos sociais frente à
sua base explodiu em 2013, e é por isso que ninguém entendia.
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A pauta das manifestações, ao longo da história, mudaram!!! |
Junho
de 2013 e a explosão do hiperindividualismo
Houve,
inclusive, quem se perguntasse por que, no melhor momento do país, com a renda
aumentando, as pessoas estavam saindo para a rua. Mas o fato é que essa é uma
questão clássica: os grandes movimentos
sociais ocorrem em uma situação de bonança. Quando está desempregada, a
pessoa pensa duas vezes antes de se expor. Além disso, o Estado e as políticas de governo tinham se tornado muito autocráticas
e avassaladoras sobre a sociedade brasileira. Como disse anteriormente, os prefeitos perderam o papel que tinham e
dependiam do deputado federal. Sabe o que significa depender de deputado
federal? O deputado federal fala o seguinte: vou trazer para a cidade uma
estação de tratamento de esgoto, mas quero saber qual secretaria vou ganhar
para fazer campanha para mim como deputado federal. Essa é a conversa rasgada e
crua que nunca é divulgada, e essa era a conversa naquele período. Lembremos
que de 2012 para 2013 já havia uma discussão na imprensa brasileira sobre o
aumento da inflação e os primeiros cortes que o governo Dilma iria fazer. Em
maio, um mês antes de Junho de 2013, surgiu um boato de que não se pagaria o
Bolsa Família, e 920 mil beneficiários sacaram, em dois dias, todo o dinheiro
da Caixa Econômica. Se justamente a base mais fiel ao lulismo achava que isso
poderia ocorrer, é porque a situação já estava mal. Portanto, 2013 foi uma explosão muito emocional do
hiperindividualismo que nasce nas redes sociais, principalmente envolvendo a
juventude.
Escrevi
um livro chamado “Nas Ruas - A Outra Política que Emergiu em Junho de 2013”
[Ruddá Ricci e Patrick Arley. Letramento: 2014], no qual retrato que muitos participantes de Junho de 2013
chegavam na rua escrevendo o seu cartaz. Eles compravam uma cartolina na
papelaria e escreviam sua demanda na hora. Entrevistei algumas pessoas e elas
diziam: “Só vim aqui porque um amigo meu veio e está participando, porque se
fosse partido, sindicato ou igreja, eu não viria. Mas como sei que meu amigo
não vai me usar, é uma boa”. Então, essa era uma mobilização estilhaçada, que
alguns autores chamam de “enxaminhamento”, ou seja, um enxame de abelhas que não se sabe de onde veio, que depois vai embora
e não se sabe se vai voltar.
Surge uma nova configuração
social a partir de 2013, que é esse hiperindividualismo e essa autonomia da decisão
profunda, que alguns autores chamam de antipolítica, que é uma política diferente. No entanto, nós, com a cabeça no século
XX, não conseguimos entender isso: queríamos saber qual era a agenda dos
manifestantes, mas havia uma multiplicidade de agendas. Nós estamos com a cabeça e com conceitos teóricos de análise do século
XIX e XX e não estamos conseguindo entender o que é essa nova forma
hiperindividualizada de adesão que se faz via mobilização, que é uma adesão provisória, e não
uma adesão como antes, de filiação a um conceito ou organização; 2013 foi isso.
Aquilo não era movimento social, porque movimento social é mais perene, mas aquilo era mobilização social.
Junho
de 2013 no Brasil
Para
deixar mais claro, vou lembrar algumas diferenças que ocorreram nessas
manifestações em diferentes estados. Primeiro, Porto Alegre e Rio de Janeiro
têm as duas maiores federações anarquistas do Brasil ligadas à Federación Anarquista Uruguaya - fAu, hiperpolitizada, que vem do
movimento operário no Uruguai. Até hoje existem lideranças do movimento
operário anarquista no Uruguai muito fortes, e alguns deles, por incrível
pareça, têm uma proximidade com uma visão religiosa — é a partir daí que vem
José Mujica, que não é anarquista.
Em Porto Alegre e no Rio de
Janeiro houve uma participação dos anarquistas muito importante nessas
manifestações.
No Rio de Janeiro eles foram essenciais e tinham, inclusive, técnicas de
ocupação de rua. Em algumas manifestações, por exemplo, colocavam fogo em
ônibus para atrair a Polícia Militar - PM e liberar o espaço do centro. Eles
iam fazendo um rastilho e a PM despreparada ia acompanhando para ver onde
estavam. Na verdade, isso era parte de uma tática para tirar a PM do centro
onde estava tendo a manifestação; isso foi tudo elaborado e pensado.
No Rio de Janeiro e em Belo
Horizonte os anarquistas e os autonomistas tiveram muito êxito. Os autonomistas, grande parte deles universitários, vinham da
elaboração de [Antonio] Negri. Os autonomistas têm essa concepção de que não se
ocupa um espaço público para então provocar uma negociação; é a ideia do
Comum: se ocupa o espaço público
para implantar a utopia naquele momento. A lógica é totalmente diferente.
De
outro lado, em São Paulo e em Brasília ocorreram manifestações de direita. No restante dos estados as manifestações foram majoritariamente de
esquerda. Em Belo Horizonte a manifestação foi totalmente de esquerda,
tanto que as forças de esquerda se reuniam num Sindicato chamado Sind-Rede, e a primeira palavra de
ordem da primeira grande manifestação foi “somos todos de esquerda”. No entanto, as pessoas não eram petistas ou
ligadas a partidos, eram anarquistas e autonomistas. As forças partidárias
de esquerda e organizadas em centrais sindicais, que não tinham essas
organizações majoritárias, como, por exemplo, em São Paulo o Sindicato dos
Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo - Apeoesp, deram uma
recuada. Eu mesmo não tinha ideia de que
os anarquistas estavam tão organizados no Brasil, mas eles estavam.
Acredito
que houve um estranhamento da esquerda:
* Se a direita foi tão mobilizada, por que no segundo semestre ela não
apareceu?
* Por que quem apareceu foi o
PT?
* Porque em outubro de 2013 o
então Ministro da Justiça, José Eduardo
Cardozo, convocou uma reunião com duas secretarias de Justiça do Rio e de
São Paulo e disse que iriam atacar os radicais.
* Depois ajudou a promover o treinamento da Polícia Federal e de várias PMs nos
Estados Unidos, no campo de treinamento do Blackwater, que é um
grupo de mercenários acusado do assassinato de famílias e civis.
* Por que, no final do ano,
em dezembro, o governo Dilma publicou o manual da garantia da lei e da ordem?
* O que aconteceu foi uma caça avassaladora do governo federal e de
alguns governos estaduais contra os líderes de 2013, e isso desmobilizou as
manifestações.
* As pessoas esquecem, mas casas foram invadidas.
* Além do mais, no início
daquele ano ocorreram os rolezinhos que foram tratados também como arrastão e
terroristas.
* Garotos de 15 anos receberam multas de 100 mil reais, tiveram suas
casas invadidas e celulares apreendidos.
Sobraram
só os Comitês da Copa em várias capitais, nos quais jovens estavam discutindo a
Copa das Confederações, os desvios de recursos públicos, que hoje sabemos que
ocorreram mesmo. Mas à época eles foram
tratados como inimigos da pátria.
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MOVIMENTO BRASIL LIVRE - MBL Financiado por partidos de políticos como estes da foto - grandes "exemplos" de homens não corruptos!!! |
Manifestações
de direita
Não vi a direita no segundo
semestre de 2013 e no primeiro semestre de 2014; vi um governo desesperado
contra os manifestantes de 2013, atacando e desmobilizando. Quando a direita entra? No segundo semestre, no final da eleição. Vamos lembrar que o Movimento Brasil Livre - MBL é fundado em 2014. É naquele momento que ela percebe que o
governo não tinha a rua a seu favor, porque até então quando se falava do impeachment de Lula, em 2005, o Lula
dizia que sairia na rua junto com as manifestações. Aí o DEM e o PPS recuaram
com medo das manifestações da CUT e do MST.
Em
2013 a direita teve o condão de dizer que o PT não estava na rua, e quem estava
na rua era ela. Foi aí que começaram a
surgir investimentos internacionais para financiar o MBL e outros movimentos,
como é o caso do Atlas Network. Um artigo recém publicado pela PUC de Minas
Gerais mostra a genealogia de todos esses investimentos para as organizações
estudantis a partir de 2014. O que quero dizer é que em 2015 e 2016 aconteceram mobilizações de direita com a forma de 2013,
mas era outra coisa, outro público, partidarizado. Matérias da Folha de S. Paulo mostram que essas manifestações receberam investimento
do PPS, do DEM, do PSDB e do PMDB.
O
que é mais importante é que tanto as
manifestações de 2013, quanto as de 2015 e 2016, culminaram no PMDB. Isso é
o mais surpreendente. As manifestações
não conseguiram ingressar no campo institucional, porque foram bloqueadas pelas
grandes bancadas já estruturadas. Quem conseguiu foi quem tinha o controle
das instituições, que é o MDB.
IHU On-Line – Nesta
semana foram condenados mais de 20 jovens ligados a manifestações de Junho de
2013 pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Qual é o peso simbólico disso?
Rudá Ricci — A geração de Junho de 2013 foi destroçada politicamente. Vou
exagerar um pouco, mas diria que se trata de algo muito parecido com a Guerra
Civil Espanhola, em Barcelona: as forças de esquerda institucionalizadas vieram
contra os anarquistas e não tiveram dó. No
Brasil se fez um uso político para transformar os manifestantes de junho em
terroristas.
O
que estamos vendo agora compõe um cenário pior, porque não é só a condenação de
20 jovens de Junho de 2013, mas a condenação de qualquer tipo de espírito que
vem dos anos 80, de mobilizações da sociedade civil para enquadrar políticas de
Estado. Isso está no campo da prisão de Lula, da ameaça de qualquer candidato
do PT que substitua o Lula. Citam o nome de Haddad e já começam a sair
manchetes de recursos não declarados na campanha dele. Citam Jacques Wagner, e
a Lava Jato vai para cima dele. Ou seja, há
uma declarada decisão do poder Judiciário para cercar qualquer tipo de
expressão pública da sociedade civil que tente de alguma maneira criar um
equilíbrio de forças para abrir negociação com o Estado.
Aquele
espírito dos anos 1980, que vai até a Constituinte, está sendo profundamente
atacado nos últimos dois anos e se inscreve num âmbito mais geral de ataque à sociedade civil. A
judicialização está se impondo não apenas como demanda dos de baixo, mas como
um modus operandi da sociedade civil
poder acessar suas demandas. É um reenquadramento da sociedade civil dentro de
uma lógica mais liberal, mais jurídica, mais burocratizada: não tem que ter rua e multidão; as pessoas coletam assinaturas, fazem um
abaixo assinado e o poder Judiciário decide. Essa é a última fase da
judicialização que estamos vivendo agora.
2ª PARTE DA ENTREVISTA
O
cenário eleitoral deste ano demonstra que “ingressamos no mundo da política de ciclo curto, ou seja, com exceção de Lula, nós
não temos, no Brasil, mais nenhum político de grande durabilidade”, afirma o
cientista político Rudá Ricci, na segunda parte da entrevista concedida à IHU
On-Line pessoalmente no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, no Campus Unisinos
Porto Alegre.
A “política de ciclo curto”, avalia,
é consequência das redes sociais, de Junho de 2013, e do “desmonte do Estado
brasileiro feito por Temer, mas que de alguma maneira começou com a política de
Dilma em 2015”.
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A grande "salada" de candidatos à Presidência da República em 2018 |
Confira
a entrevista.
IHU On-Line —
Na entrevista que nos concedeu sobre o cenário eleitoral, no final do ano
passado, avaliava que as eleições seriam fragmentadas pela esquerda se Lula não
fosse candidato do PT, e também seriam fragmentadas pela direita com as
candidaturas de Bolsonaro e Alckmin. Como analisa o cenário eleitoral hoje,
mais próximo do anúncio das candidaturas?
Rudá Ricci — Só em agosto vamos ter
certeza de como será o cenário, mas, de qualquer maneira, diria que os nomes talvez tenham se alterado, mas a
fragmentação continua. Então, temos, de um lado, a direita fragmentada e
abaixo de 8% das intenções de voto. Tem
um único nome pela extrema direita, que é o de Bolsonaro, que é um nome
folclórico, com 16 a 18% das intenções de voto. No entanto, uma pesquisa
recente diz que já caiu o percentual de intenção de voto nesse candidato. Mas
se Bolsonaro perder intenções de voto, irá radicalizar o discurso e a disputa
com ele ficará mais fácil. Esse é um cenário de muita divisão: [Geraldo] Alckmin está brigando com [João] Doria, e candidatos da direita estão
caindo fora, inclusive para o Senado, como é o caso de [José Luiz] Datena. Além disso há uma sucessão de
nomes que não vingam.
De
outro lado, a esquerda está totalmente
fragmentada e o único nome incontestável é Lula. O que temos de notícia é
que possivelmente eles irão antecipar a convenção do PT para formatar a chapa –
inclusive essa é a decisão de Ciro Gomes também. Isso dá uma luz, porque o vice
possivelmente será o sucessor da candidatura de Lula, caso ele seja impedido.
Lembrando que 17 de setembro é a data
limite para o partido mudar os nomes da chapa que será registrada em 15 de
agosto. O tempo está cada vez mais curto, mas ao lançar a chapa, o PT
começa a popularizar o vice e vai dizer que não existe plano B, apenas plano A,
no qual o plano B está embutido. Essa é uma vantagem. Mas fora o Lula, a
esquerda está fragmentada.
Tem
um candidato de centro, que é o Ciro, que está tentando trabalhar os dois
lados. Mas qual é o problema disso? Ciro
se projeta como se fosse realmente o único capaz no embate contra Bolsonaro,
mas o problema é que ele não passa de 8% das intenções de voto. Projetar a
eleição sem Lula é complicado em termos de pesquisa, porque estamos fazendo
projeções sem que se tenha muita clareza do cenário.
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CIRO GOMES versus JAIR BOLSONARO Ambos disputam eleitorados diferentes!!! |
Pesquisas
Quando
se faz uma pesquisa de intenções de voto incluindo o nome de Lula e depois se
faz outra na qual se retira o nome dele e se apresenta o de outro candidato,
isso não significa que a pessoa dará voto àquele candidato alternativo, porque
ela está escolhendo entre os nomes que constam na pesquisa. Tecnicamente esse tipo de pesquisa não é
muito precisa. Nós que somos da área sabemos que esse tipo de pesquisa tem mais marketing do que rigor técnico,
tanto que, sem a candidatura de Lula, aumenta o índice de votos nulos e
brancos. Então, falar que Ciro, sem o Lula, sobe nas intenções de voto, não
está muito claro.
Ciro já se articulou com vários
partidos mais do campo de direita e já se articulou com as Forças Armadas. Isso
já demonstra a dificuldade de ampliar a candidatura dele pela esquerda. A
coordenação da campanha dele tem muita preocupação com o PT, o que é correto. Ele deveria ter atraído o PT, mas não
atraiu e por isso acredito que ele tenha uma dificuldade imensa de realmente se
projetar. Mas, de qualquer maneira, agosto
será o momento em que teremos certeza do cenário. Se Lula não participar
das eleições, essa será uma campanha de nanicos, e em campanhas de nanicos basta um cara dar um pulo um pouco maior, que
ficará maior do que os outros e poderá vencer.
Pode
dar Bolsonaro, assim como ele pode ser destroçado pelo PSDB. Mas eles também
podem fazer um acordo de final de campanha para tentar ter espaço, porque
Bolsonaro tem eleitorado, mas não tem política nem governabilidade. Estamos num momento muito difícil e o
grande problema é a população brasileira: ela não se apaixona por ninguém; está absolutamente individualista e quase sempre
tende a falar que não vai votar em ninguém e vai para o voto branco e nulo.
O
que o cenário sem Lula mostra é que
devemos chegar aos mesmos índices de abstenção ou não voto que os Estados
Unidos, onde 50% do eleitorado não vai às urnas, que é o mesmo da Suíça. Em
países que não têm voto obrigatório, em grande parte, cerca de 50% da população
vota. Mas isso tudo vai depender, sem dúvida nenhuma, de Lula. Se ele indicar alguém e se eles anteciparem
a montagem da chapa, acredito que será uma política inteligente que talvez
mude esse cenário daqui por diante.
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JAIR BOLSONARO Um folclórico candidato apoiado, sobretudo, pela extrema-direita e jovens até 35 anos |
IHU On-Line —
Como o senhor compreende a aceitação de uma parcela da população à candidatura
de Bolsonaro? O que explica isso?
Rudá Ricci — Bolsonaro é folclórico. Por
incrível que pareça, para a grande maioria da população, ele não tem existência
política, é um quase não político e trabalha com esse não político, mas ele tem filhos na política, tem história na
política, mas fala que é militar. 1º) O
primeiro fator que explica essa aceitação é que ele entra nessa faixa do não político, da desilusão e do ressentimento
com a política; essa é uma faixa pequena. 2º) Ele tem outra faixa, que também é
pequena, mas na soma vai criando essa multidão, que é a extrema direita. Lembrando a diferença entre direita e
extrema direita: a extrema direita discursa e usa a violência, enquanto a
direita não, mas tem uma visão elitista, individualista, mas trabalha dentro do
campo democrático. A extrema direita e certa fatia da direita votou no PSDB
contra o PT nos últimos 10 anos, mas na medida em que surge um candidato de
extrema direita, eles conseguem se identificar e é por isso que o PSDB tem uma
maior desidratação com a figura do Bolsonaro. Portanto, Bolsonaro passa a ganhar uma parte desse eleitorado que é do PSDB.
Se o PSDB sempre teve algo próximo do eleitorado de Bolsonaro — e hoje está em
8% —, eles devem ter perdido entre 8% e 10% do eleitorado, ou seja, metade do eleitorado que eles tinham foi
para Bolsonaro; isso não é pouco. O que me faz imaginar que ou o PSDB vai
fazer um acordo com Bolsonaro ou vão atacá-lo violentamente a partir de julho
ou agosto.
IHU On-Line —
O PSDB fará a mesma coisa que o PT fez com a Marina?
Rudá Ricci — Sim. É a desconstrução do nome.
E é por isso que o PT está um pouco quieto nesse sentido, porque está querendo
que o jogo sujo seja feito pelo PSDB e aí ele entra com calma nessa história. Já a estratégia de Ciro Gomes é não deixar
Alckmin crescer e por isso enfrentará Bolsonaro. Porém, o eleitorado de Bolsonaro, ao contrário do
que acontecia com o PSDB, nunca votou em Ciro e o considera um cara de esquerda.
Então, é uma estratégia que, no fundo, pode pegar alguém de esquerda, mas não vai desidratar Bolsonaro.
3º) Bolsonaro tem essas duas fatias que
mencionei anteriormente e tem ainda uma
fatia muito grande do deboche, que é a fatia
do não eleitor, que é um eleitor descompromissado, fluido. A pesquisa da
professora Esther Solano mostra isso.
Claro que a pesquisa é um estudo de caso de uma escola, numa rede e numa cidade
do Brasil, mas é muito interessante ver que os jovens dizem que Bolsonaro é
debochado, mas que ele não falará contra as mulheres, porque na verdade ele
está contra a vitimização das meninas feministas. Trata-se de um pessoal que tem um discurso jovem meio
agressivo e debochado, que é mais contra o establishment
do que a favor de Bolsonaro.
Diria que o bloco mais
afinado com Bolsonaro é o da extrema direita mesmo, pois estes sabem que o
Bolsonaro vai estar na mão deles, pois ele sozinho não faz coisa nenhuma; ele
nem entende de economia. Parte dos
empresários está tentando ganhar Bolsonaro com dinheiro para puxá-lo para uma
política liberal, porque a chance de ele ganhar é real hoje. O empresariado brasileiro sempre agiu dessa
forma e por isso sempre deu dinheiro para os dois candidatos que estavam na
frente. Hoje vemos isso com a Lava Jato.
Mas
Bolsonaro tem dois grandes problemas que, se não fossem problemas, teríamos
mais facilidade de degelar a candidatura dele: ele não tem aceitação no
Nordeste nem com o público feminino. Aí estão os problemas dele. Ele vai trabalhar com a juventude — 60%
dos possíveis eleitores são jovens até 35 anos e 40% até 25 — e, como eu disse,
os jovens só viram o governo do PT e
agora o do Temer.
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LULA É ABRAÇADO POR CRIANÇA |
IHU On-Line —
O debate eleitoral tem se pautado mais pelo signo da rejeição? Quais são as
implicações políticas desse modo de perceber a política?
Rudá Ricci — São vários. O primeiro é
que ingressamos no mundo da política de
ciclo curto, ou seja, com exceção de
Lula nós não temos, no Brasil, mais nenhum político de grande durabilidade.
Isso tem a ver com as redes sociais, com 2013, com o desmonte do Estado
brasileiro feito por Temer, mas que de alguma maneira começou com a política de
Dilma em 2015. Esses eleitores se
perguntam: será que acreditei errado? Na
hora em que estavam fortes, fizeram o que os outros fazem? É isso o que
fica, em parte, para o eleitorado lulista. Existe
essa desilusão com a política que faz com que o político de momento seja o mais
populista. Na verdade, é um tipo de populista que se chama demagogo, que diz: “sou como você, não sou político
profissional”. Com isso, ele ganha a eleição e entra na roda do jogo do
parlamento e é destroçado em dois ou três anos. Estamos vendo a política de
ciclo curto contaminando a política nacional; isso é o mais importante.
Segundo,
como a sociedade é muito fragmentada, se
discute mais o método do que o nome. Com isso quero dizer que, de um lado,
é o populista do momento, mas que vive dois ou três anos e depois some, como
Doria, Fernando Pimentel e ACM Neto. São
pouquíssimos os que conseguem durar duas eleições. Marchezan (prefeito de
Porto Alegre - PSDB) é uma coisa impressionante, não conseguimos ver ninguém
falando bem dele aqui.
Isso
está generalizado no país inteiro: não conseguimos ver ninguém, nem em
Brasília, nem no Rio de Janeiro. Temos uma crise do sistema da democracia
representativa no mundo inteiro. Isto é, estamos
vivendo uma cultura antissistêmica. Então, não é verdade que a esquerda
está dando lugar para a direita, como alguns apressados dizem. O que acontece é que o governo de plantão
perde para a força contrária. Além disso, em Portugal a esquerda está
voltando, na Espanha também, mas em outros países, como na Itália, estão agindo
as forças contrárias. O governo que está
de plantão começa a ser corroído por essa cultura antissistêmica. É nisso
que acredito que estamos entrando; será
um turbilhão daqui para frente. Em 2019 teremos uma crise muito mais pesada
do que vimos até agora, porque ela agrupará todas as crises.
IHU On-Line —
Independentemente de quem seja o novo presidente?
Rudá Ricci — Sinceramente dá dó, antecipadamente, do próximo presidente, quem
quer que seja. Não teremos mudanças no
Congresso do ponto de vista ideológico: deve ter uma composição muito
parecida do ponto de vista da representação de classe e de bancada. Acredito
que teremos um presidente que estará
totalmente dominado, de novo, pelo Congresso, e terá que fazer negociações. Além de uma economia destruída, um
Estado deplorável e com uma sociedade muito desanimada, se houver mesmo o não
voto próximo a 50%. Quem investirá em um país desses? [Infelizmente,
é este, mesmo, o cenário brasileiro de 2019!!!]
IHU On-Line —
O que significa a declaração de apoio de Tarso Genro à candidatura de Guilherme
Boulos?
Rudá Ricci — Eu ia fugir um pouco dessa
questão quando perguntaram sobre a fragmentação... Tarso Genro já vinha falando
em “petit comité”. O acordo era que a próxima presidência do PT — nem se falava
em Gleisi Hoffmann — seria alguém da Mensagem
ao Partido [uma das facções internas do PT]; esse era o acordo que Lula
estava fazendo com Tarso. Lula dizia que Tarso não poderia ser esse nome porque
havia muita divergência interna. Discutiu-se o nome de [Fernando] Haddad e de
Paulo Teixeira, mas Lula não foi nem para um, nem para o outro. A avaliação era
a de que esses nomes poderiam amenizar a situação, mas já se sabe há mais de um ano que se o candidato não for Lula, não tem
candidato do PT que consiga unidade interna.
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MARCIA TIBURI - filósofa e escritora Candidata do PT ao governo do Rio de Janeiro - ex-PSOL |
Acredito
que o PT chegou ao limite, assim
como essa política social-liberal do PT e o “jeitinho brasileiro” chegaram ao
limite. a) Ou
ele pode se arriscar e virar de novo um partido de esquerda hegemônico e
atrair, inclusive, o PSOL para si. Aliás, é algo que o PT do Rio de Janeiro
já está fazendo com a candidatura de Marcia
Tiburi para o governo do estado, o que é muito inteligente: ela vem do
PSOL, é uma feminista e se candidatará justamente em um estado onde as pautas
identitárias são tão fortes. b) Ou o PT vira uma espécie de MDB à esquerda,
ou c) um
Partido Revolucionário Institucional - PRI mexicano, ou d) ele terá
que fazer uma reconversão como o Partido Socialista de Portugal fez ao se
juntar com o bloco de esquerda. Ou o PT faz esse caminho — e não é à toa
que Tarso está falando que o PT precisa “montar a geringonça”, como se diz em
Portugal —, ou vai se tornar de vez um partido social-liberal tradicional, como
o Partido Trabalhista inglês — para ficar na analogia — em que as pessoas votam
no passado, mas não no presente do partido. Por isso, acredito que o partido
está numa encruzilhada, e o Tarso acelerou essa decisão e é por isso que o
partido terá que antecipar a chapa.
IHU On-Line —
Uma possível união à esquerda não geraria uma disputa de vaidades?
Rudá Ricci — Política é sempre um jogo
de vaidades, mas não só. Ainda mais no presidencialismo. Porém, o jogo é mais
inteligente quando é pensado como um jogo de xadrez: o jogador mexe algumas
peças sem saber onde o outro irá jogar, e esse tipo de previsão, de ginga, é
que faz o jogo da política ser tão sofisticado. Ultimamente destruímos isso no
Brasil, e a política de Bolsonaro e de
Alckmin, cá entre nós, não é muito inteligente. Até Ciro Gomes — falo isso para a equipe dele — parece que faz campanha para reitor, porque é acadêmico, não vai a
nenhum lugar que tem povo, não fala a linguagem do povo, não apaixona, fica
brigando com todo mundo que é de cúpula. Isso é um candidato a reitor, não um
candidato da política nacional. Nós rebaixamos muito esse jogo. Talvez Tarso
esteja tentando manejar um “bispo” para ver o que ele consegue colher do outro
lado.
[...]
*
RUDÁ RICCI é graduado em Ciências Sociais pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, mestre em Ciência
Política pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp e doutor em Ciências
Sociais pela mesma instituição. É diretor geral do Instituto Cultiva, professor do curso de mestrado em Direito e
Desenvolvimento Sustentável da Escola Superior Dom Helder Câmara e colunista
Político da Band News. É autor de Terra
de Ninguém (Ed. Unicamp, 1999), Dicionário da Gestão Democrática
(Ed. Autêntica, 2007), Lulismo (Fundação Astrojildo
Pereira/Contraponto, 2010), coautor de A Participação em São Paulo (Ed.
Unesp, 2004), entre outros.
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