Uma terrível divisão em nossa Igreja
A 30 anos do cisma lefebvriano:
um jogo duplo na Cúria Romana
Andrea Grillo
Teólogo
italiano
Professor
do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma,
do
Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e
do
Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua
Tradicionalistas sem tradição!!!
Aqueles
que atribuem ao sucessor de Lefebvre* o papel de
“defensor
da tradição” manifestam que estão totalmente
desorientados
sobre a história dos últimos 50 anos e que
não
têm o mínimo senso da tradição que caminha e que se cura
Com
uma entrevista concedida ao Tagespost
no dia 28 de junho passado, Bernard
Fellay responde a perguntas bem formuladas sobre os 30 anos de experiência
do cisma lefebvriano.
Muitas
respostas fotografam com muita precisão o nível
de distância e de hostilidade dos lefebvrianos em relação ao catolicismo romano,
assim como ele se desenvolveu no Concílio Vaticano II em diante.
Gostaria
de me deter apenas sobre algumas dessas respostas, que são singularmente úteis
para se falar não tanto dos lefebvrianos, mas sim dos seus interlocutores na
Cúria Romana e do seu jogo perigoso e duplo. Cito uma série de respostas de Fellay, às quais faço seguir meus breves
comentários.
1.
A missa reformada
Fellay
expressa opiniões sobre a missa
resultante da Reforma litúrgica tão carregadas de preconceitos e tão
injustos a ponto de clamar por vingança ao céu. Eis um primeiro trecho em que
ele se expressa sobre o Concílio Vaticano II e sobre a reforma da missa:
«As reformas que se seguiram demonstraram
isso mais claramente do que o próprio Concílio. O problema se condensou sobre a
nova missa. Em Roma, disse-se ao arcebispo Lefebvre aut aut: “Se o senhor celebrar a nova missa, está tudo bem”. Os
nossos argumentos contra a nova missa não importavam nada. Enquanto isso, o
missal de Paulo VI foi composto com a colaboração de teólogos protestantes. Se
somos forçados a celebrar essa missa, então realmente surge um problema. E nós
fomos levados a fazer isso.»
É
evidente que a incompreensão da missa
resultante da Reforma Litúrgica leva a uma incompreensão radical do Concílio e
do caminho de recompreensão do mundo moderno realizado pelo próprio Concílio.
Fellay desacredita o Concílio e a Reforma Litúrgica. Com quem expressa essas
opinião não se começa nem a discutir. Ele
excomunga a si mesmo, pelos argumentos que utiliza.
2.
Summorum pontificum
A
propósito da ruptura e do papel que o cardeal Ratzinger teve no caso em 1988,
Fellay diz:
«(Ratzinger) não entendeu como eram profundas
as razões do arcebispo e a desorientação dos fiéis e dos padres. Muitos não
aguentavam mais escândalos e desconfortos pós-conciliares, e também o modo em
que a nova missa era celebrada. Se o cardeal Ratzinger tivesse nos
compreendido, ele não teria agido assim. E acho que ele se arrependeu. Por
isso, como papa, tentou reparar os danos com o motu proprio e remover a excomunhão. Somos-lhe realmente gratos
pelas suas tentativas de reconciliação. »
Essas
palavras, que Fellay obviamente carrega com um tom totalmente particular,
também revelam um dos equívocos mais
insidiosos que estão por baixo de todos esses casos. A simples
possibilidade de que o texto do Summorum
pontificum tenha sido entendido como uma espécie de “ressarcimento do dano” e de “condição” para o acordo realmente parece ser uma gravíssima
responsabilidade. Da parte dos
lefebvrianos, pela incompreensão da reforma, e da parte de Bento XVI, pela
relativização e pela banalização da própria reforma.
Depois
de 30 anos daquele cisma, não há razões para manter ainda um paralelismo entre
formas diferentes e contraditórias do mesmo rito, que não se fundamentam nem
teologicamente, nem juridicamente, nem liturgicamente.
3.
As condições pedidas por Roma para o acordo
Mas
talvez o texto mais surpreendente e
preocupante seja aquele que Fellay dedica às demandas romanas para se chegar a
um acordo. Eis as suas palavras:
«Nós devemos questionar certos pontos do
Concílio. Os nossos interlocutores em Roma nos disseram: os pontos principais –
liberdade de consciência, ecumenismo, nova missa – são problemas em aberto.
Trata-se de um progresso incrível. Até agora se dizia: vocês devem obedecer.
Agora, os colaboradores da Cúria dizem: vocês deveriam abrir um seminário em
Roma, uma universidade para a defesa da tradição. Não é mais tudo preto e
branco.»
É
inevitável que Fellay demonstre um certo entusiasmo. Se Roma, sem qualquer responsabilidade, levasse a pensar, mesmo que
apenas remotamente, que liberdade de consciência, ecumenismo e nova missa
possam ser “variáveis não necessárias” da identidade católica, é claro que,
para os lefebvrianos, seria um verdadeiro triunfo. Eles não teriam qualquer
dificuldade para se reconciliar com uma Roma que se tornou, repentina e
improvisadamente, lefebvriana.
Mas quem pode ter dito a
Fellay aquelas palavras irresponsáveis, senão algum membro da Comissão Ecclesia
Dei? E não
será o caso de submeter esses oficiais a uma verificação, pelo menos em relação
à tradição católica assim como o Concílio Vaticano II a projetou? Será que os membros dessa comissão, na
fúria de celebrar com o rito antigo, se descobriram mais apaixonados pelo
Concílio de Trento do que pelo Concílio Vaticano II? Aqueles que atribuem
ao sucessor de Lefebvre o papel de “defensor da tradição” manifestam que estão
totalmente desorientados sobre a história dos últimos 50 anos e que não têm o
mínimo senso da tradição que caminha e que se cura.
Não
deixaremos a “monsenhorzinhos” romanos sem verdadeira cultura eclesial e
analfabetos em liturgia e em teologia conciliar a faculdade de liquidar a
Reforma Litúrgica, o ecumenismo e a liberdade de consciência por um prato de
lentilhas.
Sobre
esse ponto, Roma só pode ser
rigorosamente intransigente. Para permanecer aberta ao Espírito Santo. E
para isolar definitivamente todos
aqueles que querem reduzir a Igreja a um museu.
No
entanto, se eu tivesse que considerar cuidadosamente a mesa das negociações com
Fellay, francamente não saberia para que lado da mesa deveria olhar com maior
preocupação.
Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão
original deste artigo, clicando aqui (Come
se non – 03/07/2018).
* IMPORTANTE:
para saber mais detalhes da separação e rompimento com a Igreja Católica
promovida pelo ex-arcebispo Marcel Lefebvre, clique aqui e leia, na íntegra, esse ótimo artigo.
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