O que o massacre de Suzano revela?
A banalidade do mal e as perguntas que
não sabemos fazer
Fernando Schüler
Filósofo,
professor do Insper e curador do projeto Fronteiras do Pensamento.
Foi
diretor da Fundação Iberê Camargo
Há muita coisa complexa no massacre de Suzano,
mas há algumas muito simples:
a falência da escola e a indiferença burocrática de nosso
sistema de educação
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Escola Estadual "Professor Raul Brasil" - Suzano (SP) Palco da tragédia no dia 13 de março de 2019 |
Era um “bobão”, diz a mãe, Tatiana, sobre o filho Guilherme. “Ele tinha tudo, TV à
cabo, internet...e faz isso?”.
O avô dizia que Guilherme
era um “menino bonzinho, que nunca dava trabalho”. Passava quase o tempo
todo jogando videogame, em casa, na lan house. Costumava gritar “mata, mata”, olhando fixo para a tela.
Usava um
colarzinho com a suástica nazista. Uma besteira qualquer, coisa de
guri que anda vestido de preto, sempre grudado
com o único amigo, meio isolado,
meio sem direção e com raiva do mundo.
E estranhamente quieto.
Nos últimos tempos, a dupla andava metida com uma comunidade
marginal e criminosa na deep web,
onde por fim encontraram um jeito de
fantasiar heroísmo e comprar armas.
Não é difícil perceber o elemento complexo disso tudo:
* A mãe drogada,
* o pai ausente,
* a morte da avó,
* as espinhas na cara,
* o bullying na escola,
* o vício nos games violentos,
* a mística vulgar revelada na ideia de “partir como heróis” e encontrar as “sete virgens”.
Me chama a atenção a saída da escola. O que acontece exatamente quando um adolescente de 15 ou 16 anos decide
simplesmente abandonar os estudos? Guilherme não saiu por pressão
econômica. Saiu porque deu na telha. A
turma zoava da cara marcada pelas espinhas e ele resolveu dar no pé.
A partir
daí, o que acontece? Numa família razoavelmente estruturada, em uma escola
particular, é difícil pensar numa situação dessas. Os pais vão atrás, a escola
vai atrás, entra um psicólogo no jogo. Tudo pode dar errado, no fim das contas,
mas é difícil que aconteça.
No caso de
Guilherme, alguém foi efetivamente saber o que se passava?
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MISSA CELEBRADA EM FRENTE À ESCOLA "PROF. RAUL BRASIL" - SUZANO (SP): na foto aparece, em destaque, o padre Claudio Taciano da Diocese de Mogi das Cruzes (SP) |
O Estado
tratou tudo como mais um procedimento burocrático, ou alguém
foi de fato a fundo para saber o que se passava com um aluno que, do dia pra
noite, resolveu largar a escola e gastar o tempo jogando videogames?
Há muita coisa complexa nessa história toda, mas há algumas
muito simples. Uma delas é a falência da
escola. Da indiferença burocrática
de nosso sistema de educação.
Também aí reside uma “banalidade
do mal”.
De um modo mais amplo, é um pouco disso que se vê, no dia
seguinte ao massacre, na repercussão que os políticos deram ao caso.
O besteirol de comentários no dia seguinte
De um lado, leio que
a culpa de tudo é do acesso às armas, à flexibilização da posse. Leio uma
deputada indo mais longe: a culpa seria do incentivo à violência feito pelo
atual presidente.
De outro, leio que
deveria haver funcionários e professores armados na escola. Eles poderiam ter
reagido. Leio que Guilherme era menor de idade, e que tudo pode dizer respeito
à redução da maioridade penal.
É quase
inacreditável ler este tipo de coisa de quem deveria liderar o País.
Me vem à cabeça o vaticínio de Tzvetan Todorov, de que:
“O primeiro inimigo da democracia é a SIMPLIFICAÇÃO,
que reduz o
plural ao singular e com isso abre
espaço a toda forma de excesso”.
Todorov fala do excesso como descontrole, besteira,
irresponsabilidade, destempero. Tudo que nos impede de fazer as perguntas que mereceriam ser feitas depois de um dia
triste como o de ontem.
Fonte:
Folha de S. Paulo – Colunas e Blogs – Quinta-feira, 14 de março de
2019 – 11h41 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.
É preciso escutar vítimas de traumas
como
o da escola de Suzano
Vera Iaconelli
Doutora
em psicologia pela USP
Espaços de troca,
como a família e a escola, estão cada vez
menos propícios para
o diálogo
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VERA IACONELLI - psicóloga |
Uma das definições de trauma
é que se trata de uma vivência cuja
intensidade e o caráter inesperado supera nossa capacidade psíquica de
elaboração.
Algo nos surpreende, somos
tomados pelo choque e as sensações
de incredulidade, medo e dor tomam a frente. Se não tivermos a oportunidade
e as condições favoráveis à elaboração do acontecido, a cena retorna
insistentemente na tentativa de entendermos, afinal, o que nos atravessou.
Dois jovens
entram em uma escola, matam oito pessoas, ferem outras tantas e depois se matam
— um dos dois atirou no outro antes de se suicidar, segundo a
investigação.
Não é o primeiro relato (no Brasil há alguns) e,
provavelmente, não será o último, mas devemos fazer tudo que estiver ao nosso
alcance para aprender algo que possa servir de estratégia para inibir ao máximo
suas repetições.
Não sabemos
quais foram as verdadeiras motivações desses jovens e nunca saberemos, pois esse
segredo será enterrado junto com eles. Talvez nem eles mesmo soubessem o
que os levou à tanto, embora pudessem acreditar saber. As causas inconscientes, que costumam estar por trás desse tipo de
acontecimento, exigem uma escuta mais apurada.
No entanto, alguns
elementos pedem uma reflexão urgente. Jovens tendem a ser mais impulsivos e
resolver seu sofrimento em ato. Embora a dor dos pais das vítimas seja
incomensurável e quase impossível de imaginar, temos que considerar que o suicídio dos assassinos revela um grau de
sofrimento extremo de um sujeito que não reconheceu nenhuma saída possível
para sua dor.
O suicídio
é a descrença absoluta no laço social e afetivo como forma de superar as
dificuldades humanas. Daí nossa insistência nos recursos que apostam na
escuta e na possibilidade de recriar laços, que façam o sujeito sentir que ele
pode permanecer vivo, pois vale a pena compartilhar sua experiência encontrando
alguém que o reconheça.
No entanto, nossa cultura tem fomentado as condições para que
esse tipo de saída desesperada exista. Os
jovens têm se sentido mais solitários desde que as interações passaram a ser
predominantemente virtuais, pois centenas de amigos nas redes valem muito
pouco em termos de experiência afetiva íntima e enriquecedora.
Os espaços
de troca, como a família e a escola, estão cada vez menos propícios para o
diálogo e a observação das necessidades individuais das crianças e dos
profissionais. Não é à toa que a mensagem cifrada que a violência carrega
se dirija a esse interlocutor privilegiado que é a escola.
O que não
chegou pelas palavras chega em ato tresloucado. A
verdadeira idolatria pelas armas de fogo, tão insistente hoje no nosso país,
vem incrementar uma combinação já suficientemente perigosa.
As armas costumam
ser empunhadas por jovens do sexo masculino
e não podemos deixar de pensar na crise pela qual passam homens fragilizados em sua virilidade que acreditam que a violência os faz fortes. As imagens deles portando
armas lhes dá um ar de onipotência, que esconde a sensação de fracasso.
Na sequência dos acontecimentos, cabe escutar as vítimas,
para que elas possam elaborar essa cena traumática. Enfim, não sabemos o que se
passou em Suzano, mas devemos falar sobre isso e, principalmente, escutar.
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