O perigo de misturar Estado e Igreja
CRIVELLA USA DA MÁQUINA DA PREFEITURA
DO RIO DE JANEIRO
Thiago Prado
Jornal “O
Globo”
06/07/2018
Sua atuação como prefeito tem como
meta fazer avançar o poder de sua igreja mesmo que, em alguns momentos, fira
princípios do ESTADO LAICO
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MARCELO CRIVELLA Ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus - Atual Prefeito do Rio de Janeiro (RJ) |
Lançado
em 2008, o livro «Plano de Poder» do
bispo Edir Macedo, líder da Igreja
Universal do Reino de Deus, prega a entrada dos evangélicos no jogo
eleitoral. «O que falta aos cristãos para se estabelecerem politicamente? Ações
bem coordenadas». Desde então, o PRB,
partido ligado à igreja, só ganhou musculatura. Tem hoje 21 deputados em Brasília e saiu das
urnas há dois anos com mais de 100
prefeituras espalhadas pelo país. A principal delas, a do Rio de Janeiro,
conquistada por Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo.
Durante a campanha eleitoral de 2016, Crivella teve
como meta a redução da sua rejeição diante do eleitor carioca. Jurou diversas vezes que não misturaria
política com religião caso eleito. Após um ano no cargo, em entrevista à
revista «Veja"» em janeiro deste ano, deu novo sentido aos seus conceitos.
Afirmou que o problema não era misturar
política e religião mas, sim, Estado e Igreja. E insistiu que seu governo
não fez nada disso desde 1° de janeiro do ano passado.
O discurso é questionado por opositores: afinal
* nomear dois
bispos da Universal para cargos estratégicos (João Mendes, na Assistência Social,
e Jorge Braz no Procon) não
entraria no requisito da mistura?
* Por acaso a religião do prefeito pesou na hora de cortar recursos de eventos como a Parada
Gay e da tradicional procissão de homenagem a Iemanjá no Rio?
* Sequer
pisar no Sambódromo em dias de desfile das escolas de samba tem a ver com
as crenças de Crivella?
A negativa está sempre presente na fala oficial,
mas a dúvida permanece no debate político.
Em poucos dias da sua administração, a prefeitura quis mudar a sua logomarca
para introduzir na palavra Rio um sutil número 10, justamente o usado pelo PRB.
O projeto foi parar na Justiça e acabou barrado. A era Crivella também foi a
responsável por colocar na rua um inédito
censo religioso por meio de formulário onde os integrantes da Guarda Municipal
eram questionados sobre a sua religiosidade (o motivo da iniciativa jamais
foi esclarecido até hoje). Seu governo deu ainda nome de rua para lideranças evangélicas
e permitiu viagens internacionais com
direito a visitas do prefeito às sedes da Universal pelo mundo.
Em uma fala
direcionada apenas a evangélicos, na noite de quarta-feira [4 de julho], prometeu facilidades no acesso às cirurgias
de catarata e na aprovação de isenção de IPTU para igrejas, em discurso
flagrado pelo GLOBO. Com um
pré-candidato do PRB a deputado federal sentado ao seu lado. «Nós temos que aproveitar que Deus nos deu
a oportunidade de estar na Prefeitura para esses processos andarem»,
defendeu Crivella em alto e bom som. Elevou ali os indícios de que sua atuação como prefeito tem como meta
fazer avançar o poder de sua igreja mesmo que, em alguns momentos, fira princípios
do ESTADO LAICO.
Fonte: GS Notícias – Editorias
– Sexta-feira,
6 de julho de 2018 – Internet: clique aqui.
Crivella, 1 ano. Desprezo à diversidade, culto
à intolerância e Rio de abandono
Maurício Thuswohl
Depois de um ano de gestão
desrespeitosa com a cidade, e sem rodeios ao aparelhar equipamentos públicos,
prefeito do Rio começa o ano com corte
de verba que fecha Casa do Jongo da
Serrinha
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CASA DO JONGO Serrinha - Rio de Janeiro |
O
ano mal começou, e o anúncio do fechamento
por tempo indeterminado da cinquentenária Casa do Jongo da Serrinha já dá
mostras de que em 2018 a rotina de abandono
pela Prefeitura do Rio de Janeiro das manifestações culturais ligadas a
matrizes africanas repetirá o ano anterior. Mesmo tombada em 2005 pelo
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio
Imaterial da Região Sudeste, a tradicional casa localizada no bairro de
Madureira (zona norte) viu ser interrompido desde outubro o repasse financeiro
que recebia da Secretaria Municipal de Cultura. “Não sabemos sequer o motivo. Tentamos várias reuniões, mas nunca fomos
recebidos”, diz Dyonne Boy, diretora da ONG que administra o espaço.
Evidenciado
neste episódio, o desinteresse em relação a uma parte tão importante da cultura
e da história cariocas foi uma das principais características do primeiro ano
de mandato do prefeito Marcello Crivella
(PRB), de acordo com a análise de militantes dos movimentos sociais e de
parlamentares da oposição. Para além das
metas anunciadas, mas não cumpridas, em setores essenciais como saúde e
educação – o que não chega a ser novidade na política brasileira –, a gestão municipal carioca em 2017 teria
sido marcada pelo nepotismo e pelo aparelhamento da máquina pública, além de
acenar com preocupantes retrocessos no que diz respeito à diversidade cultural
e à livre expressão sexual e religiosa. Uma vez no cargo, o ex-senador e ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus pecou,
segundo os críticos, pelo não cumprimento da promessa de não misturar política
e religião na prefeitura, reiterada durante toda a campanha eleitoral. [...]
CATEDRAL DE DEL CASTILHO - IURD Rio de Janeiro - RJ |
Aparelhamento
Segundo
a oposição, esse aparelhamento foi explicitado pela realização de eventos da Universal em escolas municipais. Os casos
mais notórios aconteceram no Ciep Gustavo
Capanema, no Complexo da Maré (zona norte), e na Escola Municipal Joaquim Abílio Borges, no bairro do Humaitá (zona
sul). Nestas escolas foram realizadas ações sociais promovidas pelo Grupo de Evangelismo da Catedral de Del
Castilho, templo da Universal com capacidade para 30 mil pessoas e
conhecido pelos próprios fieis como o “Maracanã da Fé”. Nas duas ocasiões, a Universal ofereceu também assistência
médica e jurídica e distribuição de cestas básicas e quentinhas, além de
palestras para mães solteiras e mulheres que sofreram agressões domésticas.
A
Secretaria Municipal de Educação afirma que, desde que haja solicitação prévia,
“qualquer instituição, religiosa ou não, pode utilizar os prédios das escolas
públicas em horários ociosos” e que “além da Igreja Universal, outras
denominações religiosas também utilizam esses espaços”. Esta utilização, diz a
Secretaria, foi regulamentada por uma resolução publicada pela prefeitura em 24
de outubro.
O
eventual aparelhamento da máquina municipal pela Igreja Universal foi também
muito discutido em outro episódio, ocorrido em maio, quando um caminhão da Companhia Municipal de
Limpeza Urbana (Comlurb) foi flagrado ao fazer serviços de limpeza dentro do
templo da IURD no bairro de Bonsucesso, na zona norte. Em agosto, outro caminhão com a logomarca da
prefeitura foi visto entregando asfalto
no templo da Universal localizado no bairro de Santa Cruz (zona oeste).
Após
os flagrantes, tanto a Comlurb como a Secretaria Municipal de Conservação
prometeram investigar a utilização dos veículos públicos pela Igreja Universal,
mas até agora não apresentaram resultados. Em relação ao caso de Santa Cruz, a
prefeitura informou que a empresa vista fazendo o serviço – a Jas Mix
Bombeamento de Concretos - não tem mais vínculos com a prefeitura e que “já foi
orientada a retirar os adesivos de identificação de seus caminhões”.
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MARCELO HODGE CRIVELLA Filho do Prefeito do Rio de Janeiro |
Nepotismo
A
indicação de pessoas ligadas à direção da Universal para postos na
administração municipal também mereceu críticas. O caso mais emblemático foi a nomeação do filho do prefeito, Marcelo
Hodge, para a Casa Civil. Mesmo afastado do cargo por liminar da Justiça,
Hodge seguiu cumprindo agendas oficiais até que, em outubro, o advogado Victor
Travancas, que movia a ação por nepotismo, retirou a acusação contra o
prefeito.
Outros
casos apontados como nepotismo envolveram as nomeações de Alessandro da Costa, que é sócio da filha do prefeito,
para a subsecretaria da Casa Civil, e de Fábio Macedo, que é primo do Bispo Edir Macedo (líder máximo da
Universal e tio de Crivella), para o
cargo de administrador da sede da prefeitura. Crivella rebateu as
acusações: “Posso garantir que a
prefeitura não ajuda a Igreja Universal. Ao contrário, é ela que nos ajuda na
missão de servir a todos”.
Censo
religioso
A
prefeitura do Rio também foi acusada de promover “censos religiosos” em alguns setores da administração pública. Em
agosto, a Guarda Municipal [GM] distribuiu
um questionário a todo o seu efetivo de 7,5 mil pessoas no qual pedia para que
se informasse a opção religiosa. De acordo com a direção da GM, o
fornecimento dessa informação não era obrigatório e o censo “foi realizado como
parte do novo Projeto de Capelania que está sendo elaborado pela instituição,
um projeto ecumênico que prestará assistência religiosa, espiritual e social
aos servidores”.
Algo
semelhante aconteceu em setembro, quando foi distribuído o formulário de inscrição do programa municipal Rio Ar Livre,
promovido pela Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos e destinado
a idosos e pessoas de baixa renda que queiram praticar exercícios físicos nas academias populares instaladas em
algumas praças da cidade. A Secretaria afirma que o questionário, também
criticado por perguntar a cor das pessoas, serve para “identificação do perfil
socioeconômico dos beneficiados pelo programa”.
Em
setembro, Átila Nunes deu entrada em
duas ações populares no Ministério Público Estadual. A primeira pede o imediato
afastamento da diretora da GM, Tatiana Mendes, por proselitismo religioso: “O
que a direção da Guarda Municipal fez foi uma tentativa de, mediante evidente
pressão, converter pessoas à religião
evangélica em ambiente de trabalho”, diz. A segunda ação pede a suspensão
de perguntas sobre religião em questionários formulados pela prefeitura. As
ações prosseguem na Justiça.
Crivella
afirmou que, em ambos os casos, não tinha conhecimento prévio sobre a
realização dos questionários religiosos, já que tanto a Secretaria quanto a
Guarda Municipal são autarquias e têm autonomia em suas decisões internas. Em
nota distribuída à imprensa, o prefeito disse que “não existe qualquer cunho religioso na atual gestão da Prefeitura do
Rio”.
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SAMBÓDROMO - Rio de Janeiro - RJ |
Carnaval
e Parada LGBTI
O divórcio da prefeitura com o carnaval
já pode ser considerado uma marca da gestão de Crivella. O prefeito, que não
concorda com a entrega simbólica das chaves da cidade ao Rei Momo e não comparecerá ao Sambódromo pelo segundo
ano consecutivo, promoveu um corte de 50% na verba que as escolas de samba
do grupo principal receberão da Riotur (para o desfile de 2018, cada escola
receberá R$ 1 milhão). Crivella sugeriu
à Liga das Escolas de Samba (Liesa) que o evento passe a buscar
prioritariamente recursos privados, “assim como faz, por exemplo, o Rock in
Rio”.
Em
nota, a prefeitura afirma que “está em estudo o desenvolvimento de mecanismos
para captação de investimentos da iniciativa privada para a realização do
desfile das escolas de samba”. Segundo Crivella, esse critério será respeitado
já para os desfiles de 2019. “Teremos um
carnaval espetacular no próximo ano, já com mais verbas privadas do que verbas
públicas”, disse o prefeito.
Neste
início de ano, em entrevista ao site de uma revista, Crivella usou de forma
irônica o nome de seu antecessor para se defender das acusações de que estaria
“desprestigiando” o carnaval. “Não sou
como o Eduardo Paes (PMDB), que era
um carnavalesco. Sou evangélico, nunca fui de carnaval, não tem a ver com o meu
meio. Não obrigo ninguém a ser como eu, assim como não quero que me obriguem a
ser como não sou.”
Outro
evento com grande apelo popular, ícone da luta contra a homofobia e pela
liberdade de opção sexual, a Parada do
Orgulho LGBTI do Rio também sofreu com a falta de apoio da prefeitura no
primeiro ano de mandato de Crivella. Realizada tradicionalmente em Copacabana e
com sua 22ª edição marcada inicialmente para outubro, a manifestação teve de
ser adiada e só aconteceu no final de novembro, após seus organizadores captarem
recursos de emergência junto a empresas privadas e sites de financiamento
coletivo. “A prefeitura cortou
completamente o apoio financeiro que dava à Parada LGBTI. E fez isso sem
negociar nenhuma redução proporcional, como aconteceu com outros eventos”,
diz Júlio Moreira, diretor do Grupo Arco-Íris, responsável pela organização do
ato.
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