Uma pergunta...
Quem defende o bem
comum é comunista
ou segue o Evangelho?
Padre Ticão & Professor Waldir*
Uma
reflexão de Dom Helder Câmara para os “homens de bem” que
se
esquecem dos ensinamentos de Jesus Cristo
“Quando eu dou de comer aos pobres, me chamam de santo.
Quando eu pergunto por que eles são pobres, me chamam de
comunista!”
– Dom Helder Câmara
Começamos nossa reflexão de
hoje com esta frase de Dom Helder Câmara, que muito incomodou e
continua a incomodar aqueles que se autointitulam conhecedores de todas as
verdades e que se dão o direito de classificar ideologicamente homens e
mulheres que defendem o bem comum. E o pior: fazem isso se autodenominado “evangelizadores
e defensores da moral e dos bons costumes” que falam em nome de Jesus
Cristo.
Servindo-se, em muitos casos,
da liberdade religiosa garantida pela Constituição, abrem “igrejas” as quais
classificam como “cristãs” e a partir delas buscam espaços livres nas redes
sociais, compram a preços exorbitantes horários em rádios e tevês e passam a
produzir revistas e jornais com conteúdos agressivos distribuídos
“gratuitamente”.
Munidos por esses
equipamentos, passam a agir como juízes de um tribunal capaz de julgar e
condenar seres humanos ao “fogo do inferno”, classificando-os como
comunistas, esquerdistas, petistas, marxistas, dentre outros, simplesmente por
defenderem direitos iguais para todos. Para estes “juízes e seus algozes”,
direitos iguais ou bem comum são o mesmo que comunismo.
Mesmo as igrejas cristãs mais
antigas e tradicionais sofrem com esse tipo de “pregação e comportamento”
oriundos de líderes religiosos que não admitem se despojar de sua “proteção
institucional”, de suas vestes “armaduras” e de suas insígnias e irem para o
meio do povo marginalizado, pobre, abandonado e condenado a viver na miséria.
Parece até que se
esqueceram de que foi para estes
que o Cristo veio e foi vivendo entre eles que Ele nos ensinou o verdadeiro
sentido do amor, do perdão, da misericórdia e da partilha.
O Evangelho de João, capítulo
10, nos apresenta uma passagem da vida de Jesus que nos permite traçar uma
comparação com os acontecimentos narrados em nossa sociedade atual.
O cenário descrito por Jesus,
apresenta elementos diversos: o pastor, a porta, as ovelhas, gente estranha. A
incompreensão dos fariseus intensifica a certeza de que eles estão cegos (Jo
10,1-6). Nos versículos 7 a 18, as palavras de Jesus sobre a cena apresentada
aos fariseus reforçam as diferenças no modo de agir: enquanto estes se ocupam
apenas com seus próprios interesses, o sentido da missão e obra de Jesus é a
vida plena da humanidade (versículo 10), e
é para isso que ele forma em torno de si uma comunidade.
Diante do exposto, podemos
inferir que o projeto de Jesus pressupõe uma sociedade onde o bem comum se
sobreponha, definitivamente, aos interesses corporativos de grupos
organizados e inescrupulosos que não se importam com o bem-estar do próximo.
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PAPA FRANCISCO Sempre defendendo os vulneráveis, os mais fracos de nossa sociedade |
Hoje, cabe a nós, cristãos
comprometidos com os ensinamentos do Cristo, trabalharmos por uma sociedade
mais justa, onde milhões – sobremaneira
idosos –, não sejam obrigados a viverem com míseros 400 reais por mês, como
previsto na Reforma da Previdência.
O Papa Francisco nos
ensina:
“O bem comum pressupõe o respeito pela
pessoa humana como tal, com direitos fundamentais e inalienáveis […] O bem
comum exige a paz social, isto é, a estabilidade e a segurança de uma
determinada ordem, que não se realiza sem atenção especial à justiça
distributiva […] Toda a sociedade – e especialmente o Estado – tem a obrigação
de defender e promover o bem comum. [….] Nas condições atuais da sociedade
mundial, onde há tantas desigualdades […] o princípio do bem comum se torna
imediato, como consequência lógica e inevitável, em um apelo à solidariedade e
em uma opção preferencial pelos mais pobres.
Defender e lutar pelo bem
comum não é ser comunista… É ser cristão.
* Os autores
deste artigo são: o padre Antônio Luís Marchioni, vulgo Padre Ticão, pároco
da Paróquia São Francisco de Assis de Ermelino Matarazzo, Diocese de São Miguel
Paulista, na zona leste de São Paulo (SP). Importante liderança dos Movimentos
e Pastorais Sociais da região, atua nas mais diversas áreas em defesa de
Políticas Públicas que atendam efetivamente às necessidades da população.
O professor Waldir, que é licenciado em
Filosofia e bacharelando em Teologia. Agente pastoral, escritor e assessor de
movimentos sociais.
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