8º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia
Evangelho:
Lucas 6,39-45
Naquele tempo:
39 Jesus contou uma parábola aos
discípulos: «Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?
40 Um discípulo não é maior do que o
mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre.
41 Por que vês tu o cisco no olho do
teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho?
42 Como podes dizer a teu irmão: irmão,
deixa-me tirar o cisco do teu olho, quando tu não vês a trave no teu próprio
olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar
bem para tirar o cisco do olho do teu irmão.
43 Não existe árvore boa que dê frutos
ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons.
45 O homem bom tira coisas boas do bom
tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois
sua boca fala do que o coração está cheio.
JOSÉ ANTONIO PAGOLA
Biblista
espanhol

A
PARTIR DE DENTRO
«No
vosso interior está o gérmen do autêntico».
Assim
se poderia formular uma das linhas de força da mensagem de Jesus. Em meio à uma
sociedade judaica subjugada às leis do puro e do impuro, do sagrado e do
profano, Jesus introduz uma princípio revolucionário para aquelas mentes: «Nada
que entra de fora, torna impuro o homem; o que sai de dentro é o que o torna
impuro».
O
pensamento de Jesus é claro: o homem autêntico se constrói a partir de
dentro. É a consciência que há de orientar e dirigir a vida da pessoa. O
decisivo é o «coração», esse lugar secreto e íntimo de nossa liberdade, onde
não podemos enganar a nós mesmos. Segundo esse «despertador de consciências»
que é Jesus, aí se joga o melhor e o pior de nossa existência.
As
consequências são palpáveis. As leis nunca hão de substitui a voz da consciência.
Jesus não vem abolir a Lei, porém superá-la e transbordá-la do «coração». Não
se trata de viver cinicamente à margem da lei, porém de humanizar as leis,
vivendo do espírito para o qual apontam quando são retas. Viver honestamente o
amor a Deus e ao irmão pode levar a uma «ilegalidade» mais humana que a que
defendiam certas leis.
O
mesmo sucede com os ritos. Jesus sente um santo horror para o que é
falso, teatral ou postiço. Uma das frases bíblicas mais citadas por Jesus é
esta do profeta Isaías: «Este povo me honra com os lábios, porém seu coração
está distante de mim. O culto que me prestam está vazio». O que Deus quer é
amor e não cânticos e sacrifícios. O mesmo se passa com os costumes, tradições,
modas e práticas sociais ou religiosas. O importante, segundo Jesus, é a
limpeza do coração, o «asseio interior».
A
mensagem de Jesus tem, hoje, talvez mais atualidade que nunca em uma sociedade
onde se vive uma vida programada a partir de fora e onde os indivíduos são
vítimas de toda classe de modas e slogans. É necessário «interiorizar a
vida» para tornar-nos mais humanos. Podermos adornar o homem com cultura e
informação; podemos fazer crescer seu poder com ciência e técnica. Se seu
interior não é mais limpo e seu coração não é capaz de amar mais, seu futuro
não será mais humano. «O que é bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração.
Mas o que é mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o
coração está cheio».
ÁRVORES
BOAS
A advertência de Jesus é
fácil de entender. «Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore
ruim que dê frutos bons. Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos. Não se
colhem figos de espinheiros, nem uvas de plantas espinhosas».
Em uma sociedade má por
tantas injustiças e abusos, onde crescem as «plantas espinhosas» dos interesses
e as muitas rivalidades, e onde brotam tantos «espinhos» de ódios, discórdia e
agressividade, são necessárias pessoas boas que deem outra classe de frutos. O
que podemos fazer, cada um de nós, para melhorar um pouco a convivência social
tão prejudicada entre nós?
1º) Talvez, tenhamos de começar por não tornar a vida
de ninguém mais difícil do que já é:
Esforçar-nos por viver de tal maneira que, ao menos perto de nós,
a vida seja mais humana e suportável.
Não envenenar o ambiente com nosso pessimismo,
nossa amargura e
agressividade.
Criar ao nosso redor, relações diferentes, feitas de
confiança, bondade e cordialidade.
2º) São necessárias, também, pessoas que saibam
acolher. Quando escutamos e acolhemos alguém, estamos libertando-o da
solidão e lhe estamos infundindo novas forças para viver. Por mais difícil e
dolorosa que seja a situação em que se encontra, se a pessoa descobre que não
está sozinha e tem alguém a quem recorrer, nascerá de novo nela a
esperança. Que grande tarefa pode ser, hoje, oferecer refúgio, acolhida e
respiro a tantas pessoas maltratadas pela vida.
3º) Temos de desenvolver, também, muito mais a capacidade
de compreensão. Que as pessoas saibam que, façam aquilo que fizerem e por
mais graves que sejam seus erros, em mim encontrarão sempre alguém que as compreenderá.
Talvez, tenhamos de começar por não desprezar ninguém nem sequer interiormente.
Não condenar nem julgar precipitadamente e sem compaixão alguma.
A maioria de nossos juízos e condenações das pessoas somente mostram
nossa pouca qualidade humana.
4º) É também importante dar força interior ao que
sofre. Nosso problema não é ter problemas, mas não ter força para enfrentá-los.
Junto de nós há pessoas que sofrem insegurança, solidão, fracasso, enfermidade,
incompreensão... Essas pessoas não necessitam, apenas, de receitas para
resolver suas crises. Necessitam de alguém que compartilhe seu sofrimento e
traga para suas vidas a força interior que as sustente.
5º) O perdão pode ser outra fonte de esperança em
nossa sociedade. As pessoas que não guardam rancor nem alimentam de
maneira insana o ódio ou a vingança, mas sabem perdoar em seu íntimo, semeiam
esperança no mundo. Junto dessas pessoas, sempre crescerá a vida.
Não se trata de fechar os
olhos ao mal e à injustiça do ser humano. Trata-se, simplesmente, de escutar a
admoestação de São Paulo: «Não te deixes vencer pelo mal; antes, vença o mal
com o bem» (Rm 12,21). A maneira melhor de lutar contra o mal em uma
sociedade tão uma sociedade tão danificada em alguns valores humanos é fazer o
bem «A ninguém pagueis o mal com o mal... Na medida do possível e enquanto
depender de vós, vivei em paz com todos» (Rm 12,17-18).
Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral
de Figueiredo.
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