Táticas militares aplicadas à eleição
“Contradições e bate-cabeça da campanha de Bolsonaro são
intencionais”
Entrevista
com Piero Leiner
Antropólogo,
professor da Universidade Federal de São Carlos (SP),
especialista
em estratégia militar
Gil Alessi
Para o especialista em estratégia
militar Piero Leirner,
capitão usa tática militar em sua
comunicação
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PIERO LEINER |
Esqueça
a propaganda eleitoral tradicional na TV e no rádio. Deixe de lado também qualquer
necessidade de discursos coerentes e sem contradições. Ao contrário:
* estimule seus aliados a levantar uma série de polêmicas apenas para que
você possa, em seguida,
* desmenti-los e desempenhar o papel de apaziguador, paladino «da ordem».
* Na sequência, apresente mais desinformação.
* Repasse para dezenas de grupos fechados de WhatsApp,
* que espalharão para mais centenas, até que a verdade seja uma
questão de ponto de vista sem nenhum lastro na realidade.
Essa é a estratégia que, segundo o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de
São Carlos e especialista em estratégia militar, foi colocada em marcha pela campanha do presidenciável Jair Bolsonaro
e pode levá-lo ao Planalto nas eleições de domingo. Em entrevista por e-mail ao
EL PAÍS ele detalha os passos que fizeram com que o capitão da reserva deixasse
seus adversários se perguntando o que os atingiu.
Pergunta:
A campanha de Bolsonaro frequentemente aparenta bater cabeça, com o capitão
tendo que rebater colocações de sua equipe, como no caso da afirmação de um de
seus filhos sobre o fechamento do Supremo Tribunal Federal. Isso é uma
estratégia eleitoral?
Resposta: Tenho a impressão que no
primeiro turno isso foi feito muito mais de cabeça pensada do que agora. A estratégia visava a criação de um
ambiente de dissonância cognitiva
[no qual uma pessoa apresenta simultaneamente opiniões contraditórias entre
si], para em um segundo momento
Bolsonaro aparecer com um discurso de restauração da ordem. Este é um passo
clássico de operações psicológicas [militares], algo que está colocado em
manuais de informação e contrainformação, propaganda de guerra e estratégias de
dissuasão do inimigo há muito tempo.
Pergunta:
Qual o sentido de usar esta estratégia?
Resposta: O que se podia fazer com
oito segundos de TV? Nada. Então houve a apropriação bastante eficaz desse tipo
de instrumento de guerra semiótica.
Falar e desdizer, e, como você disse antes, «bater cabeça» com os cabeças de
ponte, os subordinados que ocupam uma posição de contato no terreno inimigo. Com isso ele mostrava o seguinte: «a
confusão está fora de mim, mas eu restauro a autoridade aqui». Todo o tempo
esse foi o discurso, de que ele é a
autoridade. E assim ele multiplicou
o carisma, jogando para o plano que oscilava entre uma autoridade carismática e tradicional.
Tenho
a impressão que depois isso se tornou um
padrão, basta ligar no piloto automático. O que foi repreender o filho
[Eduardo Bolsonaro, que falou na possibilidade de fechar o STF] senão a
repetição do discurso de que «tem que
levar umas palmadinhas»? Ou seja, mais uma vez ele capitalizou com o erro.
Pergunta:
Em que medida esta estratégia ajuda o candidato? É possível dizer que, neste
cenário, confundir ajuda?
Resposta: O padrão é sempre aparecer com uma ordem semanticamente
paralela à desordem anterior. Se há uma desordem, digamos hipoteticamente,
lançada por meio de uma contradição em um assunto econômico, como por exemplo
Paulo Guedes dizendo «vou privatizar tudo», Bolsonaro reage com um «não vamos
privatizar as empresas estratégicas» e, posteriormente, a questão é resolvida
com um «vou acabar com o problema da violência». Isso é tão eficaz que até os donos de corretoras, o tal mercado, releva
as informações que deveriam realmente interessar e passam a apostar nele.
Outro
dia assisti em um programa de TV uma mesa com dois donos de corretoras, e um
deles disse: «não é preciso ter plano
algum para a economia, isso a gente vê depois. O que interessa mesmo é acabar
com o privilégio das minorias que se instalou nesse país». Acho que nem
Wall Street chegaria nesse ponto, de onde se vê que até gente que sabe como a engrenagem funciona caiu em processo de
dissonância cognitiva.
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JAIR BOLSONARO & PAULO GUEDES O Presidente eleito e seu super-ministro da Economia |
Pergunta:
Estas polêmicas provocadas pelo círculo íntimo do candidato ficam dias
repercutindo na mídia. Isso é positivo para ele?
Resposta: Claro. Ainda mais
considerando que ele conseguiu colar a
versão de que a mídia é, ela própria, uma fake
news. Então toda a polêmica que
fica exposta ele capitaliza depois mostrando que é o antissistema lutando
contra o establishment. E fez
isso de uma maneira muito simples, pois depois
de anos da mídia manobrando à vontade para bater no PT, eis que Bolsonaro bate
na mídia e o PT assume a defesa
dela! O que a campanha do PT fez? Jogou fora sua narrativa anterior,
deixando esse vácuo, que é um tesouro semiótico, pronto para o Bolsonaro pegar
e inverter a pauta: agora o PT é o
«partido da Globo» [Engana-me que eu gosto! Só
ingênuo para crer nisso! Mas, muitos acreditaram!]. Passei dias ouvindo
isso, que na Globonews são todos
petistas de carteirinha. Agora, minha
sensação é que quanto mais a mídia bater, mais ele capitaliza.
Pergunta:
Qual o conceito de guerra híbrida que o senhor trabalha, e como se
aplica à política?
Resposta: O conceito foi inventado
por um norte-americano que reside na Rússia, o Andre Korybko. Ele fala, sobretudo, em movimentos que se utilizam
de pautas identitárias que são
articuladas por agentes externos para provocar conflitos e desestabilizar
regimes. Foi assim nas chamadas primaveras
árabes e, penso, aqui também em 2013. Para ele há um claro envolvimento do
assim chamado deep state [nome dado a
uma mistura de interesses de agentes estatais com investidores e setores
industriais] norte-americano.
Pergunta:
A manipulação de pautas identitárias são a única maneira de usar a guerra
híbrida?
Resposta: Eu penso que não, ainda que
os meios sejam os mesmos: basicamente uma guerra
no campo da informação e contrainformação, cujo objetivo é dissuadir o inimigo sem precisar levantar a espada. Isso
é Sun-Tzu [estrategista militar
chinês autor do livro A Arte da Guerra].
Isso é a base das PsyOps, ou
operações psicológicas. O ponto todo é
sempre desnortear o inimigo, deixando praticamente impossível para ele uma
avaliação real sobre o tamanho, o posicionamento, a coesão e o estado de suas
forças. Toda informação deve ser
criptografada, e sempre é preciso adicionar uma quantidade de camadas de informação
diante dos fatos de modo que as pessoas
não saibam mais se estão olhando para as distrações ou para a mão que realiza a
manobra. Com essa parafernália conceitual, me parece plausível que exista
aplicação em qualquer campo. Por que a política ficaria isenta dela?
Pergunta:
Como reagir a um ataque híbrido?
Resposta: O que você acha que é essa quantidade incrível de vídeos que circulam
agora via Facebook e WhatsApp? Contra-ataques
híbridos. Estão certos? Falam a verdade? É bem possível, mas sua origem é
tão obscura quanto a da matéria ele pretende desmentir. E o problema disso tudo
é que nada parece ter lado, todas essas
verdades parecem surgir do nada e se fiar em checagem de fatos. Mas então
me diga uma coisa: qual é a agência que vai determinar, em última instância, a
checagem? A mesma imprensa que, até 20 dias atrás, manobrou os fatos à sua
vontade? O problema é que quando eles
iam só em uma direção, estava tudo bem. Agora que o resultado saiu do
controle, fica todo mundo desesperado com a quantidade de notícias falsas e
mentiras. Quem olhou para o que estava
acontecendo desde 2013 viu que tudo estava seguindo um padrão.
Pergunta:
Existe algum outro país onde esta estratégia tenha sido utilizada?
Resposta: Desta maneira, que eu
saiba, não. Você deve estar pensando no caso norte-americano, no escândalo da Cambridge Analytica e dos contatos do
filho de Bolsonaro com Steve Bannon
[ex-estrategista de Donald Trump]. É uma parte do processo, mas não explica
tudo. A estratégia tem que ser vista de
forma aprofundada, recuando alguns anos. Agora parece que todo mundo
acordou, no susto. Não se trata só da campanha que começou este ano, mas de passos mais largos que foram sendo
realizados por outros agentes, como o Judiciário e a própria mídia.
A entourage de Bolsonaro certamente mapeou
esses movimentos e foi se posicionando, sempre no segundo plano. Quando chegou
a sua vez, aí foi o movimento de morde e
foge, lançou o ataque semiótico e depois viu como o campo se desorganizou, para
aí se reposicionar de novo. E assim foi indo, sempre lá de trás, observando
como no front os outros ficavam como baratas tontas. Veja o PSDB [que focou sua
artilharia em Bolsonaro, mas sequer foi ao segundo turno da disputa], mais
claro impossível.
Pergunta:
O que mudou no papel da propaganda eleitoral clássica, na TV e no rádio? Os
adversários de Bolsonaro conseguiram fazer bom uso dela?
Resposta: Isso que você está chamando
de propaganda clássica chega a dar dó.
Os minutos que são fatiados em críticas, propostas e aqueles clipes ridículos
mostrando gente sorrindo, o brasileiro típico, não devem convencer mais ninguém.
Compare com o que produziu Bolsonaro:
vídeos de baixa qualidade, feitos com celular. Todo mundo espalhou, não consumia a banda larga de ninguém!
Pareciam selfies que se manda para o
amigo ali da esquina. Essa estratégia o colocou em linha direta com as pessoas. E
elas espalharam este conteúdo como se fossem agentes de campanha.
Funcionaram como estações repetidoras. Delas para os grupos, e desses para
outros. Hoje também já suspeitamos que houve uma ajuda extra. Mas, como disse,
esse jogo está com a regra alterada circunstancialmente. Então essa propaganda tradicional, do jeito que
está sendo feita, é inócua.
Pergunta:
Algum outro candidato além de Bolsonaro fez uso da guerra híbrida com
eficiência?
Resposta: Claro que não. Basta ver
onde eles estão.
Pergunta:
Bolsonaro diz não ter controle sobre a disseminação de fake news. Qual sua avaliação?
Resposta: Há dois pontos aí: ele não tem controle de como as fake news se espalham, pois as
células atuam de maneira semi-independente. Mas ele, ou alguém da equipe dele, tem controle sobre a própria boca e
como as coisas saem dela. Então ele tem segurança na fórmula, a equipe tem as chaves da criptografia das
mensagens passadas. Então é claro que ele poderia dar um cavalo-de-pau e
tentar mudar a chave, e é evidente que ele não fez isso. O discurso de domingo [21 de outubro, quando Bolsonaro falou em
varrer a oposição] intensificou mais
ainda essa estratégia. Tudo feito como sempre, e ninguém consegue reagir.
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